Diesel aditivado na ‘Tela Quente’

A mais popular sessão de cinema da TV aberta, desde 1988, abre sua programação para 'Velozes & Furiosos', de carina no prestígio popular do astro de 'Bloodshot'

por

04 de maio de 2020

Vin Diesel 7 Fast & Furious 7

RODRIGO FONSECA
Tem Mark Sinclair Vincent (aka Vin Diesel) na Tela Quente desta segunda-feira, 4 de maio, dando uma injeção da adrenalina nas veias da 40ena, como resistência à Covid-19, com uma sessão nobre (muito bem dublada) do febril Velozes & Furiosos 8, num momento em que seu astro foi duplamente atropelado pelo Coronavírus. Ele teve que remarcar a estreia do novo episódio da série F&V para 1º de abril de 2021, adiando seu lançamento em quase um ano. E isso aconteceu em meio à frustração com a carreira de um trabalho primoroso dele, nas franjas das histórias em quadrinhos, que prometia ser um dos sucessos do ano: o thriller Bloodshot. Este teve sua carreira abortada, em função da realização da quarentena, com o fechamento dos cinemas. Este longa acaba de ser disponibilizado nas plataformas digitais: Apple Store | iTunes, Google Play, Looke, Microsoft Filmes e TV (Xbox), NOW, Oi Play, PlayStation Store, SKY Play e Vivo Play. Mas a boa do die e deste início de semana é a oportunidade de uma dose aditivada de Diesel na telinha.

7 sete Vin Diesel 7 Fast & Furious 7 sete 
Subproduto não assumido de Caçadores de Emoção (1991), a motorizada série de longas-metragens Velozes & Furiosos viveu altos e baixos estéticos desde que saiu da garagem, em 2001, alternando equívocos monumentais (as partes 3 e 5), capítulos chochos (o 2 e o 7) e pérolas (caso dos tomos 4 e 6), sem jamais esmorecer em termos de arrecadação. Somadas, as sete aventuras de Dominic Toretto – ladrão de carros, ás do volante e dublê de agente secreto vivido (cada vez melhor) por Vin Diesel – tiveram uma receita estimada em US$ 3,8 bilhões, coisa que muito Harry Potter ou herói Marvel sua o uniforme para fazer. Nem a morte do coprotagonista Paul Walker, vítima de um desastre rodoviário em 2013, fez descarrilhar a mais rentável grife do cinema de ação destes tempos no qual a medievalização de costumes resultante do politicamente correto fragilizou o gênero. Entra ano, sai ano, a franquia volta azeitada, alcançando seu ápice no oitavo volume, The Fate of the Furious, que estreou no dia 13 de abril de 2017, sob uma direção inspirada de uma das maiores promessas (comerciais e artísticas) entre os cineastas revelados na década de 1990: F(elix) Gary Gray.

São dele as frenéticas tomadas de perseguição e sequências de luta um vigor plástico que não se via desde os últimos bons filmes de Steven Seagal (tipo A Força em Alerta). Muita adrenalina banha uma trama pouco verossímil, divertida e descaradamente mentirosa, na qual Toretto é obrigado a trair seus pares mais fiéis – a namorada Letty, vivida por Michelle Rodriguez; o boquirroto Roman, encarnado por Tyrese Gibson com humor a mil; e o braço mais musculoso do FBI, Hobbs, papel dado a Dwayne “The Rock” Johnson. A traição se deve a uma armação da cyberterrorista Cipher, vivida por uma caricata Charlize Theron, com caras, bocas e olhares vítreos, que não chega a prejudicar a ignição do enredo, que vai de Cuba (numa erótica sequência de abertura) à Rússia, passando por Berlim e Nova York, com direito a um submarino de guerra e uma ponta de Helen Mirren sobre a qual pouco se deve falar. No Brasil, a dublagem de Charlize, feita pela sempre genial Mônica Rossi, disfarça um pouco a frágil interpretação da estrela sul-africana (habitualmente surpreendente) nesta narrativa.

Revelado com o incorretíssimo Sexta-Feira em Apuros (1995) e promovido ao escalão dos nomes em quem Hollywood pode apostar de olhos fechados após o sucesso de O Negociador (1998), Gray é especialista em subverter padrões éticos, investindo em heróis nas margens do delito, sempre valorizando personagens negros que fujam dos arquétipos raciais mais castradores. De todos os realizadores que conduziram Velozes & Furiosos, ele foi o que melhor sobre expandir (e tornear) a curva dramática de perfil dos protagonistas, delineando as angústias afetivas de Toretto. E ainda colabora para repaginar a dimensão chanchadesca da franquia, investindo no humor com fartura, mas sem envergar o roteiro para o plano da comédia. Com a derrocada de selos de popularidade como Duro de Matar, ele faz Toretto (com o carisma de Diesel) a um posto de vigilantes de ambientes cômicos que antes pertencia a Bruce Willis e a Schwarzenegger.

Dos titãs da Ação do passado, só Sylvester Stallone conseguiu se segurar (e evoluir), vide os três filmes Os Mercenários (2010-2014). Mas Sly deixou um herdeiro: Jason Statham, que volta aqui ao trono de ferrebrás nº1 das telas no papel do terrorista arrependido Deckard. Tem mais dois Velozes para vir. Que Statham esteja nos dois. E que o padrão de engenharia de som – em alta aqui – perdure… Vale destacar a versão brasileira dos Velozes e dos Furiosos. Neste oitavo tomo, Jorge Lucas confirma seu talento dublando Diesel e o sempre brilhante Armando Tiraboschi dá voz a Jason.

Sobre Bloodshot, que abriu este papo, vale um adendo:
Expert em efeitos visuais, com games de Star Wars em seu currículo, o estreante em longas-metragens Dave Wilson faz a mistura de tudo e mais pouco (Amnésia, RoboCop, Vingador do Futuro) chamada Bloodshot se azeitar de maneira surpreendente na tela. E o faz apoiado numa montagem vertiginosa e aliado a uma composição de arquétipos que recicla clichês, inclusive os de seu protagonista. Vin Diesel é, em geral, uma droga pesada no terreno entorpecente do cinema escapista. Mas, aqui, na pele do super-herói lançado pela editora Valiant, em 1992, sua química veio ainda mais refinada, uma vez que seu ferramental dramático vem se afiando a cada novo episódio da franquia “Velozes e Furiosos”.