Debate da Retrospectiva Helena Solberg no CCBB RJ com a própria Helena

Helena Solberg debate com principal personagem de seu filme "A Entrevista" pela primeira vez em décadas.

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13 de março de 2018

Debate no CCBB RJ após a sessão da Retrospectiva Helena Solberg com “Meio Dia”, “A Entrevista” e “A Nova Mulher”, com presença da própria Helena, da personagem de “A Entrevista” Glória Mariani, a professora e pesquisadora Karla Holanda e mediado por Carla Italiano.

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Helena explica sobre “A Nova Mulher” que tinha acabado de chegar nos EUA e queria entender o movimento que era a segunda onda do feminismo acontecendo naquele momento no país. Helena procurou pesquisadoras para entender as raízes do movimento .
Eram 450 fotos de still para escolher na montagem do filme. Pouco momento de movimento dentro do material de arquivo.
Ela não sabia que não havia no mercado um filme que falasse cronologicamente a história.
Foi exibido em todas as escolas e universidades.
Tanto que foi exibido até no Bicentenário americano e foi levada à Casa Branca, e infelizmente foi com Ronald Reagan.

A professora e pesquisadora Karla Holanda fala que em 2014 havia uma Mostra onde viu A Entrevista que mudou sua vida.
Em 1966 haver um filme com esta temática e realidade, de casamento, sexualidade, e temas tão caros à mulher daquela geração e não havia nada que tratasse desde tema no Brasil e Karla arrisca que não havia nada no mundo que tratasse esse tema naquela geração também.
E o filme possui uma linguagem contrária ao que predominava na história do documentário naquela época. E a febre causada na Karla na época por ter ficado maravilhada com o filme permanece até hoje.
Por que este filme foi invisibilizado daquele período? Do Cinema Novo?
Este interesse na vida da mulher na sociedade e sua participação, por que foi tão abafado?

Glória Solberg, hoje Glória Mariani, é a única voz no filme que aceitou aparecer fisicamente no filme, que não corresponde às vozes da narração em off.

Glória fala que aceitou porque ninguém quis fazer, eram muito amigas, era cunhada de Helena. E não era um problema fazer…
Não almejava ser atriz de cinema nem nada. Fizeram por amizade e confiança. Tinha ouvido algumas entrevistas, mas não todas. Vontade de explorar algo, só não sabia o quê.
Glória agora vendo o filme nem lembrava do final quando tirava o véu para falar com ela. Lembrava da entrevista mas não de tirar o véu. (Helena acrescenta que é o momento que ela mais gosta, porque Glória sai do personagem e vira sujeito.)
Glória agradece ter participado e vê a magnitude disso agora, cercada por essas mulheres.

Glória explica a menção no filme que ela faz à Moby Dick, de que nunca viu como obsessão, mas sim como um obstáculo. Então a baleia era algo que precisava transpor para saber o que tinha depois atrás dela.
e o casamento era isso. Não dava para sair de casa a não ser casando naquela época. Casou com 20 anos. Desde 18 só pensava em sair de casa. Casou em 1963.
Depois tudo bem também, e se separou alguns anos depois.
Nunca mais tinha visto o filme desde 1995 (com Lucia Murat, que estava na plateia e assentiu)
Não era um casamento romântico, era mais uma liberdade, mais uma fase para passar.

Karla pergunta se também atravessava a cabeça de Helena questões como casamento, virgindade, gravidez, sexo….

Helena lembra que não havia ainda pílula anticoncepcional, só outra geração acima que teria. Era medo de ficar grávida sem querer.
Leila Diniz só viria 10 anos depois e aí já seria no boom.

O filme gerou certo escândalo mais intimista, da própria geração de mulheres que participaram e encheram a Maison de France, pois elas queriam saber se dava para reconhecer o que elas falaram ou não….Para seus maridos não saberem.

Karla explica que o filme “A Nova Mulher” estava bem à frente do seu tempo, falando de questões ainda não abordadas na época no feminismo, como a de raça e classe. Karla diz que Angela Davis poderia muito bem ter visto o filme de Helena, já que na época do Bicentenário da Independência americana o filme foi adquirido pelo governo dos EUA e distribuído pelas bibliotecas do país, o que pode ter inspirado Angela para fazer seu primeiro livro “Mulheres, Raça e Classe” (de quase 10 anos depois da data do filme), mas Helena diz que não saberia ao certo.

Helena explica que Bianca (esposa do Mick Jagger) viu o filme “Simplesmente Jane” que amou e viu o filme da Helena sobre a Nicarágua e a Bianca é Nicaraguense, e pediu se Helena poderia fazer um filme sobre ela…Até viajaram para conversar se o tema conseguiria gerar um filme, mas Helena não conseguiu ver algo sair dali.

O grupo com quem Helena se juntou para fazer o “Emerging Woman” que deu tão certo, achou que conseguiria patrocínio pra um próximo trabalho, com o International Women’s Film Project.

A Dupla Jornada foi filme sobre o trabalho da mulher na América Latina, só tinha um homem na equipe, Affonso Beato que achava que elas eram harém dele….rs. E às mulheres se sentiram surpresas com a filmagem, com a atenção.
Affonso também filmou fotografia de Brazillian Connection, tanto quanto fotografou algumas fotos de A Entrevista (Glória guardou as fotos e disse que depois repassa para Helena)

No exterior havia muito mais mulheres envolvidas com cinema do que aqui

O filme Meio-dia foi o último que Helena fez no Brasil antes de viajar e ficar 30 anos fora, visitando sempre o Brasil. Não cortou totalmente os laços. E voltou com fim da Ditadura para filmar Brazillian Connection sobre as Diretas Já.

Glória diz que na época o filme não a incomodou de forma alguma. Foi até fácil de certo modo, porque já era casada, já estava fora de casa….E Helena era cunhada, estava tudo em família e se gostavam muito e eram amigas.
E Glória viu pouco o filme. Talvez umas 5x no máximo. E é emocionante. Não sabe o que representou ali, mas foi uma coisa muito família, e de forma alguma um problema. E fica feliz de ter gerado tantas coisas.

Glória tinha acabado de terminar a faculdade de Sociologia.

Perguntada se sempre quis fazer cinema, Helena diz que na verdade queria fazer literatura. (Não havia escola de cinema na época). Escreveu uma novela com 300 páginas que mostrou pro Rubem Braga que falou para reescrever, só que ela foi pra casa e queimou e se arrepende até hoje. (Uma amiga na plateia diz que Rubem anos depois lhe confidenciou que havia amado o texto de Helena e não sabia por que ela não havia levado a frente).

Era amiga de Caca, Jabor, David Neves etc, tinha o convívio.
Eram outros tempos, menos TV, viam Nouvelle Vague juntos no cinema, não sabe se era menos gente, mas era antes da Ditadura e havia sensação no ar de que iriam mudar o mundo. (Meio Dia é o filme anarquista dela do início de 70 quando a Ditadura endureceu).

Foi continuista do Capitu do Saraceni e fez claquete, e perdia a claquete o tempo todo porque na verdade queria prestar atenção em outras coisas sobre fazer filme.
E Glória disse que foi ser figurante numa cena no Jardim Botânico e acabou aparecendo só 1 segundo de costas e brincavam que a esposa do Saraceni pediu para tirar todas as mulheres do filme…rs.

Helena menciona sobre sua experiência que Arthur Penn tinha sessões maravilhosas no Actors Studio e eram atores maravilhosos que iam lá fazer leitura e Arthur ia lá e corrigia. Foi um maravilhoso exercício de Helena para fazer seu filme “Vida de Menina”.

Carla Italiano pergunta como surgiu a idéia da montagem das fotografias antes das entrevistas…com o álbum de família, e a bruxa. Como foi a escolha com a montagem do Rogério Sganzerla.
Helena diz que surge na mesa de montagem, algo maravilhoso de documentários de roteiro surgir na mesa de edição. E seus documentários têm um pouco de ficção e vice versa. Mas Helena acha que não se deve falar muito destes detalhes senão perde a magia. Deve guardar as idiossincrasias para guardar o mistério.

O discurso no final é a voz empostada da Ditadura chegando com a censura.
Tem gente que gosta deste final tem gente que preferia outro final, mas Se todo mundo gosta de um filme ele deve ser ruim (rs). Ele deve incomodar também. A marcha das mulheres que na verdade foi algo pra defender a causa dos maridos, que não era a delas, e antes eram as entrevistadas com a voz própria delas de certa classe social e seus interesses sufocados depois.

Naquela geração de mulheres era muito difícil falarem entre si….havia uma censura imposta pela sociedade e etc, mas queria estar com aquelas pessoas….Tinha algo de estranho, tinha uma hora do dia específica para entrevistar, e fechavam a porta, meio às escondidas, como se não lhes fosse permitido falar.

Hoje a própria Helena pensa que casou cedo demais no primeiro casamento e que só foi viver a vida e conhecer tudo depois.

Sobre a escolha das entrevistas dentre as mais de 70 feitas para o filme “A Entrevista”, ela chamou 2 profissionais, uma psicanalista e uma socióloga para estudar e analisar as respostas das entrevistadas para fazer recortes de assuntos e temas. Foram todas transcritas. E Helena e também Sganzerla foram selecionando um pouco com base nesta triagem e na moviola na hora de montar.

Helena responde sobre se já era autoconsciente o feminismo que iria agregar em sua filmografia, mas, apesar de ela dizer que não, Glória pede a palavra e diz que Helena já era reconhecida como feminista mesmo antes de ela casar. Foi Helena quem emprestou para Glória livros de Simone de Beauvoir e Betty Friedam como “A Mística Feminina” etc…

Karla Holanda acrescenta que as entrevistas todas, inclusive as excluídas do filme, se tornarão um livro possivelmente a ser lançado ainda este ano através da própria Karla, Mariana Tavares, Ramayana Lira e Alessandra Brandão <3