Debate sobre “Dias Vazios” competindo na Mostra Aurora em Tiradentes

Quarto filme inédito competindo na Mostra Aurora da 21° Mostra de Cinema de Tiradentes

por

26 de janeiro de 2018

Debate sobre o 4° longa-metragem inédito competindo na Mostra Aurora na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes

“Dias Vazios” de Robney Bruno Almeida com presença do mesmo, da produtora Adriana Rodrigues e membros da equipe. Crítico convidado Fabrício Cordeiro, e mediação por Marcelo Miranda.

20180126_120704

Fabrício, como Crítico convidado, começa lembrando que o filme foi adaptado do livro homônimo de André de Leones.
É um filme fora um pouco do perfil da Mostra Aurora, mas é um filme correto, uma boa adaptação. O livro possui apenas 120 páginas. Muito bom. Fabrício recomenda.
Mas no livro os protagonistas de fato são os personagens de Jean e Fabiana. E os personagens Daniel e Alanis so abrem o livro e fecham na parte final. Há um livro dentro do livro, ou, aqui, um filme dentro do filme.Mas no filme este último casal vira protagonista.

O filme possui vários símbolos.
O primeiro é a religião. Onipresença de santos aparecendo na tela, a imagem de 2 Papas, e até o personagem Daniel menciona em cena a quantidade de imagens santas penduradas.

Outra questão é a cidade de Silvania e como ela aparece representada. Questões estilísticas por escolha do realizador.
É um filme desbotado, e Fabricio diz isso como característica e não como crítica. Decisão de estilo. Até as fitas do Senhor do Bom Fim são desbotadas. Cenários onde o sol não entra.
A cidade é naturalista, lembrando o “chamado realista” que é o tema da Mostra deste ano.

Silvania aqui é retratada talvez como o oposto da Cachoeira na Bahia mostrada em Café com Canela como metáfora do luto.

Nos planos abertos utiliza-se da câmera fixa. Nos planos mais fechados e próximos a câmera se mexe ligeiramente.

Há certo niilismo na história. E talvez o sexo seja o único traço de prazer na sensação desencantada dos jovens.

Há muitas pessoas fumando, de freiras à grávida….o que é interessante para os personagens.

Há um paralelo entre os casais que às vezes se cruza numa projeção um no outro.

Esse livro dentro do livro ou um filme dentro do filme com um mistério que aparece r faz o espectador acompanhar….mesmo que as vezes pareça dispositivo demais.

Fabricio tem um incômodo que vale a pena mencionar para fazer uma pergunta ao final. É a cartela dizendo apenas no final que foi adaptado do livro (que geralmente vem no inicio), mas vem mais cartelas, vem informações de que o livro girou o Brasil e fez sucesso. E dá uma leitura de que o interior não vale a pena. Não estaria no filme em si e sim nas cartelas. E Fabricio gostaria de entender melhor a escolha pelo uso da cartela.

O diretor começa falando, antes de responder sobre as cartelas, sobre a parte mística do projeto. Foram 10 anos de projeto até vir à realidade desde que leu o livro pela 1° vez após a filmagem de seu curta.
Robney também é de cidade do interior, também religiosa, e saiu com seu pai senão talvez fosse que nem aqueles jovens que se sentem presos no mesmo lugar.

Como exercício de narrativa escreveu uma ligeira adaptação. Com 2 meses tinha algo em mãos e ligou para o autor Andre que tinha vontade de adaptar. Ele estava para viajar e se encontraram na rodoviária de Goiânia.
O autor falou que tinha uma produtora paulista e não fecharam naquele momento, mas depois o autor disse que o contrato não continuou com aquela produtora e aceitou o projeto de Robney porque gostou muito de visões dele.
O roteiro passou por vários tratamentos de roteiro, inclusive um dos consultores foi roteirista de Adeus Lenin.
E Robney enxerga como um trabalho com o autor, e não propriamente uma adaptação do livro.
Tanto que Robney reitera que o filme inverte quem é o casal protagonista do livro. E o personagem Daniel aos olhos de Robney é um pouco o próprio André autor do livro.
Tanto que quando Robney visitou a cidade de Silvania para decidir locações, notou que os jovens não fossem melancólicos como no livro, tinha até youtubers. Aquela melancolia era muito peculiar do personagem mesmo, e talvez do autor. Então o filme tinha que lidar essa visão. E por isso que o diretor botou as cartelas ao final do filme.
Silvania fica a 80km de Goiânia e tem por volta de 20 mil habitantes, e têm 3 escolas religiosas, o que é muito forte lá.

A plateia faz menção elogiosa a Maria Abdalla que é uma das inspirações de Goiânia que mantém há anos um Festival de Curtas Cinema lá.

Fabricio reitera que sempre achou que a Mostra Aurora está aberta a todos os filmes.
Tanto que ele acha que a das coisas que o filme tem de melhor é esse domínio da narrativa tradicional.

Marcelo lembra a todos que o único ponte de corte para seleção na Aurora é ser até o 3° filme da pessoa. Não há outros requisitos.

Robney reitera o elogio a Abdala que está presente. E disse que já dá para fazer um Goiânia Longa Festival, com tanta diversidade como “Comeback” de Erico Rassi que foi montador aqui do “Dias Vazios”, Duas Irenes de Fabio Meira, Taego Ãwa de Marcela Borela.

A produtora Adriana diz que é o primeiro roteiro a ser contemplado por edital. Não havia antes uma produção tão extensa lá para ser contemplada, mas agora há vários e que bom que isso está abrindo portas.
Ela também não acha que a cartela final do filme apontando a cidade como sendo Silvania não prejudica que o filme pudesse acontecer em qualquer lugar. Poderia acontecer com jovens de vários lugares. E por isso não acha que a cartela apontando Silvania estreitaria essa interpretação. E o casting foi bem amplo. Queriam não-atores. E foram preparados. Não foi a Fatima Toledo (supervisão geral) que foi lá preparar. Foi o Bruno que trabalha com ela. Mas Robney trabalhou presente diretamente com eles. Há cenas mais fortes.
E queria alguém mais experiente para ser a freira para trabalharcom eles. (Robney brinca no meio dizendo que escolhera Fernanda Montenegro, mas era impossível). Aí o Bruno sugeriu Carla Ribas que ficou perfeita, e ficou até melhor para o papel que Fernanda Montenegro.

Foi o primeiro filme de muitos deles
Outra coisa doída na pesquisa levantada na cidade é que muitos jovens mencionaram que já haviam pensado ou tentado o suicídio, e que é um pensamento que cruza a cabeça deles.

Mas a visão de cidade vazia e triste parece muito mais ser a visão dos personagens do que da cidade em si.