Currais

Campos de Concentração dos velhos novos tempos

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24 de janeiro de 2019

Preparem-se para “Currais” de Sabina Colares e David Aguiar, filme da Mostra Olhos Livres na 22° Mostra de Tiradentes — Sobre campos de concentração (😱) no Ceará (😱😱) até 1932 (😱😱😱), levando milhares de desabrigados que eles chamavam de ‘flagelados’ para trabalhos forçados e escravos em troca de comida estragada (quando sequer os alimentavam), relegados para morrer em massa e ainda ter de cavar a própria cova (😢)… E pior, estes mesmos campos de concentração podem estar voltando na contemporaneidade fascista em uma inversão cruel dos tempos.

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O filme é um misto de documentário com reencenação poética dos fatos através de artistas profissionais e maturados como Rômulo Braga (“Elon Não Acredita na Morte” e “Navios de Terra”) e Zezita Matos (“A História da Eternidade” e “Mãe e Filha”), ou mesmo a voz de Everaldo Pontes (“Batguano”, “Deserto”). Além disso, é preciso ressaltar em primeiro lugar a fotografia  de Petrus Cariry (“O Barco”, “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”) que consegue justamente empregar o tom lírico graças aos contornos naturais do Ceará, num horizonte de montanhas e construções abandonadas em deserto escaldante, como contraste entre a história monstruosa de um genocídio e a sobrevivência de um povo contra todas as adversidades.

Mas é sobre as reencenações que precisamos nos debruçar, visto que o vigor de fato do filme está na busca de seus fatos reais, com impacto inegável dentre imagens de arquivo, fotos e recortes de jornais raros ante a quantidade de coisa que se perdeu (ou se deixou perder por vontade das autoridades). O fato é que os artistas profissionais eram necessários devido a todos os envolvidos na tragédia já estarem mortos, salvo exceção de uma única sobrevivente que até aparece no filme. Já o restante está interpretando relatos — bem como a esplendorosa atriz Zezita Matos que consegue imprimir um registro tão natural que quase nos faz embarcar que poderia ter acometido também a tragédia relatada na família dela, mesmo conhecendo a atriz e seu talento. — Ponto alto do filme.

A questão é que nem todas as interpretações dão certo. Não por falta de interpretação cênica, mas por inserções que não contribuem com a veracidade. O que de início começa com uma ficção paralela ao documental, focada apenas na investigação do personagem de Rômulo Braga, como sempre seguro no papel, é quando outras pessoas vão sendo inseridas como investigadores/entrevistadores também que o foco dramático começa a espargir um pouco. Além disso, o encontro da linguagem documental com a parte ficcional em alguns destaques muito positivos, como o relato das casas mal assombradas de tanta gente que já foi morta ali, passa a abraçar a performance artística mais escancarada, e todas estas podiam ter ficado de fora da montagem final — apesar da tentativa louvável. Algo que destoa sem necessidade e de difícil conexão, quando a história verídica já conecta as pessoas por si só.

É necessário ressaltar que o diretor de fotografia Petrus Cariry advém de uma pegada do gênero horror psicológico, e algo desta linguagem é impressa aqui. Até porque a história em si é sufocante por si só, mas em alguns momentos mais imateriais e em locações vazias o contato da luz e sombras com a trilha são úteis na imersão, mesmo que a desconcentração cênica possa diluir um pouco esta força. Mas entende-se também não sufocar a narrativa apenas nos seus aspectos negativos inerentes à denúncia, e sim para também imprimir dignidade aos personagens que não podem deixar de honrar o Ceará pelo próprio fato de terem sobrevivido. Suas existências são dignas e não se encerram ou se reduzem à tragédia de suas histórias.

No fim, ainda assim, a magnitude de um relato destes, perante o registro de uma lembrança denunciativa que muito brasileiro desconhece, continua sendo imprescindível. Ainda mais em tempos que perigam regressar a iniciativas genocidas de higienização forçada dos problemas da sociedade como esta. Muito triste mesmo.