Debate com César Augusto Acevedo de “A Terra E A Sombra” na Mostra de SP

Diretor vencedor do Caméra D'Or em Cannes 2015 debate com Almanaque na 39ª Mostra de SP

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18 de dezembro de 2015

Num debate no Cine Sesc para a 39ª Mostra de SP após a Première do filme “A Terra e A Sombra”, o estreante cineasta colombiano César Augusto Acevedo, ganhador do prêmio de direção Caméra D’Or em Cannes 2015, descreve com suas próprias palavras que este “é um filme que nasceu de uma dor pessoal, de uma forma de lutar contra o esquecimento, e como esse progresso arrasou a memória, e a história é que identidade.

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Pergunta: Quem são atores profissionais e quais não, como os treinou e qual foi a recepção do filme na Colômbia?

César: Só há uma profissional, a esposa, Esperanza (Marleyda Soto), os outros são da região. Isso que dá carga dramática. Houve um problema grande a retratar, e eu não estava interessado só na interpretação. Tinha de haver verdade nas pessoas da região como Alfonso, o protagonista. Responsável por vários ofícios onde fizeram o casting, como levar café, varrer….Alfonso tinha aspecto interessante do personagem do pai que retorna. Fátima Toledo preparadora de elenco por 5 semanas criou conexões emocionais entres os desconhecidos para virar uma família. Não queria “dar o roteiro”, queria que sentissem o ambiente, queria buscar a conexão entre eles nas cenas, e, para isso, às vezes repetia as cenas 20/25 vezes. O filme já ganhou 4 prêmios em Festivais diferentes, o que é um reconhecimento valioso, claro. Mas é um filme cujo valor é honesto e humano. Direcionado aos sentimentos. Na Colômbia teve 5 semanas em cartaz, bom resultado, pois estão acostumados com outro tipo de filme e olhar, e este tipo que fiz tem outro tipo de vida, e o público reagiu muito bem para algo que não estava acostumado. Fazer filme não é só estar atrás da câmera, e sim compartilhar. Esses filmes são atos de resistência, de refletir e construir memória. Tem que se fazer.
Pergunta: Como foi realizar a grande cena da queimada com fogo ao redor dos atores?

César: Não foi fácil. Os grandes proprietários dos açucareiros não queriam, evidentemente. E não tínhamos permissão para filmar. Tivemos de alugar o terreno, cortar a cana e construir a casa do filme do zero. E planificamos por meses o que queríamos fazer lá. Não há efeitos especiais. Ensaiamos muito e fizemos a coreografia toda, pois é um clímax muito forte e desafiador. Não tinha só uma ideia do sacrifício e do inferno dos personagens, mas tinha de ser também uma cena assustadora para o que eles estavam passando.  Também foi o primeiro filme do diretor de fotografia Mateo Guzmán, e ambos chegamos com mais dúvidas que certezas. Era uma experiência de buscas, além de ter sido uma tomada única. E, como já o ator em questão na cena já havia ido embora após filmar todas as suas cenas, e o incêndio pegou mais forte do que esperávamos, pegamos um técnico de luzes deitado sob os lençóis para ocupar o lugar em cena do personagem. Cena dolorosa e gratificante.

 

Pergunta: O que lhe inspirou a fazer o filme foram fatos autobiográficos?

César: Eu vivi na cidade grande, mas minha família no campo. Visitava algumas vezes. Era uma paisagem parada no tempo, como as enormes plantações de cana de açúcar, e desde pequeno herdei o sentimento de perda. Não estudei cinema e sim jornalismo, e fiz grande pesquisa sore essa área. Me aproximei das pessoas e como viviam esse vazio. A parte mais autobiográfica está nas relações familiares em um sentimento violento de perda, na morte de minha mãe que nos foi uma ruptura grande. Mas se fosse só sobre minha família não interessaria a ninguém. Então o processo foi duro de afastamento e acrescer o valor da terra, do trabalho, com uma pesquisa grande. Há dois processos de leitura, apesar de que espero que para o espectador seja um pacote integral, mas para mim é uma busca de pessoas amadas, um luto, e para me despedir. A sombra que ficou de minha mãe.
Pergunta: Há algo elegante nas imagens e som…. Como foi trabalhar a voz dos personagens?

César: Trabalhamos muito a voz e respiração dos personagens pelas 5 semanas de filmagens
Sim, era uma história realista, mas queria que fosse mais uma construção poética. Poucos diálogos, porém são seres que não podem expressar seus sentimentos mais profundos, então o fazem através da imagem e som, da distância entre corpos e sentimentos, movimento dentro do quadro e como transmitir através dos corpos sem usar palavras. Na preparação, me concetrei mais que as pessoas usassem a memória emocional dentro delas do que o que estivesse fora delas.

 

Pergunta: Há uma relação desumana do chefe com os empregados como existe aqui no Brasil. Como foi captar esta realidade?

César: Eles colhem muita cana para produção de Açucar e não etanol. Na verdade, são 92% da terra total apenas para isso. Muita pobreza. Eu quis captar a alteração constante da paisagem. E os patrões estão sempre certos nesta cultura e não existe outra pessoa a quem pedir seus direitos devido ao abandono do Estado. Há um sentimento heróico dos camponeses, um sentimento da luta e da resistência e como tentam resgatar a identidade.
Pergunta: Quem faz denúncia no Brasil é rechaçado e constrangido…E como foi fazer todas estas denúncias com seu filme na Colômbia?

César: Não houve autorização para filmar, o que foi complicado porque havia outros temas para falar, como a chegada das máquinas, onde cada uma substitui 120 pessoas. Todos serão substituídos. Mas não recebemos autorização para falar disso. Recebemos ameaças nos desmentindo após ganharmos Cannes. Muitos interesses envolvidos. E ganhar prêmio em Cannes é o ápice de um prêmio que a Colômbia já ganhou, e tinha medo que meu filme nem fosse poder ser exibido na Colômbia. As terras são dos políticos, dos ricos, de narcotraficantes, etc… Na cena final do filme, gosto muito da imagem como se fosse um horizonte novo na terra. É sim triste que tenham que ir embora, mas a avó fica como símbolo de resistência, senão toda sua luta não haveria tido sentido. A mensagem do filme é um misto de desraizamento e resistência.