Culpa

Gustav Möller aposta em fórmula conhecida para criar um thriller sofisticado e tenso.

por

08 de novembro de 2018

Em seu primeiro longa-metragem, o cineasta sueco Gustav Möller apresenta Asger Holm (Jakob Cedergren), um policial à espera da conclusão do processo administrativo que investiga a sua conduta nas ruas. Enquanto aguarda o julgamento, ele é transferido para a central de atendimentos da polícia, com a tarefa de atender ligações de emergência e encaminhar possíveis soluções a os seus colegas em serviço. A tarefa, normalmente tediosa, assume proporções dramáticas quando Holm recebe a ligação de Iben (Jessica Dinnage), vítima de um sequestro.theguilty_c01cor_2018110131

Ao longo da projeção, a audiência só tem acesso às informações recebidas pelo protagonista. Toda a história se desenvolve em um único ambiente – a central de emergências – e os demais personagens só participam dela via telefone. Essa opção narrativa não é nenhuma novidade: em 1948, Alfred Hitchcock se valeu de um apartamento como palco da ação de “Festim diabólico”. Mais recentemente, o mesmo recurso foi utilizado por Roman Polanski em “Deus da carnificina” (2011). Ainda assim, trata-se de uma ousadia: ao abrir mão de outros cenários e de personagens presentes fisicamente na tela, “Culpa” assume o risco de se tornar maçante para o público, especialmente porque sua trama é comum.

Porém, as opções estéticas e narrativas de Möller, sustentadas por um roteiro firme e redondo, conduzem o filme para um lugar diverso. A paleta de cores frias, a profundidade de campo reduzida e a fotografia sombria criam o clima de tensão que acompanhará o protagonista durante toda a obra. Essas escolhas, aliadas aos closes extremos de Cedergren, mostram um Asger Holm acuado, fragilizado e impotente; em dúvida entre o procedimento padrão (aparentemente insuficiente para solucionar o problema) e os seus meios pouco usuais, os mesmos que o levaram a ser investigado pela corporação, ao mesmo tempo em que deixam no ar o questionamento sobre os reais motivos do seu engajamento na solução do caso.

“Culpa” se revela, afinal, um thriller sofisticado e angustiante, deixando claro mais uma vez que a forma como se conta a história é mais importante que a história em si.

Avaliação Celso Rodrigues Ferreira Junior

Nota 4