Demon

Sob o signo do mal

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05 de julho de 2016

Há filmes de terror que crescem às vezes fora da tela com uma aura mítica do que aconteceu aos envolvidos na vida real. Infelizmente foi assim que a ousada tentativa de “Demon” em fazer um filme fora dos padrões chegou ao Brasil, com a história do suicídio de seu promissor diretor estreante, Marcin Wrona, em condições misteriosas. Fatos da vida. Acontece. Curiosamente, o filme aborda uma possessão de forma não convencional, advindo da nova filmografia polonesa, posterior às lições de Wajda, Agnieszka e Kieslowski. Esta atualidade continua querendo lidar com a realidade naturalista com apenas leves toques de sublimação/respiro em meio à dureza da vida. Então, mesmo em um tema sobrenatural como em “Demon”, não espere por efeitos especiais, e sim um desenvolvimento mais psicológico.

20160428-demon-papo-de-cinema-04O grande diferencial da obra, aliás, é a abordagem de filme de gênero contrária à de terror. A narrativa finge ser um drama/romance sobre típico casamento de conflito de diferenças, entre uma nativa da Polônia e um estrangeiro, entre a família da noiva e o noivo. O que começa com um tom sombrio apenas na primeira cena, ganha ares de humor e leveza, apenas aos poucos ganhando espaço para quebrar isso em tom de desconfiança e preconceitos velados, que trazem fantasmas à tona. Ou seja, o mote não poderia ser melhor. Mas é no desenvolvimento que as boas intenções pecam um pouco. O que poderia desmistificar a fábula matrimonial em um soturno acerto de contas de gerações fica aquém da proposta, e desanda o suspense.

20160428-demon-papo-de-cinema-05O protagonista Itay Tiran até segura bem a dicotomia em ser o noivo estrangeiro visto com maus olhos pela família nativa e que será o portador da voz dos espíritos oprimidos pelo preconceito de uma nação que já sofreu nas mãos dos nazistas no passado e tem muitos esqueletos a esconder. Mas o roteiro em tentar teimar que é realista, e não paranormal, cede demais para fofocas de casório e de menos para a ambiguidade entre a loucura e a possessão, que acabam subaproveitados. Não é um filme feito parara sustos. Nem para claustrofobia. É apenas um drama esperto que brinca com crenças. Mesmo que o diretor pareça perder um pouco a mão, ainda alcança três excelentes cenas, que é a da dança no salão, a da ventania, e a sequência que encerra, com as consequências nefastas para os próprios convidados. O cineasta ainda tenta alcançar status de cult com uma remissão a “O Iluminado” no finzinho, mas isso inclusive contradiz a naturalidade que o filme preferiu seguir. Pena, seguisse o tom de Kubrick um pouco mais e sairia do paradoxo que prendeu o potencial da boa obra.

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