Cosmos

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13 de outubro de 2016

Após 15 anos sem filmar, o controverso cineasta polaco-ucraniano Andrzej Zulawski deixou sua última obra ao mundo do cinema antes de falecer em fevereiro deste ano. Baseado no romance homônimo de Witold Gombrowicz, “Cosmos” é aquele tipo de filme peculiar que veio para confundir e deixar o espectador perdido em suas reflexões, não para dar respostas e resolver os mistérios que apresenta. Com ritmo lento, o longa alterna seu tom entre dramático-poético e pitoresco, e tem o bizarro como fator atrativo – tanto para os personagens quanto para o espectador.

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“Cosmos” acompanha o sensível Witold (Jonathan Genet), que, reprovado na faculdade de direito, parte em fuga e conhece Fuchs (Johan Libéreau), deprimido por ter se demitido de uma empresa de moda parisiense, a caminho de uma pousada familiar localizada numa zona rural distante, onde o casal proprietário vive com a filha Léna (Victória Guerra) e a sobrinha Catherette (Clémentine Pons). Lá, são recebidos por um pardal enforcado, pedaços de madeira pendurados na floresta e outros indícios estranhos que parecem ter alguma ligação. Witold logo se sente atraído pelas duas jovens, mas apaixona-se obsessivamente por Léna, que é casada e possui belos lábios virginais, enquanto que por Catherette e sua boca deformada nutre mais uma curiosidade. Já Fuchs desaparece todas as noites e retorna com machucados e contusões inexplicáveis em todo rosto e corpo, que ninguém na pensão parece reparar ou se importar.

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Vencedor do prêmio de melhor realização no Festival Internacional de Cinema de Locarno, o filme foi produzido por Paulo Branco, produtor com maior número de filmes (mais de 200) exibidos nos festivais de Cannes e de Locarno. Sua estética singular remonta aos longas “Vocês Ainda Não Viram Nada!” e “Ervas Daninhas”, de Alain Resnais, que, talvez não coincidentemente, tinha como musa Sabine Azéma, que interpreta a dona da pensão, Madame Woytis. Junto com Jean-François Balmer, que vive seu marido Léon, um aposentado que gosta de adicionar sufixos latinos ao final das palavras e até inventá-las, Azéma protagoniza a maior parte das cenas de alívio cômico da trama como um casal excêntrico que parece ter parado no tempo, cujas frases sem muito sentido aparentemente não têm muito a acrescentar.

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Não faltam referências em “Cosmos”: de Tolstói, Sartre e Stendhal a Bresson, Pasolini, Shakespeare e Fernando Pessoa (que tem o poema “Magnificat” recitado em dado momento), a Tintim e Pato Donald – uma verdadeira esquizofrenia artística, como a encarnada por Witold, que recebeu este nome em homenagem ao autor que inspirou esta película escrita e dirigida por Zulawski. O cineasta, aliás, explora os cinco sentidos de maneira bastante particular: o cheiro do pardal morto, o sabor das refeições da pousada, o olhar que admira o belo e o bizarro, o ouvido que escuta histórias sem sentido e o sexo no quarto ao lado, o toque sutil entre mãos. As atuações teatralizadas, os diálogos com floreios poético-delirantes, os contrastes frequentes, a mistura de idiomas (francês, português e inglês), pequenos gestos que podem parecer estranhos à primeira vista: tudo contribui para que “Cosmos” seja a obra curiosa a que se propõe e que irá agradar a um público muito restrito.

Festival do Rio 2016 – Panorama do Cinema Mundial

Cosmos (Idem)

França / Portugal – 2015. 103 minutos.

Direção: Andrzej Zulawski

Com: Jonathan Genet, Johan Libéreau, Sabine Azéma, Jean-François Balmer, Victória Guerra e Clémentine Pons.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4