‘Corpo Elétrico’

Dirigido por Marcelo Caetano, longa é uma das estreias desta quinta-feira, dia 17.

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17 de agosto de 2017

Numa cena de “Corpo Elétrico”, de Marcelo Caetano, a patroa pergunta a Elias se ele conhece Londres porque a capital britânica “é a cara dele”. De fato Londres é uma das cidades mais cosmopolitas e descoladas do mundo, mas Elias é um paraibano em São Paulo, que vive plenamente sua criatividade, sua sexualidade, suas relações sociais em geral. Quer coisa mais descolada que isso?

Ambientado em São Paulo, longa é uma divertida e melancólica observação sobre o universal que se particulariza na singularidade do protagonista (Foto: Divulgação).

Ambientado em São Paulo, longa é uma divertida e melancólica observação sobre o universal que se particulariza na singularidade do protagonista (Foto: Divulgação).

O jovem trabalha numa confecção de roupas onde ocupa uma posição importante, mas aparentemente não é remunerado como deveria. Na fábrica, ele convive com os trabalhadores da linha de produção. A massa trabalha intensamente para atender as encomendas do fim de ano. Mas a câmera que foca a coletividade revela aos poucos a pequena história de cada um. Todos e sempre um pouco mais de Elias que equilibra a rotina na confecção com sexo casual com parceiros que vão cruzando sua vida.

Em plano muito bem concebido, onde os funcionários caminham por uma rua contando seus planos, desejos e preocupações. Eles, bem humorados, se unem para tomar uma cerveja no fim do exaustivo expediente, numa observação daquela gente que não quer só comida, quer viver, ser feliz. Um acerto do diretor que segue na linguagem de prestigiar o individual, dentro do coletivo. Numa outra cena, o conceito vai se repetir num impressionante bailado de guarda-chuvas numa rua paulistana enquanto Elias caminha dentro do cotidiano que ele quebra com seus encontros com rapazes, resultando em histórias atraentes de um dia qualquer.

Filme ganha muito com o brilho do elenco (Foto: Divulgação).

Filme ganha muito com o brilho do elenco (Foto: Divulgação).

Elias saiu de um ninho conservador para viver sua individualidade e, quem sabe algum sucesso. Mas no momento, ele é mais um dentro da coletividade, trabalhando muito para conquistar pouco. O título “Corpo Elétrico” sugere algo como um robô na metrópole, que está ligado na tomada para servir, mas que entra em curto e se expande. O trabalho não supre seu desejo pela vida. É com as drags queens, que sobem no palco e “batem cabelo” levando o público ao delírio, e depois passeando em motocicletas em luzes neon com as rainhas da noite que esse corpo não será apenas uma máquina feita para produzir. O que vale é o puro prazer. Que ele vai encontrar também no churrasco com os amigos da fábrica ou numa roda de pagode.

Divertida e melancólica observação sobre o universal que se particulariza na singularidade de Elias, o filme ganha muito com o brilho do elenco, que sem exceções, dá um banho de naturalidade, com destaque para o protagonista Kelner Macêdo, o Elias, com uma pitadinha de Terrence Stamp, o sedutor da burguesia, em “Teorema”, de Pasolini. E prepare-se para Márcia Pantera em cena. No palco ou pilotando sua moto de neon e strass, ela não deixa pedra sobre pedra.

Avaliação Ana Rodrigues

Nota 4