Curupira

Quem tem medo do Curupira?

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12 de julho de 2016

Com a profusão de musicais no teatro para toda família, houve um pouco de perda do foco nas crianças e nas peças infantis, que também merecem atenção em educar e entreter ao mesmo tempo. Percebendo-se isso, principiou um resgate de contos clássicos, como Peter Pan e Cinderela, mas e o folclore brasileiro de raiz? Onde estariam nossos próprios clássicos? O quão fortuita é a celebração de vinte anos da companhia Boto-Vermelho, com o regresso aos palcos da montagem de “Curupira”, uma das nossas criaturas fantásticas nativas, em multipremiado texto original de Roger Mello.

Curupira FOTO 2. TMCM.

Com encantamento cênico que fisgará não apenas infantes como adultos, a história acompanha dois irmãos que contam fábulas e lorotas até se verem dentro de uma, perdidos na Floresta em meio a personagens amalucados da mata, capitaneados pelo Curupira. No fundo, testa a criançada a apreciar e preservar sua cultura, e ao mesmo tempo a não ter medo do desconhecido. Há alguns pequenos sustos bem aplicados em divertir e vislumbrar, graças principalmente ao cenário engenhoso, tridimensionalizado pela luz e som da natureza, com um ótimo técnico fazendo efeitos sonoros em tempo real. Além da trilha de Villa-Lobos e das ricas cantigas populares brasileiras. E isto realça bastante a imersão do público.

O Curupira- @carlospeder-7

Foto de Carlos Peder

Ao mesmo tempo, também engrandecem os figurinos caprichados, de inúmeros detalhes e costuras aludindo ao espírito de literatura de cordel, tipo tradicional do Nordeste que conta fantasias em tom romântico-lúdico e colorido. A química entre os atores também foi bem trabalhada nesta montagem. Cada um interpreta mais de um personagem, às vezes até um ao outro, dando suas próprias camadas a eles. Para a encenação de Ricardo Schöpke é um tour de force a conquistar as crianças, catalisado especialmente pela revelação do jovem companheiro de cena Alain Catein. Ele traz um equilíbrio perfeito entre inocência e malícia que os personagens de cordel necessitam, com voz marcante nas canções, e acaba sendo o fio condutor para crermos nas criaturas em geral interpretadas por Schöpke. A inserção da delicada caracterização na pele alternada das atrizes Chiara Santoro ou Sophia Dornellas, com um belo timbre vocal, especialmente no papel da mariposinha, poderia ter sido mais aproveitada, apesar de ser imprescindível para ajudar tecnicamente alguns dos melhores momentos da peça. Há de exemplo as líricas projeções de luz no mural de fundo do palco, como num teatro de sombras, dando asas aos personagens ou vencendo monstros gigantes.

O Curupira- @carlospeder-8

Tudo numa linda homenagem à arte em si, como se percebe na tradição teatral do uso de máscaras e duplos dos personagens, reflexos cênicos do lugar do ator em se aproximar da plateia. Programa imperdível para todo mundo se redescobrir criança.

Foto de Carlos Peder

Foto de Carlos Peder

O Curupira- @carlospeder-11

Foto de Carlos Peder

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5