Debate da Mostra Foco Série 1 na 21° Mostra de Tiradentes

Debates ampliam o tema "chamada realista" atravessado pelas questões sociais, afirmativas, pela presença do som no extracampo e na construção do imaginário coletivo

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23 de janeiro de 2018

Debate da Mostra Foco série 1 na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes:

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Transcrição atualizada ao vivo.

Com os filmes:

“Estamos todos aqui” de Chico Santos e Rafael Mellim, “Iara” de Erika Santos e Cássio Pereira dos Santos, “Peito Vazio” de Yuri Lins e Leon Sampaio, e “Outras” de Ana Julia Travia

Transcrição:

Primeiro: Peito Vazio
Yuri Lins e Leon Sampaio falam sobre a referen

Queriam lidar com figuras extremamente marginalizadas e construir a partir de suas potências, e extrair da miséria uma força cinematográfica imutável. Todos os envolvidos são de uma periferia, era urgente fazer um filme que saísse da paisagem da miséria. Cada pessoa é de um lugar, como da comunidade de Prainha, e a cada pessoa entrevistada trazia algo novo. (Chico Santos)

Rafael Mellim complementa:
Eles implodiram o roteiro aprovado pelo edital, e reconstruíram com o que foi coletado pelas pessoas locais.
A dialética da pobreza é que quanto mais fudido se está mais pode ir para cima das instituições que oprimem aquela realidade.

O roteirista complementa que pensaram para quem fariam o filme?! E queriam fazer para as próprias pessoas de lá, e não para especialistas. Se estes gostarem também é bônus. E a montagem mais moderna e ligeira era para poder alcançar o grande público, com técnicas e linguagens de cinema. E por isso a rapidez e o “corre” literalmente, pois o “corre” é sobrevivência.

Ana Julia fala sobre “Outras”:
Um pouco de saco cheio da representação das mulheres na tela. Discutir a relação “da musa” e que não dá pra escapar dela…dentro da representação da mulher. E se afastou um pouco e quase abandonou o projeto porque não encontrava pares com a mesma sintonia nos estudos de cinema. E acabou encontrando os movimentos negros afirmativos das quotas com que se inspirou. E pôde retomar o projeto.

Sobre Iara com Erika Santos e Cássio Pereira dos Santos:

Vontade de brincar com realismo mágico e brincar mais com a atmosfera e o tesão pela linguagem do cinema. E queriam filmar mais rios e natureza.

Perguntadas pelo Almanaque Virtual, as diretoras mulheres Ana Julia de “Outras” e Erika de “Iara” falam sobre como a questão fr gênero atravessa indissociavelmente srus filmes, e como o som/áudio atravessam pelo extracampo o visual/imagem do que é posto:

Ana Julia diz que consegue perceber que um cinema que é mais feminino e feminista vai mais pro áudio e som sem sincronizar imagem e som. Trabalha com a dissociação. Tanto Ana quanto a roteirista faz isso e trabalharam bastante com o Som. Perguntaram para si mesmas: Quais corpos querem na imagem e quais querem ver falando.
Um dos primeiros temas que elas chamam de a parte das mães, foi colocado áudio das meninas falando que engravidaram na adolescência e juventude interrompida. Essas meninas falando no som eram de classe mais baixa. Por Ana Julia ser de classe média, era claro onde queria botar a câmera e onde botar o seu olhar. Mas não podia abordar pessoas com classe social inferior a dela. Mas nao era o que queria. Tem no nosso imaginário que são pessoas pobres, e têm relação do racismo mesmo não sendo militantes e não tem resposta e não tinha como deixá-las fora. Entao optou pelo áudio para ser respeitosa com suas questões.

Já Erika fala sobre o som em Iara:

Queria um filme que desse muito valor no som. Parabéns ao Chico pelo trabalho encorpado de captação de som. 60% é o som.

E o codiretor Cássio complementa:

A intenção do som era trabalhar a questão subjetiva. A fabulação presente que o som não estivesse sincronizado. Nao é realista. Está fora da imagem. Mas está rondando a imagem e as personagens. Na conversa com mixador de som, houve conversas com máximo possivel de planos de criar a fantasia de forma subjetiva. Trazer o invisível pro filme com o som. Árvores com som de vento por exemplo. Mesmo não balançando os falhos.

Juliano Gomes da Cinética pergunta pelo ritmo de “Estamos todos aqui” e “Outras”, um ritmo quase musicado. E Juliano acrescenta à Ana Julia a pergunta sobre o título “Outras”.

Os diretores de “Estamos Todos aqui” agradecem e elogiam o reconhecimento da música como significação da urgência. Até porque sua protagonista é trans, e é uma premência a mais. Temos a necessidade que surge de seu próprio recorte e vai expandindo para mais causas. E que deve haver solidariedade entre todas estas lutas. E lembram a frase de Angela Davis que: quando a mulher negra se move na sociedade, por ser a base da pirâmide, move toda a pirâmide social junto.

Ana Julia complementa que “Outras” se referia a esta criação de imaginário coletivo que o cinema consegue criar, e que muita gente está excluída desta construção. Por exemplo, a narração da própria Ana Julia no filme com sua história sobre a transição de seu cabelo e como o cinema abordou tão pouco o cabelo negro, o que coincide com um momento afirmativo como o iniciado por “KBela” de Yasmin Thayná que começou com seu filme a falar sobre o cabelo negro na tela, mesmo que seu filme não tenha tido a receptividade da seleção dos Festivais mostrando que as pessoas não queriam ver ou ao menos não se manifestaram em querer ver na tela esta criação de imaginário. E quando um filme realizado por pessoas negras é selecionado em Festivais, geralmente são filmes que ficam isolados e sozinhos no meio das Mostras, cercado de gente branca que não parece demonstrar querer mudar as coisas, porque começa por essas pessoas que tem de abrir mão de seus privilégios e convidar mais e participar mais em conjunto. Senão o Festival isola e não solidariza.

O roteirista de “Estamos Todos aqui” complementa sobre a pergunta feita em relação à ausência de mais cinema negro nos Festivais, que ainda é muito pouco. Para um país com mais de 30 mil pessoas negras mortas pelas estatísticas, ainda se fala muito pouco sobre isso. E se há pessoas negras na mesa de debate, ele sente que há uma obrigação de abordar estas questões, porque ninguém aborda. E cineastas geralmente têm dinheiro, porque pessoas pobres não costumam poder fazer filmes, com raras exceções (como os diretores de “Estamos Todos aqui” se colocaram, advindos da periferia). Mas têm de poder cada vez mais fazer filmes, as pessoas pobres e faveladas, pessoas trans, pessoas negras e etc…