Debate sobre “Rebento” competindo na Mostra Aurora em Tiradentes

Último filme inédito competindo na Mostra Aurora da 21° Mostra de Cinema de Tiradentes

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27 de janeiro de 2018

Enfim, último debate sobre o filme que encerrou a competição da Mostra Aurora na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes:

“Rebento” de André Morais, com a presença do próprio e do diretor de fotografia João Carlos Beltrão e o ator Fernando Teixeira. Crítica convidada Ela Bittencourt. Mediação por Marcelo Miranda.

Ela começa traçando um paralelo do filme que percorre o “chamado realista” (que dá nome à Mostra), mas com abordagem mais naturalista e por outro lado um tom mais teatral. O tempo mistura o presente e futuro. — com tomadas mais naturalistas e depois mais artísticas, como o zênite inicial pegando ela de cima, e depois no final de novo, quando ela deita no chão e olha para a câmera.
Ligação do corpo da mulher associado com a natureza, forças construtivas e destrutivas, e o do homem com tecnologia (trator, bicicleta etc). O pai no final é uma figura totalizante que quase apaga a feminilidade da mulher, advinda de outros códigos durante o filme. Porém, Ela coloca que está falando desses códigos mais como reconhecidos hoje pelo feminismo e por filmes especialmente feitos por mulheres, com uso dos códigos de forma diferente que a dos homens, claro, especialmente nos filmes mais experimentais.

Haveria a questão do “silenciamento” da mulher, mas que depois do debate de “Imo” e da colocação da diretora Bruna sobre não um silenciamento, mas um aspecto mais silencioso, como uma escolha daquele corpo em não falar o que já está posto. E a personagem feminina de “Rebento” não responde porque não quer responder. Ela rejeita as perguntas com o direito de não responder.
Forte visual rural, que poderia remontar à questão nordestina do Cinema Novo e de Glauber, mas Ela lembra mais da literatura de William Faulkner no quesito de forma.
E acredita que o filme se encaixa mais no naturalismo fantástico, pois a protagonista é uma mulher assombrada e assombra a terra que ela percorre.

O diretor agradece pelo espaço e por ter a oportunidade de apresentar o filme na Mostra de Tiradentes.
Agradece a fala de Ela.
Mas antes gostaria só de falar como começou o projeto. Em 2007 filmou o curta Alma e já tinha um novo projeto na cabeça. E na época leu matérias sobre infanticídio, e pensou “E se fosse pelo avesso”? Ao invés do infanticídio ser no final como de costume, colocá-lo no início e desenvolver o porquê. Ao invés de explicar decidiu investir no mistério como mote da narrativa.
Bebeu da literatura feminina, Clarice Linspector, Virginia Woolf, etc
Construiu a narrativa por volta de um dia que tivesse lampejos de quem seria ela, e fosse construída também pelo espectador.
O diretor trabalha muito com teatro e também é jornalista e decidiu juntar as duas coisas, o teatro e o naturalismo, além das referências literárias classica como Medeia e etc.
E se inscreveu num edital em João Pessoa, se uniu a uma produtora para fazer o projeto, pois lá começava a ter políticas públicas voltadas para o audiovisual, e ganharam o primeiro edital desta nova leva. Como demorou a liberar o valor, ajudou muito a juntar a equipe e elenco naturais de lá da Paraíba.

Perguntado sobre a citação à Medeia, cuja personagem na literatura é mais passional e vingativa, e ela no filme parece matar o bebê por razão bem mais social, o diretor diz que aludiu à figura de Medeia mais como referência abstrata da mãe que precisa recuperar sua identidade à parte dos filhos.

Noutra colocação da plateia, uma pessoa observou que algumas coisas a incomodaram, como o uso talvez excessivo de fora do foco, e de não mostrar muito o rosto da protagonista, ou mesmo os closes no joelho e outras partes do corpo destacadas; E a cena também da morte da galinha, que pareceu excessiva, etc…

André responde que tentou trazer uma naturalidade permeada pela morte, que está em todo lugar do filme, no infanticídio, no cemitério, e a galinha era uma explicitação disso dentro da cena com os personagens.
E os closes eram uma concepção da personagem da protagonista como um ser em constante construção.

E o fotógrafo João Carlos buscou um dilaceramento. O desfoque era uma questão da montagem, das elipses, etc…
Tentaram ser o menos discursivos nesta câmera que cola nas pessoas. Trazer algo para dar consistência ao dilaceramento. O roteiro era linear, e entre o roteiro, estar no set e a montagem, ele mexeu com a quebra interna do tempo.
Os desfoques estavam rubricados no roteiro e muitos se acrascentaram na montagem.

O diretor André acrescenta que viu este uso do desfoque para a caminhada ir se aprofundando, adentrando ou saindo de um universo denso.
Quando desfoca na cena anterior, começa a seguinte a partir dos pés dela, por exemplo, que é um lugar onde se está sempre firme.

O Almanaque Virtual pergunta sobre a ambivalência em ser um filme tão feminino com tantas mulheres forte e o final quase que sujeitar a protagonista à figura onipotente do pai, quase um Deus, quase tornando o filme numa chave mais masculina de referencial àquela mulher forte que antes prescindia de homens. E isto se reflete na dedicatória do diretor ao final do filme que se deu em nome do pai dele e não da mãe, de quem tanta fala como inspiração maior para o filme.

André explica que a dedicatória ao pai na cartela final do filme é porque ele foi assassinado há um ano atrás. Quando reviu o filme pronto, a cena de partida do pai da personagem lembrou o dele, há um contexto pessoal, apesar de não negar uma pegada mais feminina no filme inteiro. O pai dentro do filme, é uma busca dela mesma, pois a protagonista rompeu tanto consigo mesma, que foi buscar dentro das referências, na ausência (mental) da mãe, e vem a possibilidade de se comunicar com a terra e etc, como na cena final do filme. Possibilidade de enfim abrir a janela.

A crítica convidada Ela Bittencourt acrescenta uma pergunta sobre a cena da mesa de mulheres, que Ela gosta, mas acha que tem uma chave do absurdo, e incomoda, como num purgatório.

André explica que a protagonista sai do cotidiano dali e entra num lugar familiarizado, e ele sente aquela mesa como se remontando a histórias da família dele mesmo. E como Zezita interpreta outro papel naquela cena e muda completamente de interpretação, sai do realismo da história e põe um pé no lúdico.

Outra pergunta começa colocando que acha que começa interessante a colocação do bruto feminino (em contradição à palavra “delicadeza” que o diretor colocou ao apresentar o filme na noite anterior, que é um lugar que os homens colocam muitas vezes as mulheres), mas essa característica embrutecida poderia ser depressão pós parto. Porém, mesmo com essa questão interessante apontada acima, a pessoa pergunta a André se ele não acha que há cenas que se delongam na câmera com o sofrimento das personagens femininas, e há uma questão sobre a misoginia estrutural em relação ao uso de gozo em cima do sofrimento da mulher no audiovisual.
E ela sentiu falta de ele colocar um pouco também a personagem para respirar.

O diretor se sentiu tomado pelo sofrimento, e se sentiu interessado na armadura que ela precisava para a vida. E não sabe se sem querer exagerou, mas vai guardar essa colocação e pensar mais nisso para poder responder melhor depois. E que não foi a intenção dele mesmo que sem querer usar de fetiche da imagem não. Mas vai ficar atento.

Ela Bittencourt acrescenta como resposta à pergunta da plateia que acha que a violência que a protagonista comete no início está permeada por uma violência também cometida contra ela mesma pelo meio social, que é a impossibilidade de a mulher ter o direito ao aborto. E isto também é uma violência contra si.

O diretor é então perguntado sobre o pronome “Eu” que nomeia a protagonista no capítulo final do filme, e se teria sido remetido ao próprio diretor, a ele mesmo, ou se talvez não tivesse sido melhor usar o pronome “Ela”.

O diretor diz que achou mais próximo do cultural da região, como quando chamam pra atender o telefone e perguntam “Quem é?”, e a pessoa responde “Sou Eu”.
A identidade que ele pensou era a protagonista assumir a si própria. E não pensou antes sob esse ângulo colocado pela pergunta, mas vai pensar melhor para poder responder mais tarde.