Debate com Antonio e Camila Pitanga na 23° Mostra Tiradentes

A conta não fecha. Eu sou Ruth de Souza, eu sou Abdias Nascimento, eu sou Gregório de Mattos, e não vou deixar de ver em vida essa conta fechar!

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25 de janeiro de 2020

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Debate sobre a homenagem a Antonio e Camila Pitanga na 23° Mostra de Cinema de Tiradentes mediado por Pedro Maciel.

Pedro começa enumerando alguns cineastas com quem Antonio Pitanga já trabalhou e quantos filmes com cada um:

Glauber Rocha: 4
Roberto Pires: 2
Alex Vianny: 1
Cacá Diegues: 7
Andrea Tonacci: 1
Norma Bengell: 1
E tantos e tantos mais…

Pedro cita Outro ator, Jean Pierre Leaud, que paradoxalmente, em outro lado do mundo, mas como analogia à carreira de Antonio, Ambos atores acompanharam tantos cineastas e que trazem até hoje essas relações — 3 só pra citar que ambos estiveram presentes, inclusive, trabalhando lado a lado no filme “Os Herdeiros”. E pergunta a Antonio como foi isso?

Antonio responde muito animadamente e pedindo que o público correspondesse com gosto em dizer “Bom Dia”: “Não deixamos de ser o animador Cultural também”.

“Minha felicidade se dá na cultura, instrumento socializador de todas as civilizações. É o que pôde me dar o passaporte de cidadão. Vim de família muito pobre.”

Antonio fala de sua mãe Maria da Natividade que o ajudou muito: “Eu era peralta (bem século passado…risos). Eu era mais personagem de Capitães de Areia do Jorge Amado.”

E sua mãe, vendo isso, botou em escola jesuíta, franciscana, para ajudar a dar formação: “Eu poderia estar perdendo minha liberdade num momento quando tradicionalmente o jovem recebe asas pra voar, e neste colégio recebi todos os ofícios que precisava, além de outros como sapateiro, carpinteiro, também imprimia convites dos mais diversos…. Vou pegar com todas as mãos e coração em festa de ser alguém lá fora. Passei o primário e ginasial lá. Pronto pra trabalhar. Queria mais. Queria emprego cidadão. E não fui pros correios como era tradicional. Fiz um concurso pro telégrafo inglês que hoje é a “internet”: Western, companhia inglesa de telegrama por submarino.”

E ganhou uma farda e uma bicicleta e se sentia cidadão do mundo. E lá conhece Luiz Paulino que já nos deixou e fez 4 filmes com ele e que era fotógrafo da revista “Mundo ilustrado” (que existia além da Cruzeiro). Mesmo dentro da Companhia já discordava da carga horária e fez uma das primeiras greves organizadas, talvez a 1a no mundo.

Aí fizeram proposta para ponta em Bahia de Todos os Santos E havia incontáveis negros do Liceu disputando pelo papel. E o amigo Walter conhecia o Trigueirinho Neto. E aqueles homens lindos e altos estavam declamando…. e Antonio nunca tinha feito teatro… E Trigueirinho disse que estava procurando um armário gigante que jogasse capoeira… (Antonio se refere a ser menos alto que os outros). E Antonio disse que Trigueirinho ainda não o havia visto de verdade: “Posso tentar fazer o que eles estão fazendo?”. Aí Antonio pediu 10 minutos e absorveu o que viu o pessoal fazendo teste… E leu, leu…e os deuses colocaram a mão abençoada na cabeça dele e ele foi escolhido. Antonio diz que chorou nessa hora (aplausos).

Aí entrou no cinema. Glauber era jornalista na época, do diário da cultura. E já havia feito 2 curtas. E ele foi ver lá na hora e chegou justamente no teste de António e ficou impressionado e quis conhecê-lo. E levou para conhecer sua mãe Dona Lúcia…a sua noiva na época Helena Ignez e cia, e começou a fazer teatro com aquelas pessoas que criaram cultura juntos.

O mediador Pedro Maciel agora dirige a palavra para Camila: Agradece pela fala de ambos na noite de abertura de forma tão consciente de sua ancestralidade e das questões atuais e também pelo fato de se posicionarem em reivindicar as coisas. E cita que pai e filha atuaram como família de classe média com Zezé Motta no núcleo da novela A Próxima Vítima e ainda vemos muito pouco isso até hoje, infelizmente. E pede para Camila comentar…

Camila diz que quando falou de ancestralidade, quis dizer sobre resistência. Como diz o samba da Mangueira 2019, a história precisa ser recontada. Não é aquela história colonialista. Rever é importante para o que a gente quer construir daqui pra frente…

Camila pensou até mais na novela “Lado a Lado” do que “A Próxima Vítima”. Era filha de descendentes de escravos. Ela artista mulher nos anos 30 do RJ….momento que a cultura preta estava ocupando os espaços através do carnaval… E colocava os pretos com pensamento crítico ao seu tempo… E isso é raro na TV. Esse lugar de fala inaugurou muitas coisas. Professores acadêmicos repensando a história criticamente e agradecidos por ter personagens com representatividade preta que não se colocavam como vítima e sim se posicionavam na sociedade.

O filme de Joelzito Araújo “A Negação do Brasil” fez Camila repensar a família negra de A Próxima Vítima, pois apesar de ter valor (tinha filho lidando com homossexualidade com pai machista etc…), mas infelizmente fingiam que não havia problema nenhum, como se não enunciasse o racismo. E isso era uma questão. Na época não perceberam, mas hoje vê: “Amadurecemos. Há hoje novela como Amor de Mãe com a Jessica Ellen como professora defendendo questões afirmativas em ocupações estudantis e isso é lindo. Emancipatório. Não vêm de agora a resistência. Estamos com Benedita aqui. Uma história de luta. São Barraventos que não vão deixar voltar mais atrás. Mesmo com esse fascismo, as lutas afirmativas não vão voltar atrás. Quando nos colocamos em todos os lugares e temos filósofas pretas e rodas de conversa com mulheres pretas isso é muito importante.

Mudando o tópico e falando sobre o documentário “Pitanga” dirigido por Camila Pitanga e Beto Brant:

Camila fala o quanto esse filme foi importante na carreira, referência do que quer alcançar e fazer com seu trabalho no cinema. Um mergulho, imersão…
Seu pai como grande contador de histórias, prazer que ele tem com as palavras… E Beto Brant disse pra Camila que essa história precisava ter registro. E uma coisa era ouvir como filha no cotidiano. E foi outra coisa pensar isso parando para ouvir de outro jeito. Repensar esses filmes e até a sua própria carreira com janelas que se abriram e ainda estão se revelando…. Até pra rever o que era seu pai trabalhando como ator negro num lugar único ali, e sua mãe Vera Manhães ao lado dele. O que foi isso…

Diante disso, é incrível olhar a partir de seu pai uma geração que participou de movimentos de contracultura na Ditadura e com perdas e sofrimento, mas souberam dançar e mudar dentro de si pra saber qual era a chave disso: “Faço uma provocação para Tiradentes talvez em próximas edições de rever outros filmes de meu pai no cinema com personagens à margem e que não querem alienação ou amortizamento ou entorpecimento acomodado… Querem provocar em contracultura e construir outra coisa.”

Camila cita Josi Lopes, colega mineira que fala: “movimento gera movimento”, se inspirar em outras gerações é importante pra mirar o que se quer construir, um Brasil democrático, antirracista e feminista.

Antonio fala que era do grupo do Cinema Novo não como mais um negro e sim como parte do grupo. Muitos textos ali em Barravento ou Ganga Zumba são de sua autoria e pensando coletivamente como construir alguma coisa. Por isso Antonio fica feliz em lembrar o momento em que Beto Brant falou que sua vida é um filme!

Antonio, portanto, cita que Gianfrancesco Guarnieri já dizia: “adversidade é pegar a vida na contramão”. E os negros ja vêm na contramão e esculpiram uma dignidade humana que levam a uma zona de conforto falsa onde o patrão dá teto e casa e comida….mas é de mentira esse conforto: “Não houve libertação. Livre pra onde? Onde estão minhas terras? O ‘eu’ está na história de um Brasil de uma “verdade” que a história não conta (parafraseando o samba da Mangueira).
De onde a Camila veio? Esse pai tem uma história. Como dizer não a esta filha?”

Antonio diz que já viveu todas as décadas que tinha direito. Nasceu no final de 30. Mas tem sempre que se atualizar porque tem que dialogar com a Camila… com as netas. Com a Benedita, essa potência! Antonio se vê como baiano ousado que pediu à Benedita pra dividir esse universo contestador.

E Antonio reitera que esse filme foi uma das coisas mais lindas na sua vida. Contar a história desses jovens que formaram uma geração com o Cinema Novo durante a Ditadura. Esse documentário “Pitanga” pôde falar de tantos e tantos diretores e fez com que pudesse ser contado o que se construiu com tantos com quem Antonio trabalhou. Não cabia todos, mas sim uma espinha dorsal do fazimento deste Pitanga que veio na contramão de uma família muito pobre e que entendeu que não tinha de ser o brigão com o colonizador, mas tem que mostrar pra ele que o custo pra nação é impagável. Imagina a potência do Brasil com essas identidades negras que o Brasil não conta e que estão sendo reescritas e através das quais ainda vamos ver a verdadeira potência do Brasil a partir da visão desses seres que ainda não havia sido permitida. “Aliás, Vou dirigir um filme sobre a revolta do Malês, por exemplo, em breve. Essas histórias têm de ser contadas assim como o documentário Pitanga contou. Eu via esse documentário e via como era apaixonante e me apaixonei por esse Pitanga. Essas histórias são apaixonantes”. (Aplausos).

Antonio complementa sobre esse momento histórico de mensalões e lavajato, e que todas as pessoas presas são brancas. Você não vê pessoas negras sendo presas, senão seriam algemadas de forma violenta, bem diferente da forma como prendem essas pessoas brancas.

As histórias pretas precisam ser contadas. O próprio Antonio foi um dos que mais tensionou que existissem núcleos das famílias negras nas novelas, e olha quantos anos levou para que autores começassem a escrever.

Antonio reitera: “A Conta não fecha. Existe uma dívida histórica e a conta não fecha. Como tantos e tantos que vieram antes e continuam fazendo história! Abdias Nascimento, Ruth de Souza, Zezé Motta, Léa Garcia, Gregorio de Mattos, Lázaro Ramos, e tantas e tantas pessoas mais construindo essa história. E a conta não fecha. Eu sou Ruth de Souza, eu sou Abdias Nascimento, eu sou Gregório de Mattos e não vou deixar de ver em vida essa conta fechar!

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