Desobediência

Primeiro filme de língua inglesa de Sebastián Lelio aborda mais uma vez o universo LGBTQ+ com muito respeito e delicadeza, além de envolver religião e seus tabus

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23 de junho de 2018

Adaptação do romance homônimo de Naomi Alderman, “Desobediência” é a primeira incursão do chileno Sebastián Lelio no cinema de língua inglesa com elenco hollywoodiano. Acostumado a retratar temas delicados do universo feminino de alguma forma marginalizado, como em “Gloria” (2013) e no vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro “Uma Mulher Fantástica” (2017), dessa vez Lelio apresenta um romance lésbico que se choca com as tradições judaico-ortodoxas, levantando diversas questões que envolvem religião, sexualidade, tabus e liberdade de escolha. Na trama, Ronit (Rachel Weisz) é uma fotógrafa que mora em Nova York e decide retornar para sua cidade natal após saber da morte de seu pai, um respeitado rabino da comunidade judaica ortodoxa londrina. Ao chegar, descobre que seu primo Dovid (Alessandro Nivola) está casado com sua amiga de infância Esti (Rachel McAdams), com quem já viveu uma paixão proibida na juventude que logo reacende e gera controvérsias.

Coautor do roteiro com Rebecca Lenkiewicz (roteirista de “Ida”), Lelio conduz o longa com muita delicadeza e respeito sob uma fotografia fria e cinzenta, como a cidade de Londres. Embora a homossexualidade das protagonistas seja o ponto de partida, “Disobedience” (no original) abre espaço para discussões acerca da fé e do papel das tradições no mundo moderno, do livre-arbítrio e de poder ser quem você é sem precisar se esconder atrás de uma máscara social. Com ambientes claustrofóbicos preenchidos com energia pesada, Lelio consegue transmitir toda a angústia e tensão sentidas tanto pelo triângulo amoroso principal quanto pelos membros da comunidade judaica, que não esconderam seu grande desconforto com o retorno de Ronit, que fugiu para Nova York sem dar sinais de vida anos antes. Passado e presente se confrontam com este retorno e com a paixão latente entre Ronit e Esti, que culminam na desobediência do título às tradições ortodoxas locais.

Não espere aqui uma nova versão de “Azul é a Cor Mais Quente”, pois o sexo é apenas uma pequena parte deste enredo focado num relacionamento lésbico, onde é utilizado sem que haja hipersexualização feminina de uma maneira bem mais realista e até um pouco contida, como os desejos de Ronit e Esti. A atuação e a química entre Rachel Weisz e Rachel McAdams são excelentes, e Alessandro Nivola completa o trio com muita competência. Com diálogos precisos e olhares e ações que dizem muito mais do que palavras, Lelio tem pleno domínio cinematográfico em “Desobediência”, pecando apenas no ritmo narrativo, que fica cada vez mais lento, tornando o terceiro ato bastante cansativo. Assim como em seu longa anterior, “Uma Mulher Fantástica”, Lelio não escolhe um desfecho óbvio e clichê, mas um que talvez desagrade o espectador que aprecia um fim mais definido. Pela terceira vez seguida, Lelio mostra a transgressão de assumir quem você é de verdade num mundo de constantes opressões e castrações, e este é o maior mérito do filme.

 

 

Desobediência (Disobedience)

EUA – 2017. 114 minutos.

Direção: Sebastián Lelio

Com: Rachel Weisz, Rachel McAdams e Alessandro Nivola.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4