Debate sobre atuação e o corpo na 21° Mostra de Tiradentes

Debate na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes com o diretor Rene Guerra, e as artistas Aline Brune do filme Café com Canela - filme dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa, e Patricia Saravy do filme "Tentei" de Laís Melo. Mediação de Pedro Maciel Guimarães

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22 de janeiro de 2018

Debate na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes com o diretor Rene Guerra, e as artistas Aline Brune do filme Café com Canela – filme dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa, e Patricia Saravy do filme “Tentei” de Laís Melo. Mediação de Pedro Maciel Guimarães

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Drops em vídeo e abaixo transcrição de trechos, atualizada :

Trechos da fala de René Guerra sobre performatividade e dirigir a atuação de travestis:

Preparar elenco com artistas travestis envolve investir quando elas se apropriam desta força que tem a ver com suas marcas, e conseguir vincular com o diretor através de afetos, sendo que René considera brigas e outras tensões dentro da gama de afetos também.
E as travestis e trans estão na batalha no dia a dia que também envolve uma performance, e sabem atuar com uma experiência pessoal das ruas. Elas usam muito esta atuação para se defender quando são atacadas.

René trabalha com travestis há um bom tempo, agora aqui na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes, convertendo estas performances artísticas em atuação, como no mais recente filme “Vaca Profana”, com roteiro de Gabriela Amaral Almeida e protagonizado pela performance brilhante de Roberta Gretchen Coppola e participação de Maeve Jinkings, que é o fim da trilogia que já contou com “Quem Tem medo de Cris Negão” e “Os Sapatos de Aristeu”.

As personagens travestis de René se assumem pontos dissonantes, algumas não se consideram trans e preferem ser um ponto fora da curva de contestação. E elas dizem que se sentem verdadeiramente nuas quando estão maquiadas, porque é quando começa potência do ser, dizem que quando “mentem” são mais verdadeiras do que a maioria das pessoas, e por isso que René não gosta de trabalhar com elas nos bastidores. Tanto que certa vez entrevistando uma de suas atrizes ela perguntou qual era o personagem dele fazendo a entrevista com ela…E ele diz: “Não, essa é uma entrevista normal, não atuada.” E ela responde que todos atuamos na nossa vida. E ela perguntou quem ele vai ser? Um jornalista ou policial? E René depois viria a se consultar com o terapeuta por que teria respondido que ele queria ser “policial” na entrevista: e René entendeu que escolhei policial porque na verdade ele estava com medo dela…rs

E o filme “Vaca Profana” trabalha com roteiro de uma mulher, Gabriela Amaral Almeida, que gosta de falar sobre erotismo materno do corpo daquela mulher mãe que não necessariamente estaria preparada para ser mãe. E René também é preparador de elenco, e tem de lidar com performances de travestis que já vem com sua composição, enquanto outros atores precisam de meses para preparar a composição. E ele tem de respeitar isso e a força da mise-en-scène do caos da cena. Tirar da equipe na frente da câmera que é uma troca de energia da atuação, enquanto que a equipe atrás das câmeras René chama de zona fria que ele tenta afastar o máximo possível desse caos a ser capturado.

A palavra a ser dita no texto não pode ser uma autoridade sobre a verdade da vivência da cena.

René complementa que foi difícil filmar a cena do tribunal no final de “Vaca Profana”, porque o roteiro só vai até certo ponto. E não daria para encerrar a solução de uma travesti se tornando mãe com a realidade do Cartório. Ele precisava da fabulação. A teatralidade não é oposta ao realismo, e sim uma possibilidade de concretização do real. A fabulação permite alcançar essa realidade.

René diz que os sobrinhos amam que ele conte histórias justamente porque ele impregna a memória com seus sentimentos e emoções relativos a ela. E para os sobrinhos aquela performance da memória é que é a realidade.

Noutro exemplo parecido, René acompanhou as artistas mostrando seus vestidos e dizendo que eram Coco Chanel, e quando René viu a etiqueta, algo se quebrou, e ele sentiu que a realidade quebraria a ligação entre eles. E aí René voltou à performatividade e disse que nunca viu Chanel tão lindo, como se tivessem sido transportados para Paris.

Não interessa o real. Interessa a forma como fabulo para sobreviver.

Agora, com a palavra a artista Aline Brune:

Aline rebobina um pouco para falar sobre o retorno à Bahia e que já havia estudado com Ary e soube que iria talvez contracenar com Valdinéia Soriano e Babu Santana, e pediu autorização das grandes mestras lá de Cacheira para interpretar uma personagem que fosse natural de lá quando ela não achava que pudesse evocar sem a permissão delas. E elas disseram que quem nasceu na Bahia sempre vai ter um pouco de sotero-cachoeirana. Mas Aline estava vindo de um meio mais acadêmico das artes visuais, sentada na cadeira do computador fazendo pesquisas teóricas, e foi maravilhoso ter se colocado de novo em prática. E isto foi um aprendizado de vida. Até porque por um bom tempo Aline se reconhecia como artista visual e passou a botar não-atriz, mas percebeu que já estava há um tempinho sendo algo tipo uma não-pessoa. E enfim tirou o não para se reconhecer como uma possibilidade de que ela pode ser e fazer qualquer coisa, para passar pelas experiências que atravessam em primeiro lugar a si própria para si mesma.

E René complementa que em seu título de eleitor está escrito que ele é: “cineastra”.

Com a palavra, Patrícia Saravy:

Patrícia se sentiu honrada pelo convite e fez um preparo junto com a própria diretora, Laís Melo, e sabia quede início ela havia procurado uma atriz mais velha do que Patrícia, até descobrirem a idade e geração ideal.
E aí Patrícia lembra da lição de Lucrecia Martel:
“Para qualquer drama o primeiro cenário é o corpo”.
E qual era o corpo que ela tinha de lidar? Não era este de 2018, e sim o eu dela em 2016. Com problemas e atravessamentos daquela época.
E fez o primeiro teste de figurino e veio de salto alto, que Laís bateu o olhar e não encontrava a personagem ‘Glória’ neste visual. Ela teve de procurar outra Glória neste corpo, e teve de descobrir um grau de impotência de impor a si mesma isso que não tinha de lidar, e que foi aterrorizante de descobrir que tipo de Patrícia seria necessária para estar naquela fase da personagem. E trabalhou a contenção, que ajudou no fato de que Laís oferecia à Patrícia que visse o que foi filmado depois de cada cena, e ela pôde se autodirigir um pouco também. Até fazer “correção de pupila”, de seus braços e etc. (Patrícia acrescenta aqui que tem excesso de “terra” em seu mapa astral e que lhe falta fogo). E tudo isto foi crucial nos ensaios com que ela trouxe o âmago e Laís pedia para trazer para a cena esta visceralidade exposta que parece revelar uma vulnerabilidade da própria Patricia. E como a câmera é um olho que capta apenas um recorte do todo no foco e que só depois se pulveriza para a plateia na tela grande, Patrícia teve de aquiescer quais partes de si estariam em foco para expor conscientemente esta visceralidade do inconsciente.