Depois de quase três anos, ‘O Gorila’ sai da toca e ganha as telas

Um dos diretores mais cultuados do Brasil na atualidade, José Eduardo Belmonte fala sobre a estreia do thriller inspirado na literatura de Sérgio Sant'Anna que papou prêmios e elogios no Festival do Rio 2012 e estava inédito desde então

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03 de junho de 2015

Exibido há quase três anos na Première Brasil, no Cine Odeon, no Rio, "O Gorila" vai estrear finalmente no dia 18 de junho

Exibido há quase três anos na Première Brasil, no Cine Odeon, no Rio, “O Gorila” vai estrear finalmente no dia 18 de junho

Depois de penar quase três anos na fila de espera dos “filmes sem tela”, mesmo tendo arrebatado elogios e prêmios em suas raras exibições em mostras, “O Gorila”, thriller de José Eduardo Belmonte, enfim tem data de estréia: 18 de junho. Apresentado em competição na Première Brasil do Festival do Rio de 2012, o longa-metragem – baseado em conto do livro “O voo da madrugada”, de Sérgio Sant”Anna – ganhou o Troféu Redentor de melhor ator (Otávio Müller) e melhor atriz coadjuvante (Alessandra Negrini).   Na trama, Müller interpreta Afrânio, um dublador retirado das bancadas de voz de estúdios à la Herberts Richers. Hoje, parado, a viver de rendas, seu passatempo é passar trotes para as mulheres mais bonitas de sua vizinhança, usando sua voz roufenha para seduzi-las. Há também um alvo masculino: um comerciante (Eucir de Souza), cuja homossexualidade enrustida é mote dos ataque de Afrânio, que telefona usando pseudônimo. Ele se apresenta como Gorila, em referência a um brinquedo de seus tempos de guri. Afrânio é assombrado por dois fantasmas: a) as lembranças de uma mãe bipolar, vivida por Maria Manoela; b) a imagem de um herói de seriado policial que ele costumava dublar,Mas vai chegar um terceiro e ainda mais perigoso espectro no caminho de Afrânio: ele passa a ser alvo de ligações igualmente misteriosas. Esses trotes fazem referência a um (possível) crime do qual o dublador teria sido testemunha. Confuso e perdido, acossado pela paranóia, ele vai recorrer a uma ex-vítima de seus trotes, Magda, vivida por Alessandra Negrini. Com ela, mais do que desvendar o caso, Afrânio vai desvendar a si mesmo. 

Nesta entrevista, Belmonte fala sobre a demora na estréia de “O Gorila”, avalia as lições estéticas que aprendeu com o filme e fala sobre o futuro, numa análise crítica sobre suas heranças políticas na arte e sobre as vicissitudes do mercado cinematográfico no Brasil. Com a palavra… Belmonte:

 

O diretor José Eduardo Belmonte em foto de Luciana Melo

O diretor José Eduardo Belmonte em foto de Luciana Melo

 

O que retardou por pelo menos três anos a estreia de “O Gorila” e qual é a emoção de ver o filme na tela agora?

BELMONTE: Não saberia dar essa resposta com exatidão. Mas creio que foi fruto das distorções malucas que ainda temos em distribuição no Brasil. O que acho de certa forma irônica é que “O Gorila” segue um pouco o mesmo principio do “Meu Mundo em Perigo”, um filme pequeno e radical meu, de 2007, rodado antes de um projeto maior, e que só acabou sendo distribuído muito tempo depois. Vai entender…

O que a história deste do dublador às voltas com amores e riscos te permitiu fazer – do ponto de vista estético – como investigação de linguagem?

BELMONTE: Apesar de dialogar em temática com meus filmes anteriores, ao mostrar pessoas tentando sair do seu isolamento,tentando se conectar a realidade,  “O Gorila” é uma busca de um novo caminho. Veio em um momento de cura, de busca de novos formas de contar as minhas questões, principalmente por ser um dialogo com cinema de gênero. A partir dele, eu estou tentando apreender e repensar as lições do cinema clássico e procurando dar esperança. Fora isso, o mote da dublagem me fez fazer várias experimentações com o som, que é algo de que gosto muito. Na mixagem, falávamos que a edição de som é quase uma outra dimensão da história sendo contado em paralelo.

Alessandra Negrini e Otávio Müller ganharam o Troféu Redentor por "O Gorila" no Festival do Rio de 2012

Alessandra Negrini e Otávio Müller ganharam o Troféu Redentor por “O Gorila” no Festival do Rio de 2012

O que a dublagem traz de sedutor como espaço de arte?

BELMONTE: É uma pergunta interessante.  A dublagem é uma espécie de reinvenção de uma obra. E é uma boa metáfora para o personagem do Otávio Muller. No filme, aquele que sempre viveu reinventando a vida dos outros, e sempre esteve atrás de personagens, precisa descobrir a si mesmo, que está oculto.

Otávio Müller virou uma espécie de muso seu, um Karl Maden onipresente na sua obra. O que este ator te traz de mais surpreendente e complementar numa parceria artística?

BELMONTE: Otávio é muita coisa ao mesmo tempo: um grande ator, uma pessoa generosa, um colega agregador, uma figura emblemática. Atores como ele, Milhem  Cortaz, Eucir de Souza, Muril Grossi, Cauã Reymond, Rosanne Mullholland são atores com quem já fiz alguns filmes. E eles me entendem, completam-me e me desafiam para ir a lugares novos.

"Alemão" (2014): o maior sucesso de bilheteria do cineasta

“Alemão” (2014): o maior sucesso de bilheteria do cineasta

Referência nacional de autoralidade, você conseguiu arranhar a fronteira do milhão, na casa dos blockbusters, com “Alemão” (na foto), em 2014. Como aquela experiência mais comercial modificou o seu trato com o cinema?

BELMONTE: Eu acho que o cinema comercial é um grande espaço de experimentação também, ainda mais no Brasil, onde impera em quase todos os ambientes, inclusive em ambientes intelectuais, um raciocínio binário. Logo, nunca foi tão necessário construir pontes com as plateias. Num certo momento, eu me ressenti um pouco, pois achava que “Alemão” devia ter sido mais falado, pois foi um “case”. Ele é um filme baixo orçamento, que  foi feito com dinheiro de investidores e que rendeu um bom lucro e sem ceder a fórmulas óbvias, procurando um caminho próprio. Aquele filme tenta entender o publico mas não cai em algo tolo ao dialogar com os espectadores. Mas, ok! O fundamental é continuar em frente. Pra mim foi muito importante ter feito esse filme em vários sentidos: no artístico , no humano, na carreira. “Alemão” foi importante para que eu entendesse o público que temos e como conversar com ele, para sair do isolamento, para amadurecer como artista, para poder fazer uma política autoral mais contundente. Aqui, não tem como não citar o mérito do Rodrigo Texeira, produtor com quem eu tenho uma parceria que torço que seja a mais profícua possível. Ele é um produtor diferenciado. Ama o que faz, pensa no futuro das coisas e é um criador também.

Qual a expectativa para “Alemão 2”? 

BELMONTE: Estamos ajeitando o roteiro do “Alemão 2”. Eu espero rodar no ano que vem e estou muito confiante, pois agora vamos ter mais chances de ir aonde a urgência, o orçamento e o risco da filmagem anterior nos impediram de chegar. Fora que o universo pós UPP aborda fatos muito emblemáticos da realidade brasileira e precisar ser levado, problematizado, para as telas.

Set de "Tudo Bem Quando Termina Bem", com Ingrid Guimarães, em foto de Luciana Melo

Set de “Tudo Bem Quando Termina Bem”, com Ingrid Guimarães, em foto de Luciana Melo

Quais são os seus próximos projetos como diretor, o que está pronto e o que está em processo?

BELMONTE: Eu estou terminando “Tudo Bem Quando Termina Bem”, uma comédia dramática com a Ingrid Guimarães, Alice Braga, Fabio Assunção, João Assunção, Rosanne Mulholland e Caroline Abras. Estreia em novembro. É um filme muito amoroso e, por isso mesmo, foi muito difícil de ser feito, pois vivemos tempos beligerantes. Mas me deixou feliz a oportunidade de tê-lo realizado.Estou terminando a montagem de um filme de suspense e terror que rodei em 6 dias, também produzido pelo Rodrigo Texeira. Tenho um projeto com a Natalia Lage e um grupo de teatro amador de uma igreja presbiteriana no Tororó – no entorno de Brasília. É um filme sobre ensino, encontros,arte, religião e questões sociais e espirituais. Tenho um projeto para rodar com Cauã Reymond e Leo Sbaraglia chamado “Quase Deserto”, que é um thriller existencial. Os que estão mais adiantados são “Alemão 2” e “Memórias do Cárcere”, que seria uma nova leitura da obra do Graciliano Ramos (já filmada por Nelson Pereira dos Santos em 1984). Tinha coisas no livro, que o filme do Nelson, à sua época, não podia mostrar

Neste momento no qual, na cena audiovisual, só se fala sobre o apogeu de uma nova teledramaturgia, via Netflix ou via HBO, qual é a sua relação com a televisão?

BELMONTE: Considero um campo de trabalho muito potente e estimulante. É um outro pensar e um publico diverso que tem uma outra relação com a imagem do que o publico que vai ao cinema. é fato. Mas por ser um universo tão vasto, com tantos pessoas distintas,  me parece que é possivel radicalizar muitas idéias e achar seu público. Em agosto, estréia “O Hipnotizador”, que fiz para HBO, com Rodrigo Texeira e codireção com Alex Gabassi. Mesmo sendo uma serie narrativa, é uma das coisas mais radicais que já fiz, talvez uma das melhores coisas que já fiz.  Agora no segundo semestre começo uma outra série também muito ousada e voltada para um público muito maior que qualquer filme que venha a fazer. A TV é mais um campo de trabalho, que, para mim, é muito bem-vindo.

Mariana Ximenes e Otávio Müller em cena de "O Gorila"

Mariana Ximenes e Otávio Müller em cena de “O Gorila”

Qual é a dimensão mais política dos seus filmes? Seria uma herança da sua origem brasiliense? O que de Brasília existe em seus filmes, entre eles “O Gorila”?

BELMONTE: O conceito político é muito amplo. Eu imagino a política como algo que se deve fazer na intimidade, em uma postura mais humanista, de dialogo com os amigos, com a família, no trabalho, nos encontro com as pessoas para transformar e ser transformado no sentido de fazer o bem comum. É algo muito trabalhoso mas que deve ser feito sempre. Em Brasília, a gente convive com a política noutra acepção da palavra. Lá, é no sentido do jogo de interesses e disputas territoriais. Nisso, Brasília não me influenciou. O que me influenciou foi a ideia de buscar novos paradigmas – algo que a construção da cidade buscou -, de tentar sair da escala monumental para a gregária. É chegar a uma visão permanente do horizonte, que mistura tudo de forma que nosso olhar não seja compartimentado, mas vasto. Nesse sentido, Brasília está sempre em mim. A gente sai da cidade, mas a cidade não sai da gente. Há um documentário que fiz, chamado “Mobília em casa, Moveis Coloniais de Acaju e a cidade”, que explica muito isso.

Qual é a marca autoral que caracteriza o seu cinema?

BELMONTE: Pra mim, é muito difícil ser exegeta da própria obra. Há questões humanas que me interessam. A questão da solidão, do entendimento e percepção da realidade, de se achar pelo outro, as dimensões sobrenaturais da vida, as questões espirituais versus as questões do corpo, enfim… Mas não saberia definir meu cinema, mesmo porque, tanto eu quanto o cinema vivemos em movimento. Hoje, o que posso dizer é que estou muito encantado em ser um contador de histórias.