Debate Mostra Foco Série 3 na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes

Debate sobre a última série de curtas da Mostra competitiva principal de curtas

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26 de janeiro de 2018

[25/1 13:30] filippopit: Manuela responde sobre lugar de fala e representatividade, que alguém perguntou no debate anterior sobre como se pensa neste protagonista, e que Manuela se sente incomodada também sobre a ausência de diretores indígenas nas programação.
Manuela quis falar de construção de imaginário, e coloca a partir daquelas imagens e a intenção inclusive era trabalhar mais a partir do imaginário do que é estereotipado.
Queria partir do urbano do que é apagamento, e que não conseguiu alcançar comprovação de sua ancestralidade. E vem debatendo sobre o que é fazer filme sobre si mesmo e sua procura, e que pode ser interpretado como autovangloriação, e por isso a diretora escolhe desaparecer a partir de certo momento, e deixar as imagens falarem por si, pois o apagamento indígena foi feito de forma estrutural no Brasil.

O filme Inconfissões começa com um laudo médico e vai criando diálogos até a narração final da própria diretora.
Ela recebeu o material como herança da tia…e só há pouco tempo recuperou o material de forma a se aprofundar nele e usou material de arquivo como abordagem e analogias visuais.
A princípio tinha receio da voz off, mas chegou na montagem no momento que fazia falta a narração. Como havia cartas também pensou em como trazê-las pro filme.

Foi perguntado, então, que os trabalhos teóricos do Roberto Galizia foi muito importante pelos livros dele também, e justo a parte profissional como grande teórico admirado muita gente, não foi colocado.

A diretora responde que quando ela nasceu, ele já havia morrido, e tudo o que soube foi através da família pelo sucesso dele , por ter sido o único da família a ter ido para um meio mais artístico. Mas só foi investigar mais depois de mais madura. E as cartas nortearam as descobertas. E o filme não precisa ter que lidar com todas as esferas do que cria um indivíduo, pois é uma criação pessoal, uma visão pessoal. Há um recorte.
Quando o pai da diretora viu o filme, e o HIV ainda é tabu hoje, imagina naquela época, e foi muito difícil pra família ver aquela parte exposta na época que ele faleceu. Tanto que a parte do reconhecimento acadêmico foi buscada muito pelo avô. E trazer a questão da homossexualidade hoje em dia sem a estigmatização dada na época, sem vincular patologia à orientação sexual, era muito importante para desmistificar.

Sobre referências em Febre, o diretor fala sobre Dolores Duran que era crooner de boates e virou compositora, mãe solteira de família pobre, e seu maior sucesso A Noite de Meu Bem só veio a estourar após sua morte, que se deu cedo.
Há vários impulsos culturais, e ao mesmo tempo é louco que o país seja tão conservador, porque ele foi fundado em violência e dor. E advém desse esforço de entender o que é viver nesse país, e querer se reconhecer, e ser atravessado por questões de sexualidade e outras referências que estão ali de forma climática neste sentido.
E há referências internas de ciclos eternos, que é muito curioso ver agora na tela ganhando novos significados eternos, como personagem com boné do Lula, e falando sobre febre amarela, e tudo está nos jornais agora.

Gilda Nomacce agradece a recepção calorosa, e que as referências são de afetos, como atuar com Helena Ignez, que é uma referência na carreira dos diretores, e Gilda amou estar em um filme de extrema sensibilidade, e quando a câmera gira se sente girando com ela, com uma liberdade total.

Sobre a impressão conceitual, onde o filme anterior dos diretores de Febre, havia tido a fotografia dirigida por Rui Poças, e perguntaram sobre a mudança na direção de fotografia, e como foi suceder o lugar de alguém tão conceituado hoje em dia. E o diretor de fotografia responde que brincou de imitar Poças.

Foi levantada a questão
(Berlim Harlem – sobre personagem negro na Alemanha pós nazista – coloca o personagem naquele contexto estranho a ele, e escolhe alterar ou não a imagem do personagem.
E se Febre tem a intenção de subverter mas mantém o personagem na mesma chave de codificação.
Sensação do brasileiro que foi pra fora de a maneira um pouco neocolonial, como se um personagem branco voltasse para seu ex amado negro para colonizar.

Os diretores não acham necessariamente que reproduzem uma estética domesticada no Cinema Novo como alegado no debate de Zózimo Bulbul ou Antonio Pitanga, até porque não acha que Antônio se deixou domesticar, jamais, com personagens transgressores.

Livro do século XVI, primeira gravura de sodomia na história brasileira, com os índios transando com demônios e depois sendo castigados por eles.
Eles não queriam casal branco nem heterossexual, querem trabalhar personagens gays.
[25/1 13:36] filippopit: Xucuru do ororubá
[25/1 13:57] filippopit: Manuela responde sobre estar fazendo um cinema branco…?
Com as conversas com os Xucurus, Manuela foi pensando no filme que ela queria fazer, e como ela se sentia e como eles se sentiam em relação à presença dela.
Ela foi percebendo que não ia conseguir colocar tudo que queria. E há uma luta/resistência interna também dos Xucurus sobre a parte cultural que está sendo perdida ou diluída com as influências externas invadindo… E as missões que levaram catolicismo/sincretismo para tribos que o filme “Martírio” também aborda, Manuela queria também trazer para seu curta, como o fato de os pajés serem também um pouco babalorixás, importando do candomblé e de outras religiões. Mas queria priorizar a parte sensorial do sagrado e das sensações.
E a questão do cinema branco, foi importante para Manuela o convívio com a tribo para se entender melhor e entender melhor os índios. Mesmo querendo falar do sagrado, percebe-se que há coisas que não são para ser filmadas. E percebem que nos pesquisadores que vão lá estudar ou filmar há sim um olhar de fora, invasor, e o olhar branco mais estigmatizador talvez fosse mais invasor se não se autodesconstruir.
A própria Manuela viu que havia gente tentando subir na pedra sagrada para filmar rituais que estavam além do acordo, e até a senhora mais velha desabafou com Manuela que tudo o qye eles querem é respeito. E não que Manuela queira se auto vangloriar, mas ficou feliz de eles terem participado do processo criativo e deu uma animada no coletivo, e estão ampliando a conscientização destas etnias indígena em Pernambuco. É bom conscientizar que 20% dos editais pernambucanos têm a exigência de ser dirigido por pessoas negras ou indígenas, mas que não tem ainda esta exigência na maioria dos editais regionais brasileiros.

Já em relação a inserção da identidade da própria Manuela, ela quis priorizar em relação à voz das mulheres fortes inseridas no filme, pois falam que até lá eles são machistas e tentam tolhir a presença das nulheres em figuras de liderança nos rituais. Então ela sente que construiu o imaginário da própria imagem através do exemplo destas mulheres fortes na tela. Até há instrumentos ainda que só homens podem tocar.
E mesmo a identidade pessoal da diretora como indígena, não envolve apenas o registro público, e sim mais abstrato como reconhecimento de engajamento de luta. Não dá pra se reconhecer neste lugar sem conhecer as lutas pelas terras e cultura e se manter lá.

Ana Galizia complemeta que é importante a fala do diretor Vinícius sobre o cinema branco, ainda mais em se falando de filmes construídos por imagens de arquivo, que eram privilégio predominantemente dos brancos. E ela entende isso. O tio só deixou tantos registros porque teve o prestígio de poder viajar para os EUA e registrar tudo isso, mas ela achava que precisava usar esses registros para desmistificar a homofobia perante a heteronormatividade, e que mesmo as imagens LGBTQ são apagadas.
Mas Ana complementa que é muito importante se falar da ausência de imagens de arquivo de pessoas negras, e cita um filme que fala exatamente sobre isso: “Travessia” de Safira Moreira.