Debate com a diretora Shin Su-Won, de “Madonna”

Diretora sul-coreana conversa com o público sobre seu mais recente filme

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13 de outubro de 2015

O Almanaque Virtual participou do debate com a diretora sul-coreana Shin Su-Won, que aconteceu após a primeira sessão de seu novo filme, “Madonna”, no Festival do Rio. O longa conta a história de três vidas que se cruzam: a de uma enfermeira, a de uma ex-prostituta grávida e a de um filho que faz de tudo para manter o pai milionário vivo.

Primeiramente, Su-Won esclarece que o aborto é permitido na Coreia do Sul em casos de estupro. Sobre a sua posição sobre o aborto no início da gravidez, ela diz: “Inicialmente, eu era completamente a favor do aborto em caso de estupro. Só que, enquanto eu estava desenvolvendo o roteiro de ‘Madonna’, tive que parar para fazer um documentário. Foi então que conversei com muitas meninas que foram estupradas, iam fazer o aborto, desistiram e resolveram ter o bebê. Ouvindo estas histórias, mudei de ideia, apesar de não me posicionar contra. Depois disso, desenvolvi mais a personagem Mina”. Ela completa: “Ouvi uma história de uma menina que foi estuprada e assumiu o bebê que falava que desenvolveu uma relação de amor com a criança, mesmo que ela não tenha sido gerada dessa maneira. Isso me fez mudar muito a minha própria opinião”.

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A diretora Shin Su-Won

Indagada sobre como nasceu a ideia de fazer o filme, ela revela que a ideia começou com a história do jovem de pai rico. O roteiro foi mudado duas vezes, mas o argumento inicial era esse: de pessoas que ficavam nas áreas VIPs dos hospitais. Su-Won conta que tinha um amigo que trabalhava na área VIP de um hospital e contou uma história parecida com a do rapaz, que lhe serviu de inspiração. Para a história desse rapaz que mantinha o pai vivo para ficar com o dinheiro, ela diz ter precisado criar um personagem que doaria o coração para esse pai, e a partir daí surgiu a personagem Mina/Madonna. Depois ela mudou mais uma vez o roteiro e desenvolveu a história da enfermeira, criando essa relação entre as duas. Ela afirma que várias histórias de mulheres que se entrelaçam é um paralelo à Coreia atual em crise, que deixa mulheres em situação econômica cada vez mais difícil. Já a história do ônibus, é um fato real um motorista que mandou um vídeo se masturbando para uma passageira, mas não chegou a virar estupro.

Acerca da personagem Mina, a diretora de “Pluto” (2013) fala que a ideia de criá-la surgiu de um dia em que ela estava trabalhando em seu notebook num café e entrou uma menina que aparentava ser saudável e muito bonita, mas era uma mendiga, e achou muito intrigante. Então ela começou a se perguntar quem era essa menina e qual a história por trás dela. A partir dessa visão, ela desenvolveu Mina.

Su-Won relata que a repercussão do filme na Coreia foi diversa: quem gostou, assistiu ao filme mais de uma vez, mas ela leu relatos na internet de que parte do público feminino mais jovem entrou em pânico no cinema. Além disso, ela diz que algumas pessoas a indagaram se ela não estava vendo os homens de uma maneira muito negativa. Sobre a situação do estupro, ela afirma: “Acompanho as notícias de estupro que aparecem no jornal. Na cena do ônibus, enquanto Mina está sendo estuprada, passa gente na rua – não é uma coisa que acontece normalmente, mas acontece na sociedade”.

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Ao ser questionada a respeito do tráfico de órgãos nos hospitais sem intervenção policial, Su-Won responde que obviamente é ilegal, mas que já acompanhou uma história nos jornais, que aconteceu numa cidadezinha do interior, em que uma pessoa acusou um hospital de realizar internamente tráfico de órgãos. Então ela pensou “a sociedade (talvez coreana) está se desenvolvendo de tal maneira que será que é possível isso acontecer num hospital de pessoas muito ricas? Porque a personagem Mina é considerada lixo para essas pessoas, não tem o menor valor para elas”.

A cineasta Su-Won fecha o debate falando da crise econômica na Coreia e sua origem. Ela revela que há um tempo atrás algumas leias coreanas mudaram: muitas pessoas tinham contratos duradouros com as empresas. Porém, com a mudança, as pessoas passaram a ser contratadas por 1 ou 2 anos e deixaram de ter garantias ao perder o emprego. Como isso vem ocorrendo há um tempo, piorou muito a vida da população e a situação social como um todo.