Crônica de uma morte anunciada

Já em cartaz, 'O paciente' transforma o calvário de Tancredo Neves em um conto moral sobre vaidade e resistência, amparado no desempenho luminoso de Othon Bastos

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18 de setembro de 2018

7777 777 O Paciente

Rodrigo Fonseca
Vivemos dias de tensão pré-eleitoral. Frente ao Estado de alerta de conflito em nossa política, no qual as narrativas sobre o Poder Executivo se reportam a ele em clima de desespero, é natural que uma de nossas primeiras baixas simbólicas seja a medida do heroísmo, na impossibilidade de identificarmos um protetor, um defensor, uma segurança. Frente a essa geleia geral (e moral), a principal contribuição do drama “O paciente” – de longe, de longe, o filme mais sólido da carreira de Sergio Rezende – é o fato de ele expor o ocaso do herói, seja no conceito clássico ou nos conceitos modernos do termo. É um filme sobre o herói trágico em sua condição mais passiva (ou quase passiva), diante da finitude.

Na lógica cinemanovista de outrora, uma frase de Gramsci, profeta da dialética, soaria ideal para resumir paralelismos entre o real e o ficcional: “Um herói se mede pela fome do povo: barrigas vazias roncam pela necessidade de quem lhes sacie o apetite”. Mas a lógica do roteiro sinuosamente saboroso de Gustavo Lipsztein escorre por outra mais-valia. A mais-valia aqui é a da vaidade médica.

Em sua estreia, o longa-metragem arrastou 17 mil pagantes para os cinemas, iniciando uma carreira com fôlego para ir longe. Retomo aqui ideias de um texto recém-publicado no Jornal do Brasil:
Instalado numa bifurcação entre o drama e o suspense, equilibrando-se nela pela montagem taquicárdica de Maria Rezende, “O Paciente – O caso Tancredo Neves” transpira tensão em seu esforço de ir além do registro histórico e tirar seu protagonista da dimensão mítica. Há menos interesse pelo estadista Tancredo, com seus feitos simbólicos em prol da democracia, e mais apreço pelo Tancredo gente como a gente, suscetível a dores abdominais, vômitos e desabafos do tipo: “eu não merecia isso”.

O foco do roteiro de Lipsztein – potencializado por uma carga emotiva ascendente – é menos na esfera do político e mais no terreno das fraquezas, entre as quais, a vaidade, encarnada na apavonada figura de um dos médicos do presidente, o Dr. Pinotti, defendido de forma luminosa por Paulo Betti. Na tela, a “cirurgia” de desmitificação simbólica de Tancredo, facilitada pelo desempenho em estado de esplendor de Othon Bastos, é uma operação comum a quase todos os filmes de Sérgio Rezende, o que faz do diretor de “O homem da capa preta” (1980) um realizador autoral. Só que a linha narrativa adotada pelo cineasta aqui, na fronteira do thriller, com a (bem-sucedida) acomodação de imagens documentais, transgride suas próprias convenções, fugindo da cartilha biográfica e indo para o terreno do conto moral. “O paciente” é um filme sobre a arte de resistir e os limites físicos que a vida (essa danada) impõe aos verbos de ação.

 É tocante a composição de Antonio Britto feita por Emilio Dantas

É tocante a composição de Antonio Britto feita por Emilio Dantas

Realizador de uma espécie de Scarface da Baixada Fluminense, o supracitado “O Homem da Capa Preta”, Rezende fala com recorrência de homens épicos que se encontram diante de um turbilhão histórico, como foram Antônio Conselheiro em “Guerra de Canudos” (1997), o Barão de Mauá em “O Imperador e o Rei” (1999) e o bandido Professor de “Salve Geral!” (2009). Fez recentemente o belo “Em nome da lei” (2016). Nele, criou a figura tridimensional do juiz Vítor. A complexidade desse personagem só é superada pela complexidade da atuação de seu intérprete, Mateus Solano, cujo gestual fora do óbvio, com tiques alheios a padrões conhecidos, atomiza austeridades, emprestando-lhe uma jovialidade rebelde, típica dos durões de miocárdio mole vivido por Burt Lancaster. Tancredo, aqui, em “O paciente”, carrega, de alguma forma um pouco de cada um dos “heróis” de Rezende.

Esse conto, narrado com o desespero de quem se vê diante de uma morte anunciada, tira o melhor de Sérgio e também do fotógrafo Nonato Estrela, dono de uma das mais sólidas (porém menos reconhecidas) linhas evolutivas de nosso audiovisual na depuração da imagem. Parceiro de Glauber Rocha (em “Di Cavalcanti”) e David Neves (em “Muito prazer”), Nonato tira o visual do filme do leito mais ordinário do storytelling rasteiro e aposta numa aeróbica de closes e planos sem cortes, o que amplia a claustrofobia da trama. Sua câmera é generosa com a dor de D. Risoleta Neves, que devolve à telona todo o brilho que Esther Goés esbanjou lá atrás, em “Stelinha” (1990), e que ficou na saudade. Igualmente tocante é a composição de Antonio Britto feita por Emilio Dantas. Rezende talvez tenha chegado ao melhor de si, e levou todo o elenco e a equipe com ele à excelência.

Estamos diante de um dos melhores filmes nacionais de 2018.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4