Depois da Guerra

Annarita Zambrano debuta com longa-metragem corajoso que trata de temas delicados e polêmicos

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19 de outubro de 2017

“Depois da Guerra”, longa-metragem de estreia de Annarita Zambrano como diretora e co-roteirista com Delphine Agut, toca numa questão muito delicada e polêmica, principalmente aqui no Brasil nos últimos tempos – a política. A briga entre esquerda e direita é antiga, e aqui Zambrano escancara o que nenhum dos lados quer e gosta de ouvir: que tanto um quanto o outro não está 100% certo. O filme trabalha o tempo todo com ambivalências de certo versus errado, culpado versus inocente, lado humano versus lado político. A trama se passa em 2002, na cidade de Bolonha, na Itália. Há protestos acalorados contra a lei trabalhista italiana nas universidades. Um professor universitário de Direito é assassinado onde lecionava em pleno expediente e o caos se instala na vida de Marco (Giuseppe Battiston), um ex-ativista de extrema esquerda que ganhou asilo na França há 20 anos graças à doutrina de Mitterrand, extinta após o episódio. Condenado na época por assassinato de um juiz, ele se torna o principal suspeito de ordenar o ataque e o governo italiano exige sua extradição. Marco, então, se vê forçado a fugir com sua filha de 16 anos, Viola (Charlotte Cétaire), tumultuando não só a sua vida como a de sua família na Itália.

Embora tenha a política como plano de fundo, “Dopo la Guerra” (no original) possui um leque de temas muito mais abrangente que vai se abrindo ao longo da trama, a começar pela culpa. Culpa que Marco sente e não é enfrentada por causa do orgulho masculino e político, e respinga forte em quem está ao seu redor e não tem nada a ver com o que ele fez no passado – lembra um pouco o casal rebelde do longa argentino “Infância Clandestina” (2011). Começa uma guerra fria entre Marco e as mídias italiana e francesa, que expõem seu rosto em capas de jornais e revistas sem dó, até que ele aceita dar uma entrevista exclusiva, onde sustenta sua posição arrogante como inocente perseguido. Quem paga por isso é sua irmã Anna (Barbora Boboulova), que é professora em uma escola secundária de Bolonha, seu cunhado Riccardo (Fabrizio Ferracane), um magistrado penal à espera de uma importante promoção, sua sobrinha de 10 anos Bianca (Carolina Lanzoni) e sua mãe Teresa (Elisabetta Piccolomini), que sofre um ataque violento dentro de casa, além de, claro, sua filha Viola, que é obrigada é largar toda sua vida em Paris para acompanhar o pai na fuga.

Outro lado interessante da culpa ressaltado por Zambrano no longa é sobre o ponto de vista de quem é culpado ou inocente, já que quem sai prejudicado na história sempre aponta a culpa no outro e a inocência para si mesmo. A abertura de velhas feridas políticas entre a Itália e França acaba por revelar a imagem do egoísmo em conflitos políticos e os reflexos do envolvimento com a política em vidas alheias. O surgimento do ódio e seus discursos também ganha um espaço no enredo, ainda que pequeno. Com um tema bastante atual, “Depois da Guerra” é um filme que deveria ser visto por todos nesses tempos sombrios, em especial quem ainda se vale de extremismos.

 

 

Festival do Rio 2017 – Foco Itália

Depois da Guerra (Dopo la Guerra)

França / Itália – 2017. 93 minutos.

Direção: Annarita Zambrano

Com: Barbora Bobulova, Giuseppe Battiston, Charlotte Cétaire, Fabrizio Ferracane, Elisabetta Piccolomini e Orfeo Orlando.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4