DC Deluxe Batman e Filho

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26 de dezembro de 2014

Passados alguns anos de suas duas histórias clássicas com o Morcego – Asilo Arkham e Gothic – e aproveitando alguns dos elementos inseridos da saga semanal 52, Grant Morrison daria início a sua empreitada rumo a nova imaginação de Batman, dando a ele o lugar de destaque maior em meio ao universo DC tradicional, como já havia feito antes, quando escritor da Liga da Justiça.

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É curioso notar que os roteiros resgatem os momentos clássicos do Cruzado Encapuzado, que na prática, só passaram a ser canônicos após a intervenção do autor. Os elementos que Michael W. Barr pensou em seu Filho do Demônio estão repaginados, digeridos segundo a cabeça caótica do escocês, mas ainda assim bem fiéis as suas origens, mas ainda assim, continuísta, não utilizando o fato do “resgate” como muleta para não contar a história nova.

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Antes do primeiro ram de Morrison, é recomendável acompanhar o início de “Um ano Depois”, com a historieta Cara a Cara, escrita por James Robinson. Após doze meses, Gordon poderia finalmente acionar seu parceiro justiceiro. No breve preâmbulo, é escrutinada a contestável escolha do sucessor do herói em Gotham, que ficou a cargo do de um “restaurado” Harvey Dent, sem cicatrizes visíveis e com a mente sã. Após tornar-se um suspeito, ele tem uma conversa com seu alter-ego, exibindo uma fraqueza e insegurança plenamente justificável, dado seu histórico como Duas- Caras. A recaída resulta na irresistível tentação de auto flagelo e o antigo promotor retorna aos tempos de vilania.

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Enquanto Gotham é tomada mais uma vez pelo arqui-rival Coringa, que aplica o gás do riso no Comissário Gordon, levando um tiro no rosto no “Batman” – mais tarde nota-se que era um ardil, um plano secundário do Morcego para uma possível sucessão a ele, onde preparava três pessoas, entre elas um policial, para assumir seu posto caso algo acontecesse, Tim Drake, o terceiro Robin é adotado por Bruce Wayne, aparando uma incômoda e antiga aresta.

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A arte de Andy Kubert não chega perto dos tempos áureos de seu pai, Adam, mas consegue ter em si uma resolução melhor do que é visto anteriormente em sua carreira. Ao menos quando trabalha em parceria com Morrison, seu traço não fica tão parecido com o de Jim Lee. Enquanto Bruce tem de interpretar um papel, como um filantropo playboy e mulherengo, é ironicamente observado por Talia Al Ghul, paralelamente ao momento em que conhece a bela Jezebel Jet cuja referência mais famosa é a uma vilã nas histórias bíblicas, com característica de lascívia e sedução, seu papel seria ainda mais importante nas sagas futuras.

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A chegada de Talia é motivada pelo crescimento de seu herdeiro, fruto da única noite em que a fogosa filha de Ras Al Ghul deitou-se com o Detetive. Damian já havia sido treinado pela elite da Liga dos Assassinos, o modo indócil como o garoto age é semelhante ao de qualquer menino de sua idade, mostrando que apesar do seu acurado tratamento, ele ainda é sujeito a defeitos comuns, como o de precisar dar vazão as atividades hormonais em ebulição, ao seu modo claro.  Prosseguindo em seu comportamento errático, Damian decapita um vilão, mostrando o quanto de compaixão tem com seus inimigos, acabando seu turno ao derrotar Tim Drake, tomando para si uma roupa de menino prodígio, achando que deste modo, teria a atenção de seu progenitor, unindo os arquétipos de filho legítimo e parceiro. O medo de ser um bastardo o acomete, mesmo se esforçando ao máximo para não aparentar fraqueza. Ao final do arco, Damian retorna aos cuidados de sua mãe, mas não por muito tempo.

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Em o Palhaço A Meia Noite, Morrison põe para fora seu talento como escritor, apresentando uma história que transita entre a arte aquarelada de John Van Fleet, com quadros amplos, reduzidos aos cantos de página, habitando paralelamente o texto em prosa do escocês, num formato pouco usual para a indústria. A não definição de estilo acomete também os desenhos, que dão uma aura de pura anarquia a historieta, cujo caráter tragicômico prevalece até sobre as características básicas dos vilões Coringa e Arlequina.

Retornando a trama principal, a história se bifurca em dois lugares, uma mostrando planícies geladas, onde Bruce se aventura pela neve com Jezebel, e outra exibindo Gibraltar, o lugar onde Talia ataca adversários com seu exército. A condição mental do Morcego está precária, com sucessivos sonhos onde seus medos o confrontam, em forma de figuras fantasmagóricas, a respeito de seu passado, presente e futuro. O acesso ao Arquivo de Casos Inexplicáveis, que remete as ácidas aventuras do Morcego e seu parceiro nos idos de 1960 e 1970, relembram a mania de Morrison de nada ignorar, tentando dar um novo sentido mesmo as histórias banais de Batman, dessa vez,  dando um viés psicanalítico a sua fórmula. Toda a viagem interior executada por Wayne faz ele repensar seus traumas e decidir por algo mais sossegado, afeiçoando-se cada vez mais a Jezebel Jet.

O encadernado se encerra com “A Lenda de Batman”, publicada sugestivamente em Batman 666, que mostra um futuro alternativo, de sucessão no manto do Morcego. Antes da ação começar, é exibido um preâmbulo, que remonta a origem de Damian, como um bebê sustentado por um útero artificial, que mais tarde se tornaria uma criança treinada para assassinar e substituir seu pai, como último ato da profana relação de Batman e Talia. Sua decisão de trair sua predestinação faz dele um párea, cuja situação piora quando o detetive falece, fazendo de Damian Wayne seu sucessor, com um lugar indefinido entre ser um justiceiro e um anti-herói violento. Aos poucos, o herdeiro do manto demonstra sua evolução, falando da promessa que fez de que Gotham teria um vigilante, mesmo que ele mesmo não fosse melhor que Bruce e Dick Grayson.

Seus atos finais impedem um apocalipse que se aproximava, impedido um dos imitadores de seu pai. Damian é a figura de Grant Morrison, numa contraparte semelhante ao que ocorreu na série Os Invisíveis, ainda que neste a acidez seja menos presente. Os ecos do futuro ainda exibem uma Gotham tomada pelo crime, reforçando a idéia de que a cidade sempre precisará do Morcego. Batman e Filho é apenas o começo da trajetória do roteirista a frente do título, que ainda garantiria uma série de ótimos momentos, cujo escapismo flerta com a psicodelia presente em toda a carreira do autor.

Avaliação Filipe Pereira

Nota 4