Cozinhar F*der Matar

Proposta equivocada em desequilíbrio entre linguagem e extracampo social

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06 de novembro de 2020

Infelizmente, nem só de paraíso se faz a seleção da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Também há exemplares como o risível filme tcheco “Cozinhar F*der Matar” de Mira Fornay, uma fusão equivocada entre a fantasia, violência e até coro grego para falar da opressão patriarcal na sociedade. Um filme que quase corre o risco de culpabilizar as vítimas em seu péssimo timing pra tentar fazer humor na caricatura.

Vamos explicar melhor esta situação… Na trama, seguimos um protagonista masculino que está em crise no casamento e na família, e precisa passar por uma série de desafios condicionados um ao outro ciclicamente para poder retornar à satisfação da questão originalmente proposta no início: que é poder rever seus filhos. Uma série de chantagens emocionais familiares se desenvolve, envolvendo sogros, mãe e padrasto, cunhados e etc… numa linguagem que não hesita em exagerar na violência gratuita e repetitiva…

A partir daí, veremos o protagonista “morrer” várias vezes, em momentos e formas diferentes, cada vez mais perversas… A força da linguagem do cinema passa a nos fazer ter pena dele…, mesmo que talvez ainda não tenha feito por merecê-la. Afinal, aparvalhado, ataráxico, omisso, negligente e sem demonstrar qualquer motivação (esquecendo até o mote inicial de seus filhos), parece que esta foi a intenção do filme em tentar desconstruir a permissividade passiva dos homens à violência estrutural contra si mesmos, contra as mulheres e tudo à sua volta. Porém, adotando de um estranho humor naïf e kitsch, com cores, gestos e até cantoria exageradas em meio a tamanha violência (como surras e assassinatos dantescos), a denúncia que se quisesse fazer acaba se perdendo no meio do caminho…

Pior do que isso, além do péssimo timing de tragicomédia, o que não seria um pecado por si só, ainda se torna redundante e perigosamente desproporcional (ATENÇÃO: SPOILER crucial para debater esvaziamento ético da trama) quando o filme transforma o protagonista masculino numa personagem feminina que chega na terça parte final… Além de pouco tempo de tela, e de interpretar numa chave completamente diferente da de sua contraparte, ao invés de nos sensibilizar pelas injustiças na sociedade serem muito mais abismais contra as mulheres, acaba por ser condescendente com os dois terços anteriores de trama. Não responsabiliza a violência, e sim termina por quase justificá-la. Uma corda bamba bastante tênue ao gosto do freguês, porém que, mesmo com toda a experiência deste que vos escreve com a violência física e moral do cinema romeno contemporâneo, muito bem resolvida em outros exemplares, aqui simplesmente não consegue funcionar a contento para nenhum lado. Ainda mais manipulando arquétipos tão sensíveis e urgentes quanto aqueles com os quais lida de forma superficial e irresponsável. Lastimável.