Debate com cineasta Ruy Guerra e elenco de “Quase Memória”

Filme é o único produto que é vendido pelo mesmo preço, não importando se custou pouco ou muito

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18 de outubro de 2015

‘Como é desafiar o tempo no cinema?’ Este tema sempre esteve lá na filmografia do notável cineasta Ruy Guerra, como se pôde debater em bate papo após a sessão de seu novo filme “Quase Memória” no Cine Odeon durante o Festival do Rio 2015, com presença do próprio mestre, de parte do elenco, como Charles Fricks e Júlio Adrião, além das filhas do cineasta, também produtoras e assistentes de direção em seus filmes, Dandara e Janaína, mediado pelo crítico e colaborador almanaquista Rodrigo Fonseca.

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O tempo que agora está mais concentrado mesmo na narrativa, agora é o personagem central na dramaturgia. Dentro e fora do filme, pois esta produção que adapta o livro homônimo de Carlos Heitor Cony levou 12 anos para ficar pronta, segundo o que o próprio Ruy explica: “Memória não existe sem tempo nem passado. Difícil transpor o livro em imagens, pois é um livro emocionante, afetivo. Transpira grande sensibilidade e humor. Pensava em adaptar há muitos anos. Ele é próximo à narrativa do romance, porém com Realismo além de romantismo. Há passagens sobre jornalismo romântico. E mudou com os anos. Quase abandonei o projeto. Foi minha filha que insistiu, mesmo após se ter de diminuir o orçamento, como as belas viagens de trem descritas no livro. Precisamos achar outro eixo/ângulo de leitura.”

20151009-quase-memoria-papo-de-cinema-08Ruy fez o filme um pouco como um desafio a si mesmo, afinal, é um livro de mais de 400 mil exemplares vendidos. Então o fez mais experimental como o que ele gosta de fazer, pois se sentia mais próximo desse tipo de projeto do que se tivesse um enorme orçamento, descreve Ruy: “O próprio Cony escreveu ‘Pilatos’, desistiu de ser escritor, e apenas 20 anos depois vomitou toda a prosa no livro ‘Quase Memória – Quase romance’. Não há herói. Não há conflito. Nem antagonista. O pacote que existe não é aberto. Não possui códigos de leitura normais a que o público se acostumou. É outra leitura. O passado é alegre, burlesco, de exagero. Há pessoas que não aceitam bem isso. O teatro filmado, overacting… Mas era a proposta do contraste com o presente mais sombrio de esquecimento”

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Sobre o roteiro escrito pelo próprio Ruy em conjunto com Bruno Laet e Diogo Oliveira, este explica que: “Adaptação pra cinema não é anular o imaginário. Imagens são como trampolim para o espectador. Há toda uma dificuldade e prazer que é fazer um filme pro Ruy. Ou ele não é humano ou nenhum de nós é (risos). Maior ser pensante do cinema brasileiro. Seguir a cabeça pensante dele seria a maior campanha de vacinação pro cinema brasileiro.

Já Bruno Laet acrescenta: “A obsessão de Ruy em nunca aceitar que estava pronto e sempre questionar era equivalente a trabalhar uma sequência de 12 cenas e, quando passava o fim de semana, Ruy não gostava mais de nada daquilo e já queria mudar tudo. Não dava pra deixar ele sozinho nenhum minuto (risos). Esta versão final talvez seja a 72ª versão de roteiro. Nunca se dar por satisfeito foi a maior lição que aprendi com ele.”

Suas filhas Janaína e Dandara, produtoras e assistentes de direção, também falaram um pouco sobre como é dividir o processo com o pai: “Ele sempre tem uma nova ideia. Muita criação o tempo inteiro. Rico porque pode ir pra qualquer lugar. Ele vai ao banheiro e já chegava com nova ideia. Mesmo não fazendo parte dos 20 anos de elaboração, só mais para o final. Uma de suas filhas chegou a mandar o livro para o pai e, quando Ruy perguntou ao Cony se podia filmar, o próprio escritor se sentiu honrado. E foi uma saga. Na época, Janaína era assistente de direção dele, e agora é a Dandara que ocupa este cargo, pois se tornou produtora e brinca que enfim não tem que obedecer a tudo que o pai fala. Mesmo com o filme pronto, ele nem quer ver mais, pois continua a pensar em mudar. E esta é uma isenção que como produtora tem a vantagem de possuir.
Já o ator Charles Fricks, que contracena com Tony Ramos interpretando o mesmo personagem, só que mais novo, acrescenta a abordagem da parte de direção de atores de Ruy: “De novo, uma obsessão incessante, que é linda. Dirigia a sombra e até o dedo do ator, e isto faz o ator pensar em dar uma entrega que alcance exatamente o que Ruy queria. Todo mundo que trabalha com ele quer isso pra obter melhor resultado. O Ruy era o primeiro a chegar e último a sair do set.

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O outro ator do elenco presente, Júlio Adrião, que contracena nas sequências no passado juntamente com o personagem de João Miguel, explana sobre como o ator dificilmente sabe como o filme vai ficar, mas com o Ruy sabe sempre que, além de autoral, o filme comunica e dialoga com o público, fazendo-o embarcar junto.

Ruy adianta que seu próximo filme será: “Palavras Queimadas”, e, respondendo perguntas feitas pelo público, dá uma verdadeira aula de cinema, que, por ser arte de massas, é consumido muito rápido por causa da civilização pós industrial, e pode até ficar pros estudiosos e cinéfilos do futuro, mas uma coisa é única e a tudo baliza: “Filme é o único produto que é vendido pelo mesmo preço, não importando se custou pouco ou muito.” E as pessoas esperam um espetáculo numa xícara de café. Há filmes do próprio Ruy que passam há 40 anos no mundo: A estética como revolução. Aliás, agregando sobre as novas tecnologias, Ruy se desafia dizendo que se as técnicas de 3D valessem para a história que quisesse contar, faria também. Assim como Jean-Luc Godard também o fez na França, e deve servir como instrumento da história, e não o inverso.

Festival do Rio 2015 – Première Brasil

Quase Memória (idem)

Brasil, 2015. 95 min

De Ruy Guerra

Com: Tony Ramos, João Miguel, Mariana Ximenes, Charles Fricks, Júlio Adrião