Debate de “Baixo Centro” competindo na Mostra Aurora em Tiradentes

Quinto longa inédito a competir na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes

por

26 de janeiro de 2018

Debate sobre o 5° filme inédito competindo na Mostra Aurora na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes:

“Baixo Centro” de Ewerton Belico e Samuel Marotta, com presença dos mesmos e de parte da equipe e elenco. Crítica convidada Luciana Veras. Mediação por Marcelo Miranda.

20180126_133844

Luciana começa agradecendo o convite e fazendo a consideração inicial de que o filme traz reflexões necessárias ainda mais neste momento histórico do país que precisamos de mais reflexão do que nunca. E Luciana pôde se identificar bastante pois mora em Recife e também reconhece o processo de urbanização que causou esse estranhamento e sensação de perda de identidade que o filme trabalha em BH.

É uma cidade que atrai e repele. Ora os personagens não se identificam mais, principalmente os homens. Procuram por pessoas que não estão mais lá.
As mulheres não se reconhecem mais.
Os homens principalmente são mais telúricos, não conseguem sair de lá.

Fala de uma questão caótica de urbanização, gentrificação. E ganha denominações como cidade alta, cidade baixa, e aqui neste filme baixo centro…
Estão em uma viagem que não acaba e que não reconhecem.
Que sensação é esta digna de equação?
Mas ao mesmo tempo há um pertencimento de alguns personagens. Estou vivo ou estou morto? Ou estou apenas anestesiado? Situação de zonas urbanas com violência e etc.

Quanto à trilha, não há música nenhuma cuja letra se desperdice.
Faz mergulhar na jornada ora sombria ora de alento.
“Tudo o que quero é ser Senhor do meu tempo”
“A vida é uma canção”. — Versos das músicas. E mostra uma repetição da qual não conseguem sair.
A dupla de protagonista conversa sem sabermos há quanto tempo estão juntos, quase como um casal. Relações que acostumamos ter guiadas por dispositivos e aplicativos que costumamos ter.
Desejo dos personagens de ocupar a cidade, um campo de batalha/guerra. Quase como se fossem sobreviventes.
Cidade escura, pouco convidativa. Onde podem não se sentir seguros para caminhar à noite, mas eles andam e continuam. E há uma cena bonita, o encontro de Luisa e Guto e se encontram naquele lugar inusitado, um arrabalde, e vão se relacionar ali quase como reivindicar aquilo ali, fazer sexo com a cidade, uma visceralidade. Interessante, como lidamos com a cidade, a arquitetura do medo (câmeras de segurança, muros etc) e no filme eles andam independente disso. Mas um jogo de empurra e atrai, como a cidade é, de atrair e repelir. Mas que precisamos ocupar esses espaços. E nestas noites e estas madrugadas. E no final joga luz em personagens geralmente invisíveis.
Há um parque em Recife chamado 13 de março e há famílias dormindo lá. É difícil de passar e explicar para uma criança, por exemplo, como Luciana tentou explicar para a filha. E estas pessoas existem ali mesmo que invisibilizadas, e por isso a cena final cantada, com a música para essas pessoas. É quase um chamado. Convite a pensar no outro, na alteridade urbana. Cada qual com seu matiz, um mais niilista, outro mais aéreo etc….Gravidades na cidade que puxam pra baixo e se não ocuparmos e lutarmos vai fagocitar e engolir todo mundo ali.

Luciana perguntou à dupla dos diretores, já que mencionaram ontem que um deles teria sido aprendiz do outro, e como se deu isso, esse processo criativo?
Se a gente desistir do espaço urbano, desistimos do Brasil.

O diretor agradece as considerações e o público presente.
Começa pela trilha que excede a construção apenas empática com personagens.
Até porque o filme é bastante construído em off e a música ocupa às vezes esse espaço do off, e não necessariamente compõe a construção dos perosnagens e sim da cidade. Que no fim mostra que pode ser uma cidade destrutiva.
Por exemplo mostrada na música final cantada por Katia Nacelle que canta Egun e que fala dos mortos, por causa de um mundo dos vivos e dos mortos e comunica com o filme. E também uma influência afro-descendente que atravessa o filme. Insinua essa cosmópolis periférica e negra.
Outro exemplo é a passagem onde uma das cenas no interior começa com Maria Bethânia e vai para outra cena nas ruas onde cede espaço para MC Barriga, numa transição de classe e de continuidade afro-descendente.

Fracasso da utopia moderna, do urbanismo moderno que seria agregador da convivência dos diferentes, e que não funcionou. Mesmo morta, permanece viva na experiência moderna.
São personagens desesperados por encontros, e o mundo torna impossível esses encontros, mas é crucial acontecer à noite que é quando a razão técnica adormece, onde a vigilância do estado cede. Tem uma lógica próxima do transe e delírio. Linha tênue de uma autoconsciência que é frágil e que parte da entrega de um personagem ao outro. Que se liga tanto ao transe quanto a ideia de entorpecimento.
Atração e repulsa são fatores interessantes porque o filme de fato tem várias estratégias de distanciamento, como a frontalidade e o off, mas os atores entregaran muito também e entregaram outro filme diferente do que haviam imaginado.

Não só houve um encontro dos dois diretores, também houve um encontro de espaços. O filme foi se transformando pelo encontro. Havia uma energia inicial que depois foi traduzida através dos espaços em um reflexo crítico da derrota que estamos sofrendo no país desde 2013.

O outro diretor, Samuel, fala que quando o personagem revive uma Belo Horizonte que ele não viveu, então foi uma história contada, das transformações da cidade e que estava sendo urbanizada com uma esperança que não aconteceu, e que ele não viveu, há uma tipografia filmada e uma topografia imaginada.

Feliciano explica que para sua fotografia tudo começa de fato com a procura das locações, trabalhando com o baixo centro, baixo bairro, mas também está trabalhando com personagens que se diluem. Não trabalhou muito com iluminação de cinema, e sim mais de mercúrio, sódio, de alta pressão, fosforescente, tudo luz artificial. E às vezes nem há luz nenhuma… Partiu deste pressuposto. Às vezes fazendo contornos destes personagens, mas tentando manter orgânico com BH.

A plateia coloca que há um pensamento interessante sobre a morte que na verdade apesar de algo se ir, a morte também é sobre o que fica ao redor. E o cântico no final do filme remonta tudo isso também.

E respondem que sim. Os cenários toda hora evocam lugares que se foram, que acabaram, e não estão mais lá… A fotografia e iluminação têm muito disso. Algo sobre a morte como eternização.

Quando o personagem do Marcelo (Djamba) tira fotos, parece que eterniza as imagens e personagens naquelas fotos como um vestígio do que ficou.

Os personagens falam mas há muita escuta, um filme-testemunho. O personagem de Djamba por exemplo fala o que ninguém quer ouvir. O apagamento da memória. E mesmo que a cidade se torne mais e mais hostil, continuam enfrentando e seguindo. Há uma trajetória nas experiências e encontros possíveis. E o filme termina devolvendo o centro urbano e o espaço da rua para seus legítimos donos, as pessoas da rua. Os verdadeiros donos da cidade são vidas “matáveis”….o preço desta ocupação é elevado, o déficit continua.

Pergunta sobre a ocupação referida acima da cidade, e a pessoa que pergunta diz que está morando no Rio, e seus pais vêm de origens raciais diferentes, uma parte negra e a outra branca, e ele considera que a parte negra não possuo autoconsciência racial, e o Rio não possui uma imagem desta ocupação negra não-estereotipada como o filme consegue. Até porque não há uma imagem clichê de Minas, não há o uso de arquétipos religiosos e etc… Há uma ocupação naturalmente racializada autoconsciente.

Ewerton responde que pensaram muito as cenas, outras apareceram durante as filmagens, de que esta questão afro tinha de ser presente, e poder por exemplo filmar o duelo de MCs, Buceclan, Bárbara Sweet e Sarah Guedes, foi ao vivo, e foi sendo agregado à narrativa. Há de se observar nos últimos 6 ou 5 anos uma presença racial e cultural cada vez mais forte em BH.