Debate de “Mãe Só Há Uma” com diretora Anna Muylaert

Diretora também do premiado "Que Horas Ela Volta?" debate com mediação de Lully De Verdade e presença do ator Daniel Botelho e corroteirista Marcelo Caetano

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26 de julho de 2016

“Mãe Só Há Uma”, novo filme da diretora Anna Muylaert, do multipremiado “Que Horas Ela Volta?” e do cult “Durval Discos”, contou com a cineasta em sessão seguida de debate no Espaço Itaú de Cinema Botafogo, mediado por Luisa Clasen do canal de youtube “Lully de Verdade” e presença também do ator Daniel Botelho, que interpreta o personagem Joca no filme, e Marcelo Caetano, assistente de direção e coautor do roteiro. Após a aclamada sessão lotada em Botafogo, os debatedores e público se reuniram na Livraria Blooks para um papo mais informal e convidativo, onde todos relacionaram o quanto o filme está tocando as pessoas envolvidas e espectadoras:

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Após as devidas apresentações realizadas por Lully, a cineasta comentou um pouco como surgiu a experiência mais independente de “Mãe Só Há Uma”, com baixo orçamento e equipe menor, mais ágil no modo de filmar do que em seus filmes anteriores. Porém, neste instante, alguém da plateia segura uma placa “Fora Temer” que é recebida com aplausos pelo público e pelos próprios debatedores, no que Anna coloca a placa sobre a mesa pelo resto da conversa com os fãs. De fato, Muylaert queria fazer filme mais barato, com elenco desconhecido, e experimentar livremente. O filme é inspirado em história de menino que descobre ter sido sequestrado e acaba trocando de família, de mães, o que era uma intenção da diretora em tirar protagonismo da maternidade/paternidade e passá-lo para a fraternidade. Da metade em diante da projeção, pode-se notar que o filme incorpora como tema a identidade de gênero, e foi nisto que Anna convidou Marcelo Caetano como corroteirista engajado nas pesquisas da cultura “trans”, e estendeu o convite para ser igualmente Assistente de direção. – Muylaert ainda brinca que estava amando a parceria, mesmo que ele nem tanto, mas Marcelo explica melhor sua hesitação reverencial do início da colaboração: “Os projetos de Ana são projetos muito autorais, e de início achava que não saberia onde me encaixar. Já havia trabalhado um ano com Hilton Lacerda em seu filme “Tatuagem” o que deu tempo de entender a dinâmica do diretor. E com Anna a parceria era muito nova, além de ela vir com uma experiência muito grande de roteiro, e no meio do projeto de “Mãe Só Há Uma” aconteceu o vulcão de “Que Horas Ela Volta?”.

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Marcelo acrescenta sobre o desafio na coautoralidade do roteiro que já era difícil, claro, em se falar de uma geração que também não é a do Marcelo, é mais nova, pois ele ainda vem de uma era em que a sexualidade era sinônimo de identidade: Ser gay ou bi ou hétero era declarar sua identidade, enquanto que hoje nem tudo é definitivo, é fluido, e tudo isso foi incorporado no filme. E Anna tem esse grande olhar pra estrutura do filme. Marcelo até brinca que a primeira versão que lhe chegou do roteiro era numa tabela do Excell (de tão estruturado/decupado), mas é um lance muito importante de se olhar o roteiro a partir da estrutura; um olhar mais macro diferente de outros. Já Muylaert acrescenta sobre a sexualidade fluida que ela procurou a temporaneidade da identidade de cada um. Não só o Pierre sendo vários dentro de si mesmo, como a personagem da mãe também é bastante incomum frente a tipos de filmes mais comerciais, dentro da ideia de que Anna teve de a mesma atriz interpretar as duas personagens maternas. Foi uma ideia desde o início que Marcelo até tentou demover da cabeça de Muylaert, dizendo que poderia soar como maneirismo, mas para a diretora era algo conceitual/autoral e queria dizer algo com isso. Toda mãe contém essa dualidade freudiana de ser uma forma de bendição e maldição ao mesmo tempo para o resto da vida.

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Lully então se dirige ao jovem ator Daniel Botelho para perguntar como foi seu processo de Casting, e, definitivamente, para Daniel, ele sente que foi um encontro consigo mesmo. Nunca pensou em ser ator, achava até que queria ser astronauta, e de repente chega no set de filmagem e vê microfones que parecem com cachorros. Tudo parecia muito novo, além de o próprio filme conter uma história e um roteiro inusitados, o que só o deixava mais motivado. E Lully aproveita para perguntar o que Daniel levou consigo do filme? Bem, além do que os personagens de Joca e Pierre significaram por si próprios, Daniel afirma que o mais gratificante com certeza foi a mensagem de tolerância de gêneros e sexualidades, em se incorporar isso de corpo e alma, pois seu personagem Joca na verdade é o espectador, e para Daniel não havia times, nem “Time Pierre” nem “Time Glória” (personagem da mãe dos garotos). Não havia quem estivesse certo ou errado. Há sim provocações mútuas, como a cena em que Pierre usa um vestido, explica Daniel. Mas todos estavam sofrendo.

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Lully aproveita a deixa para perguntar à Anna como foi dirigir Daniel, no que a diretora explica que Joca é o nome de seu filho, bem como os dois têm a mesma idade. Uma ironia total, e se lembra com carinho quando recebeu na pré-estreia do filme flores do filho, que agora possui 2 filhos. O fato é que esse jovem espelhado no personagem de Joca foi criado ao molho de “Os Simpsons”, e para segurar essa onda Daniel foi um dos melhores atores com que Anna já trabalhou. Foi o único ator que fez o teste e era ele desde o princípio, não podia ser outro. Tem talento e compreensão do que é levar o personagem. Anna explica que isso não é tudo por conta dela como diretora, e sim uma espécie de improviso controlado a partir da estrutura pra poder dar liberdade pra os atores, como a que Daniel aproveitou tão bem. Aquele confronto final do filme, por exemplo, existia no roteiro, mas as falas foram muito geradas na hora entre os atores Naomi Nero e Matheus Nachtergaele, e Daniel chorou depois porque verdadeiramente desabou. Muitos atores adultos não tem a compreensão que Daniel tem. Quem sofria era ele. Mesmo que Anna dissesse apenas para ele tentar fazer outra coisa, apenas para tentar a mesma cena de forma diferente, Daniel achava que poderia ter feito errado, então fazia de novo e de novo.

Daniel agradece, e diz que até se acha parecido com o personagem de Joca, mas conta que aprendeu algo que nunca irá esquecer, que se deu na linda cena final. Anna lhe contou uma história que havia uma tribo indígena cuja transição pra adulto fazia o jovem ficar isolado no escuro, e que depois de liberado se tornaria um homem. O nexo desta pequena história com a cena filmada é que Daniel teve de ficar num quartinho escuro antes da referida cena final, refletindo sobre o universo, e quando saiu foi muito louco, afirma, pois ficou horas lá dentro isolado, e Naomi também, em outro banheiro igualmente fechado, e já veio filmar com lápis de olho, totalmente diferente de como o havia visto anteriormente. O set estava todo quieto e parecia que iam tocar mesmo tambores indígenas pra eles começarem. O impacto em Daniel foi profundo e realmente espera que também o seja em todo mundo que assistir.

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Lully complementa a catarse perguntando como foi o sentimento do momento de “acabar” o filme, de filmar, ou de montar? Em que momento sentiram que estava acabado? Mas Marcelo afirma que com Anna não acaba jamais. Continua sempre, pois eles têm, por exemplo, uma Comunidade no facebook, “Filhos da mãe”, vendo a repercussão de tudo sobre o filme. Anna Muylaert acrescenta que toda coisa meio inacabada é o melhor para advir uma potência, e o filme continuar acontecendo, sendo feito… E há uma coisa louca dos filmes, que é em cada sessão haver uma sensação diferente pra cada plateia. Havia sessão de “Que Horas Ela Volta?”, por exemplo, em que era uma sessão mais da personagem da Val (Regina Casé), noutras mais da Jéssica (Camila Márdila), e noutras até de Bárbara (Karine Teles). Já para Daniel, o filme não acaba pra nunca perder a empatia com o público, com a mensagem. Quanto a acabar de filmar, Daniel estava mais velho, e a voz mudou. Teve que rodar algumas cenas ao final fingindo outra voz. Apesar de Daniel perguntar para a plateia se alguém notou alguma destas cenas com a voz alterada e ninguém ter acertado, ele confessa orgulhoso por não ter sido descoberto que uma das cenas foi a do banheiro, por exemplo, onde Joca e Pierre dialogam: “Você não vai lá pra casa, né?” “Nem fudendo” (e Daniel fingiu uma voz mais fina para recitar as frases).

Para Anna, fazer um filme menor foi muito diferente em sua carreira. Mesmo frente a proporção de seu primeiro longa-metragem, que já era bem independente, “Durval Discos”, foram seis semanas, enquanto que “Mãe Só Há Uma” foi rodado em apenas 3 semanas. Muylaert também se lembra o quanto foi difícil se desvincular do final das filmagens, como em “Durval Discos” onde a atriz que interpretava a criança chorou ao final no colo dela, que era o que a própria diretora gostaria de fazer, mas que só o insight de uma criança alcança mesmo. Aliás, por falar em menina, uma pessoa da plateia pergunta para Anna por que a personagem de Jaqueline, irmã de Pierre em “Mãe Só Há Uma”, não aparece mais no filme? E Anna responde que uns sentem falta de mais Jaqueline na projeção, outros de mais tempo com Joca, outros do futuro dos personagens quando a projeção acaba, porém a diretora prefere assim meio inacabado propositalmente mesmo. Mas para quem gostou da atuação da atriz-mirim, ela já fazia a Nala da peça “O Rei Leão”, e, dos jovens no elenco, era a que tinha mais horas de vôo de experiência. Ainda em cima da reflexão sobre os personagens mais jovens do elenco, Anna fala que o interessante é que a história apresenta os jovens pagando o preço das expectativas dos adultos, quase como se parecesse haver o “Time dos jovens” e “Time dos adultos” no filme. Tanto que foi Marcelo Caetano quem acrescentou a personagem da tia interpretada por Luciana Paes (“Sinfonia da Necrópole”), pois faltava um adulto que fosse uma ponte entre as duas gerações. E Daniel acrescenta a profunda reflexão de que o que o público sentiu em relação à falta da personagem Jaqueline ao final pode ser o que o Pierre sentiu em relação à falta de Jaqueline, projetada na identificação da plateia.

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A plateia volta a perguntar sobre o benefício da equipe menor ser melhor, e Anna justifica que assim consegue ficar mais perto, tanto que o corroteirista virou assistente de direção e até ator (Marcelo Caetano). Ele era o professor de teatro na cena dos abraços, mas teve de ser cortado por causa da duração do filme, e ainda assim o restante da cena dele dos abraços dos alunos da turma de Joca continua na versão final, e foi toda advinda de uma ideia de Marcelo. Por isso Muylaert consegue ver que “Que Horas Ela Volta?” foi a maturidade do que já vinha fazendo, enquanto que “Mãe Só Há Uma” é o risco, menor e mais arriscado e contracorrente do que fazia antes. Lembrando que “Que Horas Ela Volta?” teve 20 anos de elaboração, pois Anna foi captando orçamento maior, o que demora muito. E teve essa vontade simultaneamente de fazer algo em outro formato, e foi quando conseguiu o orçamento completo do “Que Horas Ela Volta?” pra filmar em março de 2014 que também conseguiu um edital por BO (baixo orçamento) pelo MINC e filmou “Mãe Só Há Uma” em novembro do mesmo ano. Marcelo complementa que viu a diferença na própria realização, pois tentaram olhar o filme de forma mais sintética com decisões firmes. E Anna sempre é muito aberta, pois para ela a opinião de todos importa, o que é raro de se ver no cinema comercial, ainda mais numa lógica mais sintética. E a diretora ainda arremata que nesse edital de baixo orçamento do MINC para “Mãe Só Há Uma” levou todo o valor do edital, o que, com o novo MINC, pode deixar de existir esse tipo de edital; uma ameaça para todo o cinema nacional.

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Sobre o Método de Anna ela o nomeia de “sequence model/approach”, o qual, infelizmente, não tem livros em português sobre ele. Aprendeu o nome e a definição com um professor belga que teve, apesar de que já realizava este método antes mesmo de aprender mais sobre ele. Na prática é como se fosse uma série de ‘Post it’ sequenciais, contendo cada divisão de Cena e clímax, para controle de ritmo. Ajuda a ter visão geral, além de ritmo, mas não serve de ajuda na hora de criar a história. Por exemplo, a história de “Mãe Só Há Uma” foi criada por Anna como uma quebra de expectativas, principalmente nas formas de se amar, e este foi o motif de escrever os personagens, como essas duas personagens das mães em momentos diferentes da vida do jovem protagonista, como se a 1ª mãe fosse a da infância, onde tudo é lindo e ótimo, sem conflitos, enquanto que a 2ª fosse a da adolescência, com quebras de expectativas, não sendo mais a mãe/amiga tão oceânica que adorava o filho em tudo o que ele fazia. A adolescência é uma queda, como se fosse um anjo caído que levanta e vira adulto. E Anna acha que estes caminhos de autodescoberta são eternos, como sua avó com 99 anos quando foi pra uma Instituição de idosos, e em seu aniversário deu o 1º pedaço do bolo pra uma nova amiga que fez lá dentro e não pra filha ou neta. Este é um perfeito exemplo de caminhos novos possíveis a qualquer momento na vida.

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Voltando a falar sobre a questão da sexualidade fluida, Anna e Marcelo pesquisaram muito, pois o fato é que não existem só dois gêneros. E os jovens com que Anna trabalhou fazem parte desta geração nova que vem conhecendo mais e mais na prática. A forma com que vem se encontrando pontos de vista de formar a própria identidade, sexualmente, de formas mais relaxadas e livres, com menos repressão. A atriz que interpretava a namorada em cena de Pierre falava isso nos ensaios, exatamente sobre existirem mais gêneros do que o maniqueísmo do binarismo. E a própria formação acadêmica de Marcelo ajudou muito nisso, pois ele advém de uma especialização em Antropologia e pesquisa de gêneros. Estudaram até as simbologias de Tarô, a mitologia e o que era Dionísio como figura mítica, etc…. Além disso, contam que o próprio ator Naomi Nero trouxe para os ensaios sua história pessoal de que sua irmã era trans. Noutro exemplo o figurinista do filme se veste das 2 formas, ora masculina ora feminina, então era um aprendizado constante, passado até para dentro das filmagens, como os vários significados dos figurinos dos personagens, onde Glória (2ª mãe) é mais chique, porém usando roupas mais masculinas, enquanto que teorizavam que até o personagem do pai poderia ter sido gay enrustido, mesmo não havendo nada disso explicitamente no roteiro. Para Anna Muylaert a mensagem mais importante na questão da formação de identidade é ser quem você é. Por isso que conta seu filme a partir do ponto de vista do filho e não dos pais. Mesmo que decepcione seus pais, é sempre melhor ser você mesmo.

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