Debate na Retrospectiva Helena Solberg com David Meyer

David Meyer comenta seu trabalho como corroteirista e montador do filme

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10 de março de 2018

Sessão LOTADA para o filme “Carmem Miranda: Banana is My Business” de Helena Solberg na Mostra da Retrospectiva de sua filmografia, e seguida de debate com o parceiro de trabalho e esposo de Helena, produtor, corroteirista e montador do filme, David Meyer, contando também com a presença da pesquisadora Mariana Tavares (autora do Livro: “Helena Solberg: do Cinema Novo ao Documentário”), a atriz e diretora Leticia Monte e mediado por Carla Italiano.

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Carla começa perguntando, já que o documentário abarca o ponto de vista da própria Helena Solberg dentro do filme, já que ela é a narradora em off, como foi para o próprio David sua experiência com Carmem Miranda?

Foi uma aventura para ambos…
Todos conheciam a existência dela. Talvez não soubesse necessariamente que era brasileira, apenas que era latina. “Fogosa”.
Helena sabia bem mais.
Não se lembra como começou a ideia. Tinham livros e etc e ficaram fascinados quando perceberam que tinham duas óticas sobre ela e a vida dela era um roteiro de cinema já feito. Elementos ali para qualquer roteirista enlouquecer com aquilo. Fascinante. Tinha parte trágica, fascinante e etc.

David cresceu a vendo na TV, nos desenhos animados e etc, mas não sabia nada da trajetória dela antes.

E o processo?
3 anos ao todo? Foi mudando?

Começaram sem saber a grandeza completa da personagem, mas logo viram que era incrível. Mas filme super independente. Sem ligação com TV nem distribuidora. Busca de recursos. E a cada coisa filmada abria portas e tinha de redimensionar a ideia do filme que ia crescendo numa batalha constante.

Podemos imaginar, as imagens dos estúdios custavam uma fortuna
Cada minuto 8 mil dólares cobrado pela Fox por exemplo. Então ia contando cada segundo. Tem gente que reclama que queria mais cenas famosas, mas não havia mais como pagar.
Foi financiado nos EUA, Inglaterra, Portugal e Brasil.
Sobre montagem, o filme é de antes da era digital, e foi em película sendo cortado mesmo na moviola. David é montador do filme também, mas chegava momento que não dava mais conta e contrataram outra montadora e outras moviolas. Ia passando de uma moviola pra outra.

Hoje no digital é fácil passar de uma cena pra outra. Mas na época era manual.
Cada imagem de arquivo vinha em bitolas diferentes. 8mm, super 8, 16, etc e até em vídeo, e tudo tinha que estar numa mesma bitola para o filme final. Deu muito trabalho.

Repercussão do filme lá fora foi maravilhosa.
Conseguiram lançar em circuito de cinema que não era de blockbuster mas passou em todas as cidades e para muita gente foi uma descoberta. E todos os jornais falaram sobre. E muito bem sempre.

EUA, quase toda América do Sul, levaram para o Japão também que fizeram uma cópia em vertical…

Fazia muito tempo que não viam o filme. Viram muito na época no sangue por 3 a 4 anos…E às vezes nem sabiam se iam conseguir terminar. Trabalhavam o dia todo e eram casados e montavam desde 8h da manhã e tinha que pagar contas e etc…E tinham rotina pesada e tomavam um copo de vinho, e acordavam de madrugada preocupados sem dormir… Se alternavam. Foi uma aventura muito boa.
Ficou muito emocionado com a parte do filme com o primeiro namorado da Carmem que souberam da existência durante o filme e tinha 90 anos. E foram visitar para saber se estava com condições de filmar. E estava. Foram entrevistar por umas 2h….. E no final ele chamou eles de volta, e perguntou se interessava a eles pois tinha fotos exclusivas que nunca ninguém viu da maior estrela do mundo! E sim, claro que queriam.

Os filmes da Helena sempre têm mistura de doc com ficção. É um elemento mesmo. Neste filme criaram personagens, por exemplo a colunista. Tudo o que ela fala era verdade, tudo publicado de verdade, mas a do filme é mistura de 2 colunistas rivais da época. E queriam filmar as origens e tiveram brilhante idéia de chamar a Letícia que faz a personagem quando jovem.

A atriz Leticia Monte, presente na sessão, é chamada na mesa de debate.

Ela não sabia o que ia fazer quando foi convidada. Iam tendo idéias. A casa era a verdadeira mesmo. A chapelaria não sabiam se seria mesmo a original mas era bem possível que fosse e existia até pouco tempo, com o nome Radiante, que hoje é o nome da produtora do casal Helena e David que é “Radiante”.
E filmaram em P&B e tudo ficou com cara da época. E ficou lindo.
Ela reviu da última vez com a filha no canal Brasil e agora com o filho. Pois são 23/24 anos de lançado mas foi filmado desde 91…

David acrescenta:
E houve um crítico no lançamento que falou que não gostou muito do filme mas que valia pelas imagens raras dela jovem (todos riram, porque não era ela jovem, era a Letícia.
Perguntada sobre construção realista e o olhar igual, ela diz quE parte foi ela quem estudou e parte foi a direção. Carmem era ícone gigantesco e havia bastante material de base.

E para a fase adulta eles chamaram um ator transformista o Greg, que viajou pela Inglaterra, Portugal e EUA para interpretar.

Mariana Tavares discorre que o filme Joga com a idéia do fake de falar da apropriação de Carmem e da exotificação dela lá. Existe uma angústia e uma dúvida sobre a perda de identidade dela, e o filme vai recolhendo os pedacinhos parte ficcional e parte documental.
Não envelhece porque sobretudo é um grande filme.

Mariana Tavares lembra que o filme pegou o Festival de Brasília de surpresa quando foi o penúltimo filme exibido, quando o “Louco Por Cinema” era o favorito até então, e acabaram dividindo os principais prêmios. E muita gente que não havia escutado sobre ela antes porque morava nos EUA por muitos anos, e a filmografia dela foi resgatada. Desde “A Entrevista” seu primeiro filme, clássico sobre a identidade feminina de 1966, à trilogia sobre a mulher e vários filmes que fez nos EUA e brasileiros desconheciam.