Desajustados

Transcendência de estereótipos

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05 de maio de 2016

“Desajustados” (“Virgin Mountains” no título internacional ou “Fúsi” no original), de Dagur Kári, é mais um excelente exemplar da cinematografia islandesa, além dos já exibidos na Mostra de São Paulo 2015, “Pardais” e “A Ovelha Negra”, sendo este último o selecionado do país para representá-lo no Oscar 2016. Talvez o mais modesto dos três filmes islandeses multipremiados nas temporadas recentes, porém ainda assim digno de nota.

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Com uma história delicada em meio a tabus cascudos, segue a vida pacata de um homem obeso e sem perspectivas (o carismático Gunnar Jónsson) que, em contraste com o corpanzil e modos rústicos, possui a mente quase de uma criança, com a mesma inocência e pureza (daí vem o título do filme em inglês, “Montanhas Virgens” se traduzido ao pé da letra, enquanto que o original ‘Fúsi’ é um apelido advindo de sua coleção de brinquedos de guerra). Ele sofre de bullying no trabalho e até em família, como se fosse um perdedor. Até que ele se apaixona por uma igualmente desesperançada mulher, a partir de aulas de dança onde fazem uma dupla, não pelas mesmas deficiências de maturidade emocional, e sim porque ela própria se sente uma fracassada.

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Em meio à paisagem homogênea e opressora toda de branco da neve que a tudo cobre quase de forma anestesiada e genérica, sem permitir distinções, ambos protagonistas, tidos como párias, ajudam um ao outro a se reerguer da ataraxia aleijadora da sociedade. E, apenas para demonstrar não ficar no clichê, os preconceitos da sociedade ainda vão atrás de ambos, e a relação por si só talvez não seja o bastante para o personagem se realizar e transcender os estereótipos. Um filme delicado e emotivo sem ser piegas, em contraste com a região gelada onde se passa a história e as pessoas frias ao seu redor.

Mostra de São Paulo 2015

Islândia, 2015. 100 min.

De Dagur Kári

Com Gunnar Jónsson, Ilmur Kristjánsdóttir

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3