Debate Internacional na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes

Diálogos do Audiovisual: Um Olhar sobre o Cinema Brasileiro

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24 de janeiro de 2018

Debate Internacional na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes

Diálogos do Audiovisual: Um Olhar sobre o Cinema Brasileiro

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Com Boris Nelepo (crítico, curador e programador de Festivais na Rússia), Erick González (delegado geral do Centro de Cine Y Creación e diretor do AustroLab – Chile)

Mediação Leila Bourdoukan (gerente executiva do Cinema do Brasil / SP – que leva cultura brasileira para fora)

Leila fala que desde que leva nosso cinema para fora cada vez é mais recebido de forma positiva.

Um correspondente da Variety disse que Brasil é o 4° país de maior relevância em países estrangeiros, atrás de França, EUA e Canadá.

Erick começa falando sobre a plataforma AustroLab de exibição e estudo de cinema, com oficinas e etc. Erick antes era curador de Festival em Toulouse na França com muitas produções latino americanas nos últimos 10 anos que esteve à frente de lá.
Erick também fala um pouco sobre a dicotomia de iniciativas privadas e financiamento público para os filmes.

Boris agradece a oportunidade e reconhece o contraponto de que Erick vem de um lugar de maior conhecimento do cinema Brasileiro e Boris vinha de menos conhecimento (2° vinda no Brasil), e está tentando não perder nada aqui na Mostra. Mas é um crítico e realizador independente lá na Rússia. Faz várias Mostras e retrospectivas e ficou muito interessado até de fazer com nosso cinema na Rússia. Conseguiu inclusive há pouco tempo descobrir e convidar Adirley Queirós para participar de evento na Sibéria. E acredita que Brasil tenha similaridades com a Rússia, e, até por ambos fazerem parte do Brics, deseja muito aproximar os laços. E aproximar as relações e justificar levando mais gente como Adirley.
Ano passado os Brics fizeram uma Mostra de filmes de seus países e quem ganhou foi o filme brasileiro “Nise – Coração da Loucura”. E graças a isso a China comprou, e foi apenas o 3° filme (brasileiro) a ser distribuído na China, em 600 salas. E isto em parte é graças a curadores estrangeiros tendo acesso.

Leila pergunta como eles obtém acesso aos filmes?

Boris acrescenta que é consultor de produção de filmes lá na Rússia, independentes e de empreendimento de risco, que não saem da Rússia. Ele vê no Brasil abordagens criativas bem diferentes. E há variedade enorme de riquezas. E tendo conhecido Tiradentes ficou mais familiarizado e saberá acompanhar o trabalho destas pessoas.
Lembrou o caso do Cinema Filipino, e eles não estavam em trend nem na moda, e agora estão em todos os Festivais, mas para haver interesse nos filmes Filipinos começaram a haver portais e sites bilingues, da mesma forma que o Brasil está fazendo cada vez mais conteúdo na internet com acessibilidade para estrangeiros.
No Brasil, Boris acredita que há uma cultura cinematográfica forte, com muitos críticos e profissionais entusiasmados, e se conseguir continuar assim, daqui uns 5 anos o cinema brasileiro pode inclusive ampliar ainda mais. E se seguir o prospecto das Filipinas, e de os profissionais escreverem bilíngue, e usarem como banco de dados de informação para os estrangeiros, como o site de festivais, como o de Tiradentes, e que mesmo edições passadas viram acervo, é importante para acompanhar. E os profissionais e Festivais ajudam a dar visão crítica, diferente da Ancine que só agrega dados sem qualificá-los na maioria das vezes.

Leila faz a mesma pergunta para Erick, levando em consideração que filmes Latino Americanos tenham coprodução com Brasil, ampliando o acesso.

Erick fala que sim, os Festivais Latino Americanos possuem uma integração maior, e um intercâmbio mais facilitado entre eles. Claro que enviam muitos filmes para as curadorias que pertencem a países da América Latina inteira e do mundo, mas ainda assim são poucos curadores por Festival, então ajuda muito já terem assistido em outros Festivais, com a impressão do atravessamento de cada plateia que acompanhou nos respectivos lugares em que foram exibidos originalmente. Auxilia muito também a troca de impressões entre os curadores de diferentes Festivais e com os públicos variados também. A diferenciaçãodos olhares também conta, porque os Festivais tidos como os principais do mundo, que são os Europeus, como Cannes, Veneza, Berlim, Locarno etc…e mesmo os tidos como porte de segunda geração, como Rotterdam e etc, o fato é que o olhar ainda é extremamente eurocêntrico, voltado para filmes e público predominantemente europeu, ainda que não seja esta mais a realidade das plateias que atendem e cobrem estes Festivais. Isto porque seus curadores ainda são predominantemente homens brancos (heterossexuais, cis) europeus. Eles continuam curando os Festivais, julgando e premiando os filmes, e achando que esta produção ainda seria voltada em sua maioria para este olhar, o que não reflete mais a realidade.

Nisto, Leila pergunta se Erick acha que todo filme de Festival encontraria um perfil ou nicho nos cinemas para ser lançado comercialmente ou se existiria um tipo de filme que só funcionaria em Festivais?

Erick responde que não acredita que filme exista apenas para Festivais, pois todo filme tem o potencial de encontrar seu público. Um bom exemplo que Erick pode citar é justamente o filme brasileiro “Aquarius” de Kleber Mendonça Filho, que existiu para muito além do Festival de Cannes com seu perfil de curadoria de homem branco europeu, fez sucesso no próprio país e depois no mundo.