Deserto

Assumidamente controverso, esteticamente avassalador

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09 de setembro de 2017

Numa visita ao Brasil em 2016 para uma aula magna em Mostra de Cinema para o CCBB, a diretora venezuelana Mariana Rondón pôde contar um pouco mais sobre como foi complexa a recepção para seu filme “Pelo Malo” na terra natal, pois a história que versa sobre os preconceitos nativos de etnia e classe não foi fácil de ser encarada como espelho do próprio público na telona. Ninguém gosta de ver suas feridas escancaradas, mas às vezes se é necessário, como comprova o sucesso internacional do longa-metragem. A maior preocupação, claro, é que se trabalhe estes temas com responsabilidade e identificação.

Enquanto a obra de Mariana faz o protagonista ser vítima do preconceito nativo, a estreia na direção/roteiro de um longa-metragem pelo ator Guilherme Weber com o provocativo filme “Deserto” faz seus personagens serem os perpetradores, e a plateia a julgadora. Julgamento mordaz, por sinal, porque o elenco coral, onde todos são protagonistas, é tão imoral quanto repreensível a cada reviravolta, seguindo a história de uma trupe teatral itinerante que, após várias cidades falidas, quase sem público para lhes assistir, acaba parando num vilarejo abandonado no qual decide construir sua própria morada. Weber parece ter se inspirado para esta ideia na teoria filosófica ‘contratualista’ de nomes como Rousseau e Hobbes, onde a sociedade na teoria era feita de selvagens até que se estabelecesse um contrato fictício e tácito entre os cidadãos, abrindo concessões de seus direitos para aceitar uma hierarquia de governança e obediência às regras. Apesar de parecer complexo, o filme exprime bem a conversão disso em dramaturgia cênica, como outrora o maior representante literário desta teoria já adaptado para o cinema o fez, “O Senhor das Moscas”, onde um navio naufragava e nenhum adulto sobrevivia, apenas os jovens estudantes que naturalmente se viam obrigados a formar núcleos de administração e poder social num ilha deserta. Já o filme “Deserto” recebe ajuda de dois pilares fundamentais para alcançar sua catarse: a estética e a atuação.

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A partir desta premissa, o autor se utiliza de uma plasticidade impecável e de humor negro para facilitar a conexão cabal obrigatória a gerar catarse, além de criar pequenas redenções em meio à espiral autodestruidora que recairá sobre quase todos. Uma destas redenções é uma personagem como um todo, ironicamente nomeada de Alma, brilhante atuação mutante de Magali Biff que faz sua interpretação dar mais um passo evolutivo adiante para além da dicotomia teatro-cinema brasileiro, numa caracterização exótica de pele alva e sem cabelo nem pelo algum – além de um vestido bufo simplesmente impressionante, parte do incrível figurino do filme. Sua personagem passeia por todos os espectros das mudanças coletivas como uma serpente felina, com uma doce inocência corrompida (ou não) pelos demais. Ela é a que passa por mais dificuldade de se encaixar nos papéis pré-determinados com os quais o grupo sorteia cada uma das novas ocupações que terão na sociedade recém-constituída. Sua atuação é desde já a maior candidata ao prêmio de atriz coadjuvante no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2018.

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Quanto à plasticidade, um primor pictórico irretocável, com embasbacante direção de arte e iluminação calcadas nos quadros de Caravaggio, Goya e Vermeer, os quais usavam a (ausência de) luz com maestria para criar uma crítica a partir de seus personagens sob sombras sociais de classes, à época pela religião ou pela contraposição entre burguesia, nobreza e vassalagem. Agora, Guilherme Weber atualiza os arquétipos sociais postos em foco para a história de preconceitos brasileiros, dentre os muitos a misoginia, o racismo, a homofobia e até discriminação a anões, fazendo a trupe teatral, sem público para o qual atuar, interpretar novos papéis para si mesmos. Novas categorias para um velho epicentro, como o militar, a cozinheira, o médico, a puta e…o negro! Sim, eis praticamente o elemento mais assumidamente controverso e polêmico levantado pelo diretor, especialmente porque não há qualquer negro no elenco, que será representado criticamente por um branco, para fazê-lo sentir na pele o que o Brasil já impôs ante a segregação racial. Um baita desafio, que obviamente irá atrair reações opostas, tanto dos que aceitarão a provocação quanto os que a rejeitarão e poderão crer que tamanha ferida jamais poderia ser trabalhada num filme de apenas 90 minutos com outros temas concorrentes.

Guilherme poderia com isso, sem querer, aprisionar os personagens à polêmica de estereótipos per si, como se resumissem a isto. Todavia, seus intérpretes agarram suas personas metafóricas com tamanho afinco e entrega que conseguem transcender as prisões morais com que poderiam se encurralar, por parte de absolutamente todos, como Lima Duarte, Everaldo Pontes, Cida Moreira, Marcio Rosário e a já citada coqueluche cênica transcendental de Magali Biff, provavelmente pela sensibilidade da experiência como ator do próprio diretor — ainda mais realçado pelo trabalho de duplas de alguns deles, como Cida Moreira com Magali e Everaldo com Marcio etc. É delicado apenas neste tempo presente que tanto se luta por representatividade atrás das câmeras, para além unicamente de representações que reflitam a sociedade de forma mais paritária na frente da objetiva, que nenhum ator em cena seja de origem negra, mesmo que ele ficasse com uma designação branca, enquanto um ator branco ficasse com a designação negra. De outra forma, parece que se esvazia um pouco o lugar de fala.

Mas a posição do presente crítico é a de que debates sempre são úteis e bem-vindos para atrair público e reflexão, enriquecendo o princípio do contraditório muito necessário na dialética do cinema que acompanhe os tempos homogenizantes de massificação unidimensional das mídias. Até para lutar contra a inconcebível resistência ainda existente das plateias em ver seus próprios filmes nacionais, com exceção de comédias Globo Filmes de marketing e superprodução em sua maioria mais rasa e de fácil entretenimento. Caso contrário, como a arte poderá crescer com e para a força de seu próprio povo, além de apenas ficar bonita na tela? Que muitos e muitos mais assistam antes de poder elogiar ou contra-argumentar.

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Originalmente publicado durante a 40ª Mostra de São Paulo em 2016

Deserto (idem)

Brasil, 2016. 90 min

De Guilherme Weber

Com Lima Duarte, Magali Biff, Everaldo Pontes, Cida Moreira, Marcio Rosário