Debate sobre Periferia, Negritude e Experimentações no Cinema do Séc XXI

Debate aconteceu durante a 9ª Semana - Festival de Cinema no RJ

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21 de novembro de 2017

Debate na 9ª Semana – Festival de Cinema sobre o tema PERIFERIA, NEGRITUDE E EXPERIMENTAÇÕES NO CINEMA DO SÉC. XXI:

Link do debate ao vivo:

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1196531237113461&id=410502832382976

Quando a mesa abordou a questão se haveria uma “estética/linguagem da periferia”, foi respondido que não há como se falar de uma estética assim denominada sem falar de cinema em geral. O cineasta Eduardo Carvalho retoma o tema falado também no debate no 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de que tudo atravessa essa estética, até o cinemão popular, e não pode se falar separadamente, pois tudo é assimilado e reapropriado.

Já o produtor e diretor Maurilio Martins da Produtora mineira Filmes de Plástico relata, por exemplo, que quando André Novais começa a fazer seus filmes, ele pedia por planos fixos da rotina de seus personagens, e no dia seguinte pedia o mesmo plano para mostrar a quebra da mesma rotina e, quando mal perceberam, estavam seguindo uma linguagem Abbas Kiarostami. Havia um pensamento do cinema iraniano ali. Mas reapropriado. Adaptado para outras vivências e vidas na tela. Assim como Maurilio fala de suas próprias influências de que gosta de usar Scope por causa dos faroestes que assistia quando menor. Da mesma forma que estudaram Apichatpong Weerasethakul sobre filmar as pessoas comuns em sua rotina habitual. Então tudo perpassa. Não pode isolar, e se recria.

Da mesma forma que a mesa faz uma boa provocação de que os Festivais não chamam estes nomes aqui presentes para debater estética de cinema com outros realizadores a não ser quando querem falar de periferia, como se uma linguagem não estivesse interligada com a outra. Ou mesmo convites para curadoria de Festivais e Mostras.

Mas Eduardo também retifica lembrar que isso não pode anular o fato de existir sim um lugar de criação a partir de olhares da periferia, com sua autoralidade. O que não poderia haver seria uma distorção ou reducionismos como encaixá-los, por exemplo, em categorizações como “estética da fome” e achar que isso resume suas criatividades. E algumas destas referências não chegam à própria periferia que não possui acesso. Filmes como de André Novais e Adirley Queirós não chegam até alguns lugares. Ficam às vezes na comunidade de cinema autoral, de arte etc… E quando a própria periferia recebe esse cinema vindo de lá, às vezes não está nem preparada para recepcionar, e também não é culpa deles. É necessário haver estímulo ao acesso.

Em relação à questão do acesso, a realizadora Milena Manfredini agradece imensamente a Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, que abriu os olhos e expandiu as possibilidades de cinema em um espaço que não costuma ter esse acesso. E hoje a Escola infelizmente fechou por não ter a infraestrutura devida, e agora nem mais esse espaço existe na escassez de oferecimento de equipamentos como este. E Nova Iguaçu por muito tempo apenas teve um cinema, de Shopping, com as mesmas ofertas hegemônicas de sempre. Milena também fala sobre como seu próprio trabalho sobre o Bispo do Rosário teve recepções diversas, porque houve gente que se sentiu tocada pelo lado mais artístico, outras pessoas que desejavam que talvez fosse mais incisivo como o seu trabalho anterior “Pedregulho”, e todas estas necessidades díspares coexistem porque cada pessoa possui anseios diferentes de expectativa na tela por possuírem lugares de acesso à arte e a expectativas da arte em formas diferentes.

A professora Ana Paula Alves Ribeiro esclarece que trabalha com o Instituto Femina e o Seminário Grapa, além de com o Centro Afrocarioca e com o Encontro de Cinema Negro, através da parte de um diálogo profissional mais com escolas e instituições, em maior contato com as realizações mais recentes. E lamenta que as cidades não têm oferta suficiente nem satisfatória de equipamentos e espaços que fomentem esse acesso cultural, além de haver também a dificuldade de transporte no acesso físico. As pesquisas acabam obrigatoriamente perpassando pela experiência com o status quo, pois se torna o que é predominantemente oferecido, e tais pesquisadores ainda precisam buscar pelos outras produções em outros lugares. Sem deixar igualmente de buscar também o interlocutor tanto objeto da pesquisa quanto em convidar mais para pesquisarem juntos. Ou seja, haveria espaço nas turmas (acadêmicas sobre cinema) para ler textos como o “Olhar Opositivo” da Bell Hooks?! Há. Haveria espaço para pessoas negras estudarem os seus próprios espaços na academia?! Há. Mas tem que buscar referências que extrapolam o que é dado pelo status quo, pelo que se foi referido aqui como a este “olhar periférico”. Deve-se procurar desde os filmes da meia-noite da Globo, ao cardápio invisibilizado na #Netflix, ou mesmo outras fontes alternativas. E tudo isto, sem fomento para a pesquisa, nem edital nem subsídios etc, vai se demonstrando o esvaziamento de políticas públicas em um não-Estado para a cultura e educação.

Sobre serem convidados para curadorias e Júris etc, Ana Paula Alves Ribeiro fala de se abrir mais diálogos que convidem para outros espaços e temas, como elogia a iniciativa das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema com quem dialoga sobre crítica em geral, não apenas de um nicho que esperem dela – O que gerou, por exemplo, este primeiro convite em sua carreira para ser Júri da Crítica neste Festival. Bem como elogia a iniciativa de Cineclubes como o Facção Feminista Cineclube, do qual faz parte e dialoga temas do cinema em geral. E ressalta também o trabalho de profissionais como Nina Tedesco, que a convidou para falar sobre cineastas russas em uma Mostra especial sobre elas.

Milena complementa que também deseja ser chamada para falar de seus estudos sobre documentário, sobre Eduardo Coutinho e outras referências que não apenas as de nicho. E espera poder ser convidada para além do mês de novembro, devido ao mês da consciência negra, quando o audiovisual lembra que os profissionais negros existem para convites como este. Até porque foram chamadas pessoas para a presente mesa de debate, por exemplo, como no caso da própria Milena, cujo filme de sua própria autoria não foi selecionado para a seleção oficial da 9° Semana no qual se inscreveu. Ou seja, a própria pessoa é convidada para falar, mas talvez sua obra não esteja caminhando junto para poder ser expressada também.

A isto, o presente Almanaquista que vos subscreve acrescenta uma pergunta crucial sobre a participação do Cinema na nossa formação cultural e educacional:

“Quais filmes brasileiros vocês acham que deveriam ser obrigatórios para se exibir na Escola?!”

Faço esta pergunta à luz de uma provocação da professora da UERJ, Sonia Santos, também presente no Debate da 9ª Semana – Festival de Cinema sobre PERIFERIA, NEGRITUDE E EXPERIMENTAÇÕES NO CINEMA DO SÉC. XXI – Ela fala que não apenas existe a dificuldade de acesso popular à cultura, mas também a um debate sobre estética, pois às vezes, quando há o acesso, não há um preparo de reflexão para receber isso.

Lembremos que existe até Lei que obrigaria exibir filmes brasileiros na escola. E, como Sonia bem colocou, não adiantaria apenas exibir (o que já não é feito), mas também debater e refletir, para que se passe a reconhecer aquela estética com códigos que antes eram naturalizados de forma distanciada daqueles a quem eram destinados, e circulavam apenas de forma elitizada e nichada por Festivais e Mostras inacessíveis para parte da população.

Então, reiteramos a pergunta concernente a tudo isso mais como uma provocação para gerar reflexões do que necessariamente na espera de uma resposta pronta:

Qual/Quais filmes brasileiros vocês acham que deveriam ser obrigatórios para se exibir na Escola?!