Debate: Mostra Dorothy Arzner na Caixa Cultural

O debate sobre os filmes da maior cineasta da Era de Ouro de Hollywood contou com os curadores Victor Guimarães e Marcella Jacques, além das convidadas Janaína Oliveira, Tatiana Carvalho e Kênia Freitas

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18 de abril de 2020

Debate: Mostra Dorothy Arzner na Caixa Cultural. O debate sobre os filmes da maior cineasta da Era de Ouro de Hollywood contou com os curadores Victor Guimarães e Marcella Jacques, além das convidadas Janaína Oliveira, Tatiana Carvalho e Kênia Freitas.

Victor Guimarães começa explicando que Dorothy Arzner foi uma das mais importantes cineastas na História de Hollywood: única mulher a fazer carreira no auge da era de ouro. Única a fazer passagem do cinema mudo pra o cinema falado. Antes de 1920 existiam várias mulheres com posições importantes em Hollywood. Por exemplo, Lois Weber era a pessoa mais bem paga lá. Havia Mary Pickford (atriz e produtora e sócia-fundadora da United Artists), Alice Guy-Blaché (pioneira das pioneiras) etc… O sistema era mais paritário do que hoje em dia, por incrível que pareça.

Aí o cinema falado passa a ter privilégios, cargos especiais para os homens (que voltavam da 1ª Guerra Mundial)… Neste meio, Dorothy foi uma self made woman. Até hoje ela é a mulher que mais dirigiu filmes em Hollywood, recorde que ainda não foi quebrado mesmo com várias cineastas famosas hoje em dia.

Dorothy era filha do dono de um restaurante onde nomes do cinema frequentavam (Chaplin, Pickford, Sarah Bernhardt….). Ela chegou a ser motorista de ambulância na 1a GM….fez medicina e deixou a faculdade…..queria curar enfermos….mas viu que não era pra ela. O pai conhecia William B Demille, irmão do Cecil. E não queria privilégio e aceitaria começar através de um cargo por baixo. Ela viu tudo e viu que queria ser diretora porque era o cargo que mandava em tudo. Mas começou como datilógrafa, depois “cortadora” (antes de montadora ou moviola), depois “editor” = 1a mulher creditada como montadora por “Sangue e Areia” de Fred Niblo com Rudolph Valentino = ela montou + de 50 filmes e virou notória e chamou atenção (misturou cenas de imagem de arquivo com tourada que ela própria filmou e alguns a creditam como codiretora).

Seu talento também se demonstrou no roteiro de “The Red Kimona” de Dorothy Davenport e Walter Lang, com temas que trabalharia depois em sua carreira (cult que falava sobre emancipação financeira da mulher, mesmo que a personagem precisasse se prostituir para tanto). Nesta época, ela trabalhava na Paramount (que nem se chamava assim ainda). E ela começou a blefar que iria sair do estúdio para dirigir em outro lugar, caso não lhe dessem a chance, pois Dorothy já esperava há anos ali…. e eles sabiam que ela era muito valiosa como montadora e roteirista para seus filmes. E ela blefou que se não tivesse um filme de porte “A” pra dirigir, iria embora.

Foi assim que ela começou a dirigir, como em seu primeiro filme assinando a direção oficialmente: “Fashion and Women” (“A Mulher e a Moda” no Brasil em 1927, mas a cópia se perdeu), depois “10 modern commandments” (também perdido). Até existe um ou outro filme ainda da era silenciosa recuperado, mas a maioria se perdeu. O 1º filme sonoro da própria Paramount também foi Dorothy quem dirigiu! Em “Garotas na Farra” (The Wild Party) ela inventa o microfone “boom” com uma vara de pescar improvisada pra acompanhar a atriz Clara Bow. Até 1932 era sucesso após sucesso. Depois disso, ela decide sair da Paramount e dirigir pra outras produtoras por projeto. Pra RKO foi “Assim amam as mulheres”. Dirigiu pra Columbia também. Para a MGM trabalhou com “A Felicidade de mentira” – que acabou sendo um fracasso absoluto, o que é de estranhar, pois é ótimo, mas parte foi cogitado ser perseguição do B Demille. Ela demorou 3 anos pra dirigir de novo. O último filme dela foi “Crepúsculo Sangrento” (1943), e, após 3 anos, não era mais requisitada… Teve pneumonia severa e não chega a terminar o filme. Sai de Hollywood pela doença e por não ter mais um lugar  ali, ela pronunciou a famosa frase creditada a ela: “Eu deixei Hollywood mas Hollywood também me deixou.”

Dorothy era lésbica assumida, jamais escondeu. Usava roupas masculinas (pois se identificava desta forma). E teve ao seu lado Marilyn Morgan como companheira por mais de 30 anos. Teve relações com outras mulheres, inclusive Billie Burke que atuou no filme “A Felicidade de Mentira” (e ficaria notabilizada depois como a bruxa boa de “O Mágico de Oz”). E se relacionou com outras mulheres também. Mas sua vida pessoal era discreta. Nunca assumiu uma bandeira, mas também nunca escondeu (por exemplo, com casamentos arranjados que outros nomes fizeram).

Sempre construiu personagens femininas muito fortes. Às vezes parece ser masculino e vira no meio pra feminino. Grande retratista de comunidades de mulheres. Difícil encontrar isso nos homens que dirigiam na época. Talvez o que o Howard Hawks fez com a comunidade masculina, em relação à camaradagem, ela talvez tenha feito o equivalente com a comunidade feminina. Ela criou maneiras de negociar com o que se espera. Olhar clássico com o toque particular.

Ela trabalhou isso em Filmes diversos. Sem linha de filmes. Impressiona como mulheres eram retratadas por ela perante a forma como eram retratadas na época, sempre clichês. Mulheres, mães, filhas ou esposas… Ou recatadas ou sexys como eram retratadas pelo ponto de vista dos personagens masculinos… Já ela, mesmo com clichês sabia dar outras camadas ou ambições…. A trajetória foi diferente: datilógrafa de roteiro…depois coordenadora/supervisora de roteiros, depois montagem e roteirista = 2 pilares de estrutura de linguagem fizeram ela entender como fazer filmes da época. Como conceber filmes de sucesso. Ela teve um que foi um dos mais rentáveis do cinema mudo.

Marcella Jacques fala que Dorothy trabalhou as ferramentas do que o estúdio gosta e o que o público quer, e ela botava outras camadas e subtextos… O que está na tela e o que também pode ser lido. A partir de 70 foi redescoberta pelas feministas. Existe uma entrevista com ela em 1975 traduzida no catálogo da Mostra especial sobre ela no Brasil. Judith May analisou filmes dela. Análise da lesbiandade dela e como importava no subtexto. Muito discreta na vida pessoal, mas nos filmes está posta de outras formas. Os relacionamentos sexuais, como ela os reproduz nos cinemas, são sempre ruins, os homens são infantis — quase nunca final feliz, sempre sarcástico ou ácido.

Tiveram reanálises nos 70, mas ela era mais velha… Hoje falamos com olhar do século XXI e podemos nos assustar com ela comentando certas questões porque não havia muita clareza… Às vezes soa machista até… Mas ela não queria ser esposa, queria ser mulher de carreira e de posição. De Ambição. Igual aos filmes dela com personagens que ambicionam. Até em 1940 com a atriz Lucille Ball em início de carreira que ela já colocava subtextos do que é uma mulher moderna e queria ser dançarina acima de ter família. Isso foi antes da própria teoria do autor do Bazin….mas ela tinha uma assinatura de autora.

Marcella reitera que, com 16 longas, até hoje Dorothy é a mulher com mais longas na indústria americana. É muito recente as mulheres numa posição de poder econômico. E uma mulher atrás das câmeras muda o olhar de construção de personagens.

A seguir, a pesquisadora convidada Tatiana Carvalho agradace o convite e parabeniza a curadoria e produção da Mostra e ressalta a importância da Mostra neste momento possibilitando contato com esta pioneira, porque estes filmes jamais passariam no circuito comercial que visa lucro e pela preocupação com cidadania precisamos de espaços como este. Já houve mostra de mulheres negras produzida por Kenia Freitas (aqui na Caixa Cultura). De Barbara Hammer de mulheres lésbicas. Também teve Mostra que foi uma das primeiras de Cinema africano anos atrás… É muito importante haver lugares como este hoje.

Voltando o olhar agora para Dorothy, alguns pressupostos, olhando pra obra dela hoje: É importante entender que é feito por mulher lésbica que atuou em 20, 30, e 40 e sem botar os pesos dos conceitos de hoje numa posição autoral pra analisar as obras e os contextos, pois eram outros. Por exemplo, pegando a teoria de performatividade de gênero da Butler…é algo recente. Ou mesmo pegar outra referência, Jack Hauberstam (antes da transição, Judith), falando sobre “Female Masculinity” (Masculinidade feminina). Não é pegar performance de se identificar com a masculinidade, é dinâmica de entender um masculino que não está no corpo de um homem.

A pesquisadora Janaína Oliveira complementa falando que o olhar exige deslocamento. Um certo olhar que, apesar de fazer certa denúncia a lugares no cinema, reconhece que haja grandes hiatos sem mulheres. Mas quando as pessoas usam essa potência da Dorothy usam adjetivos masculinos… Tenaz, Determinada, Focada. Como se as outras mulheres excluídas pela dinâmica capitalista pode sem querer tirar o olhar justo com outras mulheres como se elas não tivessem foco etc

A mesma coisa com diretoras mulheres como a Safi Faye… Que dizia que não era feminista. Mas seus filmes eram!

Tatiana retoma e complementa que até pela interseccionalidade de classe, não vamos universalizar. Os filmes dela nos confrontam com olhar de gênero pra além do essencialismo de gênero, como a sociedade demanda de performance de gênero masculino-feminino hegemônico na sociedade. Tatiana recomenda que há ótimo texto no catalogo da Pam Cook que trabalha com olhar feminista dos 70. Uma Ideia de jogo. Trabalhadas personagens indo contra lugar do estereótipo, contra lugar do feminino estereotipado ampliando a ideia de que no cinema clássico, sobretudo nos que não eram centrados nas mulheres, eram centrados com o arco nos homens, evoluindo, abarcando grande gama, mas as mulheres não. Mito da mulher histórica objeto sem desejo apenas serve pro desejo do homem. Mesmo na Dorothy, elas sempre tem arcos e vão pra algum lugar. Mesmo no estereótipo de querer casar ou etc… Mesmo nas chaves estereotipadas elas balançam.

Em “A Vida é uma dança”, você teria a personagem principal inocente que se protege e não quer se mostrar e ser tenaz e a outra quer se mostrar e é burlesca. Os 2 estereótipos estão juntos, mas as coisas se resolvem e alcançam entendimento mesmo após um “Catfight”. Têm definições e tem agência. A ideia do jogo mostra que não é só representação feminina do que seria aprovada pela norma de conduta feminista de agora, mas negocia com esses espaços, com o lugar de cinema de indústria e de fórmulas, mas cria ideia de jogo com o que ela joga. Não vai estar dentro de todos os conceitos de agora que não vai se encaixar. Mas dentro disso tem várias subversões.

Ela também teve porta de acesso por ser branca, rica, filha de dono de restaurante frequentado por estrelas. Ela queria ser mulher moderna independente do pai. Teve porta aberta pela situação dela. Mas quando foi lá tem um comentário dela sobre querer independência. Filha única que perdeu o irmão cedo e não precisava de dinheiro. Era herdeira e não precisava e isso permeia até hoje como no cinema brasileiro de herdeiros.

Mas graças ao cinema digital outras pessoas também conseguiram, mas desde o principio da lógica capitalista em Hollywood retiram as mulheres porque vira uma ferramenta lucrativa real de negócio para os homens. Mas Dorothy teve consciência disso e ela sacou que sendo mulher lésbica e rica ela teria mais liberdade que um homem casado de família. Ela tinha liberdade de ter carreira e não tinha que cuidar de filho, nem ambição familiar nem cuidar de homem etc.

No documentário sobre ela essa inflexão não é feita. Apenas questões de classe envolvidas, e não trabalhar só na chave das mulheres ausentes… O Jogo, a Negociação… Os homens pós crise de 1929, mesmo quando os homens se voltam para a indústria, e ocorre uma exclusão de quem estava ali antes, isso acaba representando uma moralização intensa do sistema, e Dorothy teve que ter coragem. E em seus filmes é a mesma coisa: Suas Personagens que negociam em diferentes níveis em suas agências de diferentes maneiras. A personagem de Joan Crawford, por exemplo, super negocia no filme “Felicidade de Mentira”. Entranho estereótipo da mulher que deseja coisas, é ambiciosa….e é desmascarada… e a reação é surpreendente. De todos os filmes heteronormativos em que Dorothy negocia com o sistema, o Giulio é o único personagem de um cara bacana e o único final feliz. Várias negociações para se chegar até lá. Inclusive entre as mulheres. A forma como as personagens fazem opções colocam num lugar diferente, há várias quebras dentro.

A pesquisadora Tatiana continua desenvolvendo que Dorothy joga com moralismo, com o código Hays, que interferia nas decisões. Muitas mulheres interferiam no roteiro, como a Tess. Ou a Zoe Aikens. E interferem no roteiro. Falas afrontosas pros costumes da época. Na década de 30 dizia: a receita do casamento moderno: camas separadas, antidepressivo de manhã. Ou: “melhor vc sair enquanto é tempo”. A amiga sempre bebendo. Código Hays super machista super racista. Por ele a instituição de casamento tem de ser preservada. Não podia ter cena na cama… Nem beijo longo. Nem casamento interracial.

Em “A vida é uma dança”, temos 2 protagonistas mulheres que alternam protagonismo, por exemplo… Perspectiva de perder emprego… e vão atrás de se firmar no emprego. A personagem de Lucille Ball vai atrás de marido rico. A Maureen O’hara vai se dedicar ao talento. E as 2 vão pra outra chave… Várias tensões. O que é uma mulher? O que os homens querem? O que ela quer?

Os enquadramentos patriarcado atravessam os corpos femininos também que podem reproduzir aquilo. Por isso não pode essencializar. Impressionante isso ainda mais numa época com um manto de moralidade. E mesmo na rivalidade Dorothy joga a cumplicidade e irmandade feminina, e que já era super complexo naquela época.

E o fato de o discurso feminista da personagem pra plateia ser aplaudido por 1 mulher, e depois pela plateia até de homens, mostra que o espetáculo consegue capturar até isso, até o discurso feminista e ser capturado pelo homens. Porque está numa outra chave de negociação que subverte. Em “Merrily we go to hell” = felizes vão pro inferno, numa tradução literal — o protagonista dizia isso quando brindava, sempre bebendo logo depois, em plena lei seca, e Dorothy teve a coragem de retratar alcóolatras funcionais. (bastante ousado para a época).

Com a retirada das mulheres, houve capitalização de Hollywood junto com moralismo muito grande caminhando de mãos dadas. Como o filme “O Nascimento de Uma Nação” é aceito como arte, sendo racista, e isso não se descola, e percebem que o cinema pode trazer um discurso racista ideológico, isso consolida um formato de empresas que vão formar um cinema clássico e a entrada dos homens que culminam no código Hays na década de 30 (de tudo aquilo que você “não pode dizer nos filmes”, e que a Dorothy trabalha pré código Hays, e que vai contra um projeto de aburguesamento. A Dorothy infelizmente também não foge das questões racistas. “A Vida é uma dança” tem personagens negros, quando as cenas ainda estão no cabaret, porque, quando vira Broadway, vira tudo branco. Há casal negro no tribunal e o homem que chama Abraham Lincoln e depois na plateia há blackface. Mas há ambiguidade lá dentro da questão de classe e raça emulando a Hollywood clássica. Tipo: se ela subverte com a personagem feminina, ela aceira outros códigos pra se encaixar. Outras interseções e cruzamentos. E conseguir ler isso não como demérito, mas como parte do processo desta indústria.

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