Demolidor supera expectativas da junção Netflix/Marvel

À época de Vingadores 2 nas telonas, Demolidor rouba a cena no Netflix

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22 de abril de 2015

O altruísmo já consumia o cotidiano de Matt Murdock, quando criança, sendo este a causa de sua cegueira repentina, após salvar um senhor de idade de um acidente com produtos químicos, esparramados pelo asfalto após um acidente com um caminhão. Em pouco mais de um minuto de exibição, o ideário católico do futuro vigilante já é explanado, bem como sua entrega resoluta mesmo diante da derrota iminente, já que a personagem de Charlie Cox explana diante de um padre, em confessionário, o passado de seu pai (e mentor) como boxer, mais acostumado a derrotas do que vitórias, louvando a capacidade do lutador de aguentar uma boa surra.
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A química entre Murdock e Foggy Nelson (Elden Henson) é posta à prova ainda na introdução do piloto, funcionando excecionalmente, ao mostrar dois advogados competentes, cada um a seu modo, agindo juntos, sem necessidade de que um faça um papel de coadjuvante desimportante para o outro, apesar de Nelson agir claramente como escada e alívio cômico, semelhante ao visto nos quadrinhos clássicos de Frank Miller.
Em seu primeiro caso, os dois defensores jurídicos são designados para defender Karen Page (Deborah Ann Woll), acusada de um crime hediondo, capturada em flagrante com a suposta arma do crime e banhada no sangue da vítima, o que já serve para ambientar o público dentro do escopo de violência presente na área nova-iorquina de gueta denominada Cozinha do Inferno. A moça passa a ser uma personagem recorrente, contratada para estagiar no escritório de advocacia da dupla de amigos inseparáveis.
O método narrativo escolhido para exibir a extrema agressividade de Hells Kitchen é prodigioso, já que mostra gradativamente os detalhes sórdidos da metrópole, com uma quantidade grande de sangue, capaz de manchar até as vestimentas negras do vigilante, semelhantes ao visto no começo de O Homem Sem Medo, de Miller e John Romita Jr, Inúmeras sequências de ação são registradas com a câmera estática, parada em uma haste, emulando a realidade contemplada em documentários, registrada através dos raptos covardes, comuns aos escritos de Miller e comuns também a Cozinha do Inferno real.
O formato de introdução aos episódios normalmente contempla alguma contravenção ou ação criminosa por começo de capítulo, mostrando como funciona o micro mundo presente no distrito de Nova York. Após pressionar e muito alguns suspeitos, em jornada dupla, como advogado no tribunal e como vigilante nas ruas, o personagem título finalmente consegue o nome do responsável por todo o mau agouro que investiga, sentenciando Wilson Fisk (Vincente D’Onofrio) por seus pecados.
Uma das expressões de humanidade presentes no comportamento arquetípico do herói é o aspecto da gratidão, que por vezes, torna-se também cumplicidade. O caso da personagem Clarie Temple(Rosario Dawson) é clássico nisto, piorando no momento em que o destino caótico dele se mistura com o cotidiano “suburbano” da inocente enfermeira. Não acostumada a uma rotina tão pautada na violência extrema – mesmo que ao adentrar as ruas ela a sinta presente – a moça reage de modo assustado no início, aos poucos recuperando a sobriedade e adquirindo segurança e confiança ao perceber a chegada de seu paladino mascarado.
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A trama criminosa, envolvendo traficantes do leste europeu vai perdendo força, não só pela ascensão dramático do violento Wilson Fisk, mas também por um claro embargo de roteiro, que insiste em resultar num círculo vicioso, talvez causado pela troca do roteirista chefe e showrunner, Drew Goddard por Steven DeKnight. Como em Homem Formiga, a principal cabeça pensante também foi trocada, levantando a questão de semelhanças na maneira de trabalhar como produtor, gerando uma interseção inconveniente entre Kevin Feige e Jeph Loeb, ainda que o último pareça muito mais ligado aos escritos, e menos em questões espinhosas como as saídas de realizadores.
Talvez a variável mais polêmica seja no comportamento do Rei do Crime. D’Onofrio mostra que está em forma, conseguindo variar facilmente entre o comportamento de conquistador sentimental e figura sombria, capaz de decepar a cabeça de um homem apenas batendo a porta de um carro contra o pescoço da vítima. O mesmo erro na concepção do Rei do Crime se repete nos roteiros, uma vez que a trama se perde em repetições desnecessárias. No sexto episódio, o primeiro arco se fecha, de modo anti-climático, frustrando expectativas dos fãs.
A partir do episódio sete, começa uma filosófica discussão dos métodos do homem mascarado, clichê comum a filmes e seriados de heróis, mas aventada em Demolidor a partir de uma discussão de Foggy e Karen, observada a distância por Matt, que tenta ser o mais neutro possível, ainda assim apresentando um ponto de vista nada conservador, onde inclui até a mistificação norte-americana a respeito do terrorismo e da associação deste a arquétipos xenófobos estrangeiros.
A apresentação da apresentação de um outro plot, a partir da figura do também cego Stick (Scott Glenn) revela não só uma figura de mentor, mas também a possibilidade de um futuro para o vigilante, longe do classicismo comum a sua conduta de defensor da justiça, e apesar de pouco acrescentar a trama principal, é ao menos, um aspecto interessante da formação de caráter do protagonista. A exploração da figura substituta do seu pai, põe um possível adversário em uma posição emocional complicada demais para a mentalidade apolínea de um herói, apresentando um caráter de fase adulta ao guião que se apresentava combalido. A origem do retorno de Stick tem muito a ver com o panteão de banditismo visto na Cozinha do Inferno, explorado como todos os outros plots, em doses homeopáticas, lentas como em nenhuma outra narrativa da Marvel até então.
A origem do modus operandi de Kingpin é mostrado com insights a sua infância, por meio de uma criação reacionária, fruto da agressividade de seu pai. O script sequer chega perto de transformá-lo em uma vítima da sociedade, ao contrário, expondo-o como um menino assustado, mas que aprendeu cedo a se defender, impingindo no outros o medo que sentia. A postura de homem forte e perfeito passa a dar lugar a uma face insegura do vilão, mesmo que não tenha tido qualquer perda de controle real das ações criminais de Nova York. O modo ele se adapta aos outros chefões remete a um retrocesso, uma regressão mental, fruto das lembranças que têm de sua difícil infância, onde mesmo as demonstrações de afeto são pautadas em ódio, rancor e truculência.
Aos poucos, Fisk começa a agir publicamente, alterando o status quo do distrito de maneira categórica, influenciado pela mulher que antes cortejava e que “brinca” com sua predileção ao complexo de Édipo, dadas as abissais semelhanças desta com a figura materna do criminoso. Vanessa Marianna se aproveita da beleza de sua interprete Ayelet Zurer para propagar a função de mulher fatal, típica de tramas noir, assumindo até nos entornos o caráter urbano do seriado.
O formato que insiste em relembrar faz menções belas ao começo da amizade de Foggy e Matt, unindo duas sequências imprescindíveis, com a luta entre o diabo e o ninja Nobu (Peter Shinkoda), que retém consequências físicas péssimas para o protagonista – além de ratificar a rivalidade entre o audaz justiceiro e a guerreiros orientais – e as une com uma forte discussão dos métodos dele, protagonizada pelo homem a que jurou confiar acima de tudo.
A crise existencial da dupla de amigos recorre emocionalmente nos que os envolve, fazendo pesar um fardo pecaminoso sobre Karen, que tem de escolher entre fazer algo que ela acha nefasto, ou, sucumbir. Mesmo a estranha movimentação de Karen é encarada como represália, como mais um dos ataque “terroristas” as ações de Fisk, cujo perpretador ainda não é definido mesmo ás vésperas do termina da temporada, piorada e muito ao movimento entrópico. A situação passa a se agravar mais pela insistência de Bem Urich em publicar os fatos que lhe são passados sobre o modus operandi de Wilson Fisk, sempre barrado por seu editor, até que a pressão feita pelo excelente repórter o faz perder a cabeça, ao acus=a-lo diretamente por favorecimento via patrocínio, entendendo finalmente o aspecto óbvio que se apresenta a si.
A evolução visual que é imposta pelos diretores de episódio não é equivalente sequer as belas cenas perpretadas pelos seriados da HBO – exceto talvez por True Detective. A qualidade da fotografia, unida a criação do universo de aventuras, aos efeitos especiais que servem muitíssimo bem a trama validam mesmo alguns dos erros de confecção, além da demora para engrenar. As sequências de ação são dignas dos de comparação com a trilogia de Nolan a frente de Batman, além de conter a mesma vibração espiritual dos Bournes de Paul Grenngrass.
O season finale consegue amarrar cada uma das muitas pontas soltas levantadas ao longo da fita, fortificando a figura poética do Rei do Crime, que consegue filosofar em momentos de crise, e que claramente habita um nível acima de qualquer lei, além de realocar o herói para sua faceta clássica, pondo em sequências de ação já vestido como diabo, superando qualquer expectativa de fãs ardorosos.
A tão esperada luta final transpira classicismo, encaixando de modo único o confronto entre as duas faces da Cozinha do Inferno. A transparência do universo urbano da Marvel certamente ganha seu auge neste Demolidor, não só pela introdução, mas pela riqueza detalhes e esmero em tornar a cena em algo verossímil em níveis de arquitetura. Elementos do cenário ganham contornos de realidade, e tornam-se mais perigosas que qualquer arma de fogo, apontando seus canhões para um embate muito pessoal, repleto de sentimentos viscerais.
O encerramento não poderia ser mais simbólico, com o destino selado do vilão, com a recente fama do herói, que louva a vida dos que se foram, e com o restabelecimento de uma amizade – e sociedade – que é a uma das mais sinceras e singelas das histórias dos quadrinhos modernos. Demolidor consegue apresentar uma trama simples, introdutória e perfeita no que propõe, superando até as questões primordiais como a troca de comando em chefe, para apresentar uma produção congruente, fiel, divertida e densa, como eram as fases clássicas de Frank Miller, Mark Waid e Brian Michael Bendis a frente do Diabo de Hells Kitchen.

Avaliação Filipe Pereira

Nota 5