Detroit em Rebelião

Raízes do racismo na América

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07 de outubro de 2017

Festival do Rio 2017 – “Detroit em Rebelião” de Kathryn Bigelow

Que pancada é “Detroit em Rebelião” de Kathryn Bigelow. De passar mal na sala de cinema. Quase saí duas vezes, quase vomitei, tamanho o mal estar. Cheguei a me perguntar por que tamanha tortura sem necessariamente explicar a subjetividade de quem estava sendo massacrado na tela. Até o ponto em que você se pergunta o quanto mais você aguenta. Não saí da sala de cinema porque: 1° não acredito em sair de um filme inacabado sen tudo o que ele tem a me dizer. 2° porque sou um crítico, é meu trabalho ficar até o final e procurar entender as razões da obra. 3° porque você enfim compreende: você acabou de ser silenciado assim como as vítimas na tela, que infelizmente tornaram-se vítimas para a história quando os créditos finais lhe revelam o destino dessa história verídica sobre a Rebelião de Detroit em 1967… E talvez se não fosse por este filme, independente de quaisquer erros ou acertos apenas humanos em se cometê-los, esta definitivamente era uma denúncia que precisava ser feita e jamais silenciada novamente. Não apenas neste filme, mas em inúmeros, tantos quantos fizessem, melhores ou não, porque esses trágicos acontecimentos continuam a acontecer HOJE!

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Sim. Quem dirigiu o filme é uma mulher experiente e que cada vez mais se especializa em temas espinhosos, evadindo das aventuras mais escapistas do início de sua carreira (“Caçadores de Emoção”), porém não menos vertiginosas em manipular a tensão até a última gota. Já havia dado socos no estômago da América belicista pós Bush-filho com “Guerra ao Terror” e “A Hora Mais Escura”, que denunciavam o vazio das guerras vaidosas travadas por Quixotes republicanos, e a hipocrisia em pintar um vilão único em Osama Bin Laden para todos os males, em que na verdade os próprios EUA tinham sua parcela de culpa. E não se enganem, o grande vilão do filme são os EUA na sua base mais intitucional histórica e segregacionista…o mesmo país que financiou o filme. Um filme realizado durante a Era Obama e recepcionado na Era Trump. E isto diz muita coisa sobre a obra.

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A história se passa em 1967 em Detroit, conforme uma pequena introdução em desenho animado nos relata como a desigualdade de classe e geografia imobiliária de oferta de trabalhos foi desenhando as tensões raciais, até que estas culminariam na opressão intolerável que desembocou na histórica Rebelião. Porém o fio condutor não será este, e sim uma claustrofóbica situação, resultante desta ambientação preparada nos vinte minutos iniciais, onde personagens negros e brancos se verão reféns de uma escruciante tortura policial ilegal e injusta.

A câmera nervosa da fotografia de Barry Ackroyd é quase sempre claustrofóbica, de modo a criar um clímax constante que parece durar o filme praticamente inteiro. Nas poucas cenas em que ela se afasta, cria novos modos de segurar os suspense, seja pela invasão de sons e explosões no campo externo fora da tela, seja por uso de plongés e zenital para criar um olhar opressor. Um excelente exemplo de um ângulo aberto que ainda assim não deixa de ser opressor é o uso de drone para filmar de cima um comício de um dos poucos políticos negros que ainda tenta falar pelo povo e que está em cima de um carro munido de megafone na mão. Ele grita para centenas de pessoas ao redor do carro como uma horda insatisfeita, pelas quatro ruas que formam a encruzilhada onde o carro se encontra. Tudo visto de cima em um belíssimo ângulo em noventa graus do solo.

Mas a sensação de horda não é apenas usada para a camada da população que está confusa, e sim para os policiais e militares também, de forma ainda mais opressora, pois quando eles aparecem costumam ser uma massa indistinta entre fumaça e clarões de bombas. Os dois lados são conduzidos pelo calor do momento com as ondas da inevitabilidade. A princípio, inclusive, este incômodo até parece uma abordagem equivocada por parte de Kathryn e do roteiro de seu parceiro de trabalho Mark Boal, ambos brancos e distantes do seu lugar de fala, porém aos poucos vai se compreendendo. Como a animação do início já havia explicado a historicidade que ambienta e pede passagem para a arte entrar, os personagens a princípio não são individualizados como poderiam ser para criar um estado de caos total. Os únicos personagens negros que se individualizam em closes são aqueles que estão do lado da polícia contra seus irmãos e vizinhos, com raras exceções (como Tyler James Williams que se notabilizou com a série “Everybody Hates Chris”), em oposição aos policiais que ganham quase todo o tempo de câmera a princípio.

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Mas depois do primeiro ato, tudo muda. A história é zerada de novo. Novos personagens de repente são introduzidos, com um novo ritmo, cenários e coadjuvantes próprios. Aí sim começa de verdade a espinha dorsal do filme. O grupo de jovens que ficará preso num hotel, sendo torturado pelas autoridades sob falsas acusações. Estes personagens irão sofrer sem igual, sem resposta, sem alívio, sem pressa… E a vida fará com que venham a sofrer ainda mais pelas instituições externas ao caso específico. Talvez este caso em particular, como devem ter existido tantos outros silenciados, só tenha vindo à tona preservado na memória porque um dos jovens envolvidos era um dos principais membros do grupo musical The Dramatics da  gravadora Motown. Talvez se não houvesse um nome mais notabilizado em um período precário de conquistas civis, o imaginário da população continuasse reduzindo os eventos de 1967 a um distanciamento seguro do que assistiram na TV, ao invés de talvez dezenas ou centenas de casos como este do filme que se repetem até hoje.

Para além dos mecanismos cinematográficos que nos conduzem tão sedutoramente pelo enredo do filme com seus efeitos sonoros, trilha musical, figurino e iluminação de época, talvez um único pequeno porém nisto tudo seja uma vilanização tangenciando a psicopatia, pois os antagonistas parecem ter transtornos não apenas sociais, como psicológicos, quando sabemos que qualquer um é passível de racismo. Atrelar à psicopatia é reducionismo e manipulação histórica, apesar de que sim, muitas pessoas comuns, provavelmente com distúrbios pré-existentes, quando ganham uma farda de fato devem soltar suas patologias. Mas nem todo policial que comete crimes contra o cidadão necessariamente o faz por ter problemas mentais. Pessoas comuns são capazes de coisas tão atrozes quanto. Por isso que é útil o personagem da Guarda Nacional ou o segurança de empresa privada interpretado até com inesperado carisma por John Boyega, pois ambos estão ali para provar que pessoas boas podem fechar os olhos para coisas ruins e serem tão culpados quanto.

Por isso, até quase o finalzinho da projeção eu ainda estava me perguntando onde estaria a subjetividade das vítimas em meio a tamanho massacre físico e moral, todavia, quando sobem as revelações dos créditos finais, a gente finalmente entende o tamanho da denúncia e os porquês de demonstrar como as vítimas foram silenciadas tão violentamente. Choca demais (como na cena do tribunal, que consegue continuar o clímax de tortura mesmo sem nenhuma agressão física). E finalmente entendemos que a diretora não ter aberto nenhuma concessão ou alívio foi para ampliar a mesma sensação de impotência dos espectadores em relação às injustiças do sistema, denunciadas na tela, e que sobrevivem até hoje, infelizmente. Porrada no estômago, mas necessária, porque silencia quem está na tela, já que remete aos estarrecedores fatos reais, e quem está na plateia, em choque.