Demolidor: análise da segunda temporada

Adaptado da saga em quadrinhos clássica, O Homem Sem Medo, mostra que o programa ainda é auto-centrado no diabo da Cozinha do Inferno.

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10 de abril de 2016

Os cinco primeiros minutos da segunda temporada de Demolidor resumem uma das característica essenciais do personagem título, aludindo ao sonar que o herói tem, graças ao acidente que lhe ocorreu na primeira temporada. O artifício serve de referência e reverência ao pedaço correspondente da história em quadrinhos clássica, O Homem Sem Medo, e mostra que o programa ainda é auto-centrado no diabo da Cozinha do Inferno.

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A mudança de showrunner, de Steven S. DeKnight para a dupla Marco Ramirez e Doug Petrie não mudou demasiado a essência do seriado, que optou estilisticamente por um caminho mais discreto, reintroduzindo o vigilante em sua ações de um modo comedido, onde suas ações violentas falam mais do que sua imagem satânica. Os confrontos com os que andam a margem da lei começa de maneira tímida e aos poucos se agiganta, contando com uma agressividade gráfica enorme no que tange a figura do outro personagem protagonista.

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O Frank Castle de John Berntal executa um rastro de sangue por onde passa, deixando uma marca implacável do que possivelmente seria o legado do diabo da Cozinha do Inferno, com mais uma referência clara do universo televisivo da Marvel Studios ao Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan. As posturas mais viscerais e cruéis do punidor servem bem a trama, mostrando que o contra ataque a disputa entre mafiosos modernos pela liderança na cadeia alimentar criminosa após a queda de Wilson Fisk.

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A discussão moral e ética a respeito da execução dos antagonistas já era um evento esperado nesta temporada. O não drible na obviedade não soa tão forçado, uma vez que faz lembrar um importante aspecto do filme protagonizado por Ben Affleck, que simplesmente ignorava o fato de o vigilante escarlate não assassinar os seus vilões.

Mais uma vez o seriado televisivo se vale de manobras cinematográficas para ascender sua qualidade, com planos sequência semelhantes aos vistos na primeira temporada, que mais uma vez referenciam a claustrofobia do cotidiano do Demolidor. O fato de já ter seu ideário explanado no primeiro ano, dá a liberdade dentro dos roteiros dessa nova fase, foca na relação com o ex-mariner nos primeiros quatro episódios. Quase tudo em volta do Justiceiro faz total sentido, finalmente reunindo os poucos aspectos que funcionaram nas três encarnações audiovisuais anteriores, sem toda a descaracterização usualmente utilizada nestas encarnações.

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A introdução de Elektra Natchios (Elodie Young) também é gradual, levando em conta até o flerte amoroso de Murdock e Karen Page (Deborah Ann Woll), para então retornar ao passado em um flashback além de pequenas ações no presente, onde o caráter de ninja dela é exposto. As partes onde se mostram a composição do tribunal que julgará Frank são bastante interessantes, por demonstrar como a opinião pública é diversificada no caso do personagem, variando da ótica relacionando-o ao fascismo, passando pela certeza de que o justiçamento mais taxativo é a solução para cessar a onda de violência, além de contar com comentários mais moderados em relação a isso.

Na segunda metade da temporada, um fator funciona quase a perfeição, e os outros núcleos capengam. O julgamento de Frank é interessante e dúbio, enquanto todos os motes envolvendo Elektra não funcionam, não exatamente por culpa da atriz, que se esforça para parecer natural (ainda que jamais consiga) mas sim de seu casting. Mesmo Stick (Scott Glenn) e o Clã da Mão soam fluidos, assim como as atuações de Foggy como jurista finalmente que finalmente jutifica seu diploma. Castle é descontrolado, diz não ser louco e assume ter prazer em fazer o que faz. Seu destempero culmina em alguns rompantes de raiva no tribunal, em mais de uma ocasião inclusive, resultando no assumir da alcunha de Justiceiro – Punisher no original – que lhe deram após as manufaturas se vigilantismo fatal para os que considera culpado.

As conexões com Jessica Jones são bem solidificadas, o que mostra uma evolução não só do universo compartilhado, mas também do personagem que Foggy Nelson se tornou, finalmente desvinculando ele da sombra de Matt, ainda que o tal mergulho na profundidade do personagem seja muito mais sugerida do que trabalhada.

Os arcos finais perdem demais em comparação aos primeiros da temporada, que dirá da ano inicial. Falta um antagonista que de fato faça temer a sobrevivência do herói, e na prática, toda essa seara serve para trabalhar um personagem secundário, que poderá ter sua aventura solo e que ao menos é bem introduzido e solidificado. Tais aspectos negativos não parecem ser erros dos atuais showrunners, mas certamente recaem sobre eles os excessos de narrativa ao esticar o drama por 13 episódios de mais de 50 minutos cada, erro recorrente também na primeira Temporada e em Jessica Jones.

Como nos últimos produtos de Peter Jackson, Demolidor 2ª Temporada termina sua dramaturgia com múltiplos finais, emulando as telenovelas brasileiras, que precisam dar um desfecho digno para cada personagem. De positivo, há a mesma representação gráfica do uniforme canônico do Justiceiro, como havia sido com o diabo destemido em 2015. No entanto, os enlaces sentimentais do protagonistas terminam de forma ou precocemente trágica ou piegas, com revelações bombásticas, denegrindo mesmo os poucos defeitos que o ano teve, que ainda segue positivo em meio a mediocridade normalmente empregada nos programas televisivos com o tema super herói.

Avaliação Filipe Pereira Leitão

Nota 3