Debate com equipe de Era O Hotel Cambridge em Tiradentes

O correspondente especial do Almanaque Virtual Rodrigo Fonseca foi o debatedor que compartilhou a mesa com a equipe

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22 de janeiro de 2017

Tema fundamental para redefinições (e inclusões) geopolíticas da contemporaneidade, abordado, este ano, como assunto central em festivais como o de Berlim, a questão dos refugiados políticos incendiou a Première do Rio, fazendo de uma São Paulo de mil desigualdades (e múltiplos combates) seu cenário ao longo dos 90 claustrofóbicos minutos de Era o Hotel Cambridge. Dirigido por uma Eliane Caffé (Kenoma) fiel à sua investigação autoral sobre figuras em deslocamento (em busca de um fixismo cômodo e protetor), o longa-metragem é o mais caudaloso (e rigoroso, na forma) filme da diretora paulista. Nele, imigrantes degredados do Congo, da Palestina, da Síria e da Colômbia se refugiam na hospedaria abandonada do título, em SP, ao lado de um grupo sem teto de distintos CEPs. Lá dentro, um agitador cultural com aptidões para o teatro, Apolo (José Dumont, de volta às telas com som e fúria, em uma atuação de gerar taquicardia), ajuda uma dirigente de movimentos de ocupação (Carmen Silva) a dar um norte para aquela babel de muitas línguas, capaz de fundir não-atores a grandes intérpretes (vide Dumont e Suely Franco, que ilumina a cena a cada aparição).

É difícil ver outra pessoa que não Dumont recebendo o Redentor de melhor ator este ano, apesar da torcida forte por Marcos Veras, com O Filho Eterno, e do desempenho devastador da dupla formada por Julio Andrade Irandhir Santos em Redemoinho. Mas, se o mundo fosse justo, o certo mesmo, pela quantidade de tempo em cena, era Dumont ganhar como coadjuvante. Mas… E, como já falou-se aqui, tem Marat ainda a ser visto.

Diverso de tudo o que a realizadora de Narradores de Javé (2003) e O Sol do Meio-Dia (2009) fez até agora, trocando ambientes de um Nordeste profundo pela metrópole nº 1 do país, Era o Hotel Cambridge parece mais um exercício investigativo do que um ensaio propositivo, eletrizado por uma linguagem (bem) equilibrada no arame farpado entre fato e ficção. Tem um quê de arquivo, tem um quê de chat via Skype, tem perfil de rede social e tem um relógio que corre disparado, cronometrando o período que os personagens têm antes de uma possível expropriação. Fica-se pouquinho com cada um no roteiro escrito pela cineasta e por Inês Figueiró, com o aporte do dramaturgo Luiz Alberto de Abreu. Cada momento um refugiado ou um sem-teto nativo ganha a ribalta para si, o que é suficiente. O protagonismo é muito mais da situação – estrangeiros em degredo e brasileiros em condição de pobreza plena – do que desta ou daquela pessoa ou família. Claro que, com inteligência, Eliane nos deu Apolo (ou melhor Dumont) para ser um ponto de apoio, o “rosto amigo” entre anônimos.

Se o dispositivo é o da busca, e o ensejo é investigar, a montagem (feita por Marcio Hashimoto) precisa de atenção redobrada para que as idas e vindas e para que todo o vasculhar daquela “aldeia de cimento” tenham um sentido estético – e, por que não?, um calor político. Nesse ponto, o filme avança cinematograficamente em relação à bela contribuição de outros filmes brasileiros sobre o mesmo tema, como Dia de Festa (2006) e Estamos Juntos (2011), de Toni Venturi, e À Margem do Concreto (2005), de Evaldo Mocarzel. A recepção aqui foi traduzida em forma de discussão sobre o lugar dos refugiados no Brasil. E, em paralelo, houve muito riso, catártico, nas peripécias de Apolo, cantando “música de corno” e bebendo com os gringos.

Descrito aqui como um “poema da geopolítica”, Era o Hotel Cambridge se candidata à Eternidade de debates enquanto o expatriamento e o desterro forem temas do mundo e da Economia. Há um momento e outro de um didatismo exagerado (como na cena de Apolo lendo depoimentos racistas), e um ou outro clichês (como a situação da  jovem branca de classe média de paquera com um negro africano) mas nada que comprometa o vigor sensível e a relevância social desta produção com fôlego de trem-bala e com a retidão delicada de haical.