Culpa (20° Festival do Rio)

Tensão engenhosa sem sair do lugar

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07 de novembro de 2018

“Culpa” do dinamarquês Gustav Möller já havia causado frisson na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas tivemos a sorte de repetir no 20° Festival do Rio, e mais sorte ainda o público brasileiro que perder o filme agora, pois ele estreia no circuito comercial em dezembro! Mas nada se compara a assistir com o público super engajado e imersivo dos Festivais especializados de cinema a toda esta finíssa tensão construída na mise-en-scène de “Culpa” sem praticamente sair de um único recinto ou desviar a câmera do protagonista solo Jakob Cedergren.

O quão engenhoso é o texto, diálogo e construção dramatúrgica de argumento tão simples quanto acompanhar uma noite de plantão de um telefonista da polícia que repassa chamadas de emergências. Desta sinopse aparentemente rasa, que o cinemão americano já tentou fazer tantas vezes sem sucesso (como em “Chamada de Emergência” e tantos outros fracassos malfadados na pretensão hollywoodiana), quem diria que a sobriedade dinamarquesa conseguiria extrair tantas camadas da surpreendente atuação de Jakob, um personagem ao mesmo tempo mosterioso e trágico por estar dissociado dos eventos que lhe são narrados pela linha telefônica, ao mesmo tempo que impotente e castrado por um segredo de seu passado que irá colocá-lo em xeque. Terá ele chance de redenção?

Um jogo de cena que funciona brilhantemente pela existência de dois filmes simultâneos acontecendo: o que está posto na tela, narrado e materializado pela corporalidade na pantomima física de Jakob, como num palco do monólogo que o ator irá nos apresentar. E a narrativa por trás dessa, da qual só ouvimos as vozes no telefone, os mínimos ruídos, as parcas descrições indiretas e a trilha sóbria, mas impecável para abrir a imaginação de nossas mentes.

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