De Palma

Documentário promove uma retrospectiva pessoal da obra do diretor

por

11 de outubro de 2016

Aos 76 anos de idade, Brian De Palma continua produzindo. Seus 50 anos de carreira lhe renderam um currículo com mais de 30 produções entre curtas e longas-metragens, imensa admiração de fãs e profissionais, prêmios internacionais e nenhuma indicação ao Oscar. Este último dado, curioso se considerarmos que o cineasta é um dos mais importantes da sua geração, provavelmente é explicado por outra característica marcante de sua trajetória: as polêmicas em que se envolveu na luta incansável pela manutenção do controle criativo dos seus filmes.

De Palma

De Palma

O documentário “De Palma” (2015), de Noah Baumbach e Jake Paltrow, é uma ótima oportunidade para que o grande público entre em contato com a filmografia de um dos maiores representantes da Nova Hollywood, movimento cinematográfico revolucionário que deu início ao período que até hoje é considerado o mais audacioso e interessante da indústria norte-americana. Para isso, Baumbach e Palttrow adotaram uma estrutura narrativa idêntica à que Nancy Buirsky utilizou em “By Sidney Lumet” (2015): com a câmera fixa e um enquadramento em close, De Palma fala sobre as suas origens e realiza uma retrospectiva de toda a sua obra, em um grande e profundo processo revisionista do próprios erros e acertos.

De Palma

De Palma

Trata-se, assim como o filme de Buirsky, de uma aula de cinema. À vontade e bem humorado, o cineasta tece inúmeras considerações técnicas sobre as mais variadas questões – estéticas e narrativas – e sobre o modo como cada uma dessas escolhas impactou a sua linguagem cinematográfica. Apegado à ideia de que o diretor é um “construtor de ilusões”, ele aponta Alfred Hitchcock e a Novelle Vague como suas principais influências, e demonstra como se apoderou deles para criar um cinema autoral e autêntico, ainda que repleto de homenagens aos seus ídolos.

De Palma

De Palma

Em função de sua estrutura, “De Palma” padece dos mesmos problemas de “By Sidney Lumet”: a ausência de contraponto de membros da indústria e de colegas ao pensamento do diretor. Contudo, dentro da ideia de autoanálise que o filme propõe, essa opção faz sentido e se justifica. Além disso, trata-se de um pormenor facilmente contornado pelo enorme carisma do diretor, capaz de provocar gargalhadas com as histórias de bastidores que conta, e de comover ao retratar as dificuldades que o seu compromisso com amigos e com a própria obra lhe causou. A certa altura, De Palma afirma que o maior problema de Hollywood são os executivos que recebem fortunas para obrigarem os artistas a fazerem aquilo que os estúdios querem, e ressalta: “meus filmes incomodam demais, apesar das concessões que faço. Então, imagine o que eles me obrigam a tirar do filme. Qualquer coisa que provoque uma reação mais intensa do público, eles querem que tire”.

De Palma

De Palma

Quando o longa está próximo do fim, o documentado conclui que um diretor precisa ser muito forte, mental e fisicamente, para seguir uma carreira não convencional. Felizmente, para o cinema, para o público e até mesmo para a indústria que tanto lhe tolheu, Brian de Palma sempre foi forte o suficiente.

Festival do Rio 2016 – Filme Doc

De Palma (De Palma)

Estados Unidos, 2015, 109 minutos

Direção: Noah Baumbach e Jake Paltrow

Com: Brian De Palma

Avaliação Celso Rodrigues Ferreira Junior

Nota 4