Curral

Reflexo da realidade eleitoral contemporânea

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13 de novembro de 2020

Como primeira indicação muito pertinente com o agora, “Curral”, de Marcelo Brennand (2020), é uma história de ficção que versa justo sobre o processo eleitoral de uma cidade do interior. O assunto não poderia estar mais em voga, em consonância com realidade atual, uma vez que, depois de acompanharmos um dificílimo processo eleitoral nos EUA, não podemos ignorar que está chegando a vez de o Brasil também voltar às urnas. É uma segunda chance para recomeçar as mudanças, a partir dos cenários regionais, e diante da extrema decepção com o governo federal que já supera 70% da população indignada.

Voltando a falar da trama do filme, somos guiados pelo ponto de vista de um cabo eleitoral, Chico Caixa (na pele de Thomas Aquino, o ‘Pacote’, de “Bacurau”), que embarcará na rixa entre candidatos que representariam lados opostos de ideologias partidárias, jamais nomeadas como “esquerda” ou “direita”, somente pelas cores azul e vermelha. O curioso disso é que estas são justamente as cores da bandeira norte-americana, numa possível crítica ao eterno colonialismo de nossas terras a partir de interesses estrangeiros, acima de quaisquer polarizações contemporâneas – algo que já tínhamos visto, não por acaso, em “Bacurau”, também protagonizado por Aquino. Aliás, noutra correlação com o nosso premiado longa dirigido por Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, “Curral” igualmente gira em torno da água como principal pivô das disputas e dos direitos sociais em meio à seca, como metáfora incondicional da vida em qualquer democracia.

A linha narrativa possui diferentes núcleos de personagens a despertar o interesse e engajamento do espectador, porém, apesar de acertarem sempre que giram em torno da órbita do protagonista, possuíam potencial para existir à parte também. Alguns desses polos promissores vão sendo um pouco deixados de lado, enquanto outros não são desenvolvidos a contento, vide as excelentes personagens coadjuvantes de Clebia Sousa, Fernando Teixeira e Carla Salle (“Motorrad” de 2017) – sendo esta quase a coprotagonista, na pele de uma ativista não binária que vai se tornando interesse romântico de Chico Caixa. Pena que ela vai deixando de ter camadas tridimensionalizadas, de acordo com que o romance passa a ser tratado como um fim e não como um meio. Tanto ela, quanto ele, saem perdendo por esta sintetização, ficando aquém de referências mais interessantes a que o roteiro de “Curral” alude, como aos filmes “Camocim”, de Quentin Delaroche, e à obra-prima “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Por sinal, noutra referência a este clássico, talvez tenha faltado aqui triangular a trama com outras instituições que permeiam um processo eleitoral, complexificando as tensões, como pela imprensa ou pelos sindicatos, só pra citar algumas possibilidades.

Já quando falamos de antagonistas da trama, o destaque vai para o inescrupuloso prefeito Vitorino, o qual deseja uma reeleição a qualquer custo, interpretado por um dos maiores atores do cinema brasileiro, José Dumont (de cults como “A Hora da Estrela” e “Abril Despedaçado”, filmes que estão fazendo aniversário, e cujos debates comemorativos com o ator podem ser conferidos aqui e aqui). Encarnando o primeiro papel em sua carreira de um homem poderoso na política, é bastante intrigante até o fato de que a filmografia brasileira não houvesse desenvolvido ainda mais desdobramentos dramatúrgicos neste sentido para tamanho talento, num ponto bastante acertado para o diretor Marcelo Brennand. Aqui, tal riqueza de contradições é aplicada de forma eficiente para ganhar destaque – mesmo passível de encontrar brechas no roteiro, que Dumont mais do que compensa em recursos cênicos de gestos e expressões, até em seus silêncios.

*originalmente publicado na Revista Fórum e ora revisado e ampliado:

https://revistaforum.com.br/cultura/curral-eleitoral-caiu-o-de-la-falta-o-de-ca-por-filippo-pitanga/