De Longe Te Observo (Desde Allá)

Alfredo Castro competindo consigo mesmo pelo papel mais controverso do ano, entre os maravilhosos "O Clube" e "Desde Allá"

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01 de agosto de 2016

O ótimo ator Alfredo Castro este ano parece estar querendo competir consigo mesmo pelo papel mais controverso do ano. Já havia desbravado com um dos melhores filmes de 2015, “O Clube”, a persona de um padre pedófilo. Agora, com “De Longe Te Observo” (no original “Desde Alla”), o ator se desafia mais uma vez, acompanhado de uma excelente estrutura narrativa e técnicas de filmagem da revelação Lorenzo Vigas em seu longa de estreia, produzido pelo toque de midas veterano Guillermo Arriaga.  Vigas, por sua vez, conseguiu um feito difícil para longas de estreia, abocanhando o prêmio máximo do Leão de Ouro no último Festival de Veneza. Complexo e moralmente instigante, já começa por uma história pouco usual, algo que cruza entre o clássico “Morte em Veneza” de Visconti e “A Lei do Desejo” de Almodóvar (deste último, por sinal, referencia quase quadro a quadro o início).

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Há de se avisar que apesar da semelhança com a palavra ‘Alá’, o filme não tem nada a ver com islamismo, e sim com “From Afar” no título em inglês, ou seja, ‘Vindo de Longe’, traduzido livremente. A história segue um profissional bem de vida que faz próteses de dentes e costuma pagar rapazes na rua para se despirem para ele em casa a fim de obter prazer se masturbando, sem tocar neles. Esta indefinição sexual, que não consegue sequer se definir como homossexual, vai sendo explicada de acordo com um trauma pessoal que volta à tona. Enquanto isso, um dos últimos rapazes que tentou pagar e lhe passou a perna, agredindo-o e roubando-lhe o dinheiro, revela-se chefe de uma pequena gangue de crimes menores, sem chances na vida; mãe negligente e pai preso. Obcecado com o rapaz, o protagonista começa a procurá-lo e oferecer mais dinheiro, sem nenhum envolvimento sexual, até que ambos estejam completamente presos e dependentes um do outro. É como se fossem três síndromes de Estocolmo, uma dentro da outra num círculo vicioso. A original, que fez o protagonista se tornar assim; a do protagonista com o jovem criminoso, e a do jovem em retorno com o protagonista. Começa a parecer que um deles só poderá se libertar se um desses vértices da corrente arrebentar.

E é assim que se desenvolve um filme prodigioso em imagem e linguagem cinematográfica para mostrar o assunto muito mais do que falar sobre ele. Com uma superposição de contraplanos fora do foco, sempre guiados por um ponto focado, primeiramente o do protagonista, depois o do jovem, e depois alternando entre eles, é como se o diretor apenas quisesse mostrar o que os dois personagens vêem, dentro da lógica distorcida deles, e nada mais ao redor existisse a não ser isso. Além disso, os contraplanos continuam na história também, como a relação difícil dos protagonistas com seus pais, bem como a especialidade de ambos, onde um faz próteses e o outro conserta carros, ambos como ferramentas de se viver melhor. A um falta poder físico, da aparência de imortalidade juvenil, e ao outro o poder financeiro, da estabilidade que só a experiência da idade pode ter. A constante oposição de planos. Apesar de não concordar com algumas conclusões dadas aos personagens, até porque para se tornar minimamente coerente o espectador tem de aceitar mergulhar na proposta desde o princípio sem julgamento de pudores, há de se compreender as escolhas tanto do realizador quanto dos personagens. Decerto gerará muitos debates na Mostra de SP e no circuito aberto quando estrear, especialmente o final deveras desafiador.

39ª Mostra de SP 2015 – Novos Diretores

Venezuela, 2015. 93 min

De Lorenzo Vigas

Com: Alfredo Castro, Luis Silva, Jericó Montilla


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