Debate com Diretor e elenco de Boi Neon – Gabriel Mascaro, Maeve Jinkins e Vinícius de Oliveira

Filme premiado em Festival de Veneza chega com grande expectativa ao Festival do Rio e sessões lotadas

por

20 de janeiro de 2016

O Almanaque Virtual esteve presente e traz para seus leitores o debate após a exibição do premiado em Veneza “Boi Neon” no Cine Odeon durante este Festival do Rio 2015, com participação do diretor Gabriel Marcaro e parte do elenco, Maeve Jinkings e Vinícius de Oliveira, além de alguns membros da produção, uma vez que o Brasil atuou com coprodução Holanda e Uruguai, e mediado pelo grande crítico Pedro Butcher. Editor do Filme B.
O cineasta Gabriel Mascaro, que já havia brilhado ano passado com um dos filmes eleitos melhores do ano, “Ventos de Agosto”, o qual se passava numa cidade de litoral praiano e paradisíaco, mas de onde as pessoas tinham a angústia de querer emigrar, agora diz que quis contar uma história totalmente diferente: “Sem ranço de olhar viciado do Nordeste, sem caricaturar. Expandir para além do Nordeste do qual todo mundo vai embora. Um Nordeste que vale milhões em vendas de cavalos, de reprodução de campeões em vaquejadas. E quebra a expectativa com gente que se sente bem ali.” O diretor quis brincar com opostos: “Como um homem bastante masculino e seguro de si que ama roupas e fazer roupas para as mulheres, mesmo no meio de gente xucra como ele, mas que ainda assim é heterossexual.”

BOI-NEON

O ator Vinícius de Oliveira, imortalizado no cinema nacional como o menino ao lado de Fernanda Montenegro em “Central do Brasil”, teve mais a acrescentar sobre isso: como teve de usar megahair, pois seu personagem tinha cabelos compridos e alisados, a princípio seria outro estereotipo de homossexual no meio de vaqueiros, mas também não é. “Ele não é estereotipado. Não é um ponto de vista gritante”, reitera Vinícius, “É um ser natural. Ser presente. Sem julgamento sem pudores. Iremar (personagem de Juliano Cazarré) tem ciúmes do outro macho que chega no bando, e não preconceitos. Eles respeitam o outro lado dele.”
Já a atriz Maeve Jinkings, talvez mais lembrada pelo maior sucesso dos últimos anos no cinema nacional, “O Som ao Redor”, mas também dona de outras tantas performances inesquecíveis como em “Amor, Plástico e Barulho”, elogiou muito a forma de filmar e o que isto trouxe para ela. “Após filmar “O Som ao Redor”, reparei a efervescência cinéfila de quem fazia cinema ali em Pernambuco. Gabriel ainda não fazia ficção, apenas documentários ainda. Entrei em contato com ele e ele me deu vários dvds de filmes pra aprender mais. Em 2013 li o roteiro de “Boi Neon” e me apaixonei. Ao fim dos trabalhos, gosto de olhar pra dentro de meus próprios preconceitos. Nem chego perto da vivência que gostaria de ter, e aproveito tudo o que vem para descobrir mais sobre mim mesma. Minha personagem em “Boi Neon”, apesar de bronca, tem feminilidade. Enfrentando meus próprios preconceitos, até achei que ela seria bem mais masculina, pois é caminhoneira, conduz caminhão no meio de todos os homens. Mas  ela também se apresenta dançando com máscara de cavalo com todos aos seus pés, um ponto de vista incrível da máscara de cavalo, com bota de pata também, e os vaqueiros de verdade gritando: ‘dá mais coice, mais coice!’. Realmente subverte a relação de poder.

boineon_f02cor_2015130249

Mascaro volta a ressaltar que neste filme seus personagens estão mais em paz consigo mesmos em seu ambiente do que nos seus outros filmes. Ele trabalha com contrastes, como o do cabelo sendo alisado do personagem do Vinícius que é admirado pela personagem da menina na pele de Alyne Santana. Não riem dele e sim da personagem da mãe que não tem o mesmo cuidado com seu próprio cabelo. Isto para Gabriel é: “Pensar a distância entre a câmera e o corpo. Não necessariamente o corpo masculino ou feminino. Até o do animal. A distância ou não tenta quebrar estereótipos. Como a cena do xixi. Você não vê as pessoas fazendo ritualística do ordinário, mesmo que choque era para tentar normalizar esta visão. É uma experiência que ao mesmo tempo quer sair da normalidade e mostrar outro ângulo. Foi muito difícil de filmar a cena de xixi. Foi beber cerveja durante um dia todo até acertar o ângulo” (risos).
Para Maeve foi muito interessante filmar no campo, na estrada, diferente da preparação de seus filmes anteriores que eram muito mais urbanos. Eles morando todos juntos. Treinava com a preparadora de elenco Fátima Toledo de dez da manhã a quatro da tarde. Aí Fátima voltava para o hotel e o elenco não. Ficava lá jogando dominó e conversando muito, com os vaqueiros de verdade do elenco, e acordavam super cedo para fazer as tarefas diárias cotidianas, catar fezes de vaca, limpar estábulo. Tudo normal de lá. E contavam histórias de lá naturais que chocaram Maeve, mas eram normais lá. Como quando um dos vaqueiros roubou a mulher de outro homem no curral, que ao mesmo tempo que era violenta contra mulher, era heroica para aquele homem. A própria Maeve se viu uma vez sozinha com a atriz mirim que interpreta a Cacá (Alyne Santana) e achou que estavam indefesas, pois todo o elenco havia viajado menos elas, e lembrando das histórias hostis, ela dormiu com uma faca sob travesseiro.
Vinícius complementa que lá não se vê o que tradicionalmente seria bullying. Lá todos sabem se defender, desde a criança, ao gordinho, todos. São algumas histórias que todo mundo se lembra, de quem já sofreu alguma hostilização, mas que lá é natural e todos se defendem como um cotidiano. Os exercícios da preparadora de elenco Fátima Toledo foram ótimos para isso. Por exemplo, ela fez um dos vaqueiros de verdade chegar a chorar copiosamente. Atores e não-atores comiam juntos na mesma mesa como uma família. Tomavam porre juntos também. Quanto mais íntimo, mais liberdade para fazer piadas mais pesadas.
Essas mulheres que Maeve interpreta a fazem pensar muito sobre o papel da mulher. Ela lidou com seus preconceitos, em relação ao Nordeste também, seu pai é Nordestino, mas havia imigrado pra Brasília. E quando retomou esta cultura com os filmes, pôde reaproximar e aprender mais sobre si mesma com as mulheres que interpreta.

Festival do Rio 2015 – Première Brasil – Mostra Competitiva

Boi Neon (idem)

Brasil, 2015. 101 min.

De Gabriel Mascaro

Com: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Vinícius de Oliveira