Dilili em Paris

O cineasta francês Michel Ocelot faz duras críticas ao mundo atual em sua nova animação, que talvez seja a mais importante de sua filmografia até hoje

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14 de fevereiro de 2020

Em tempos do movimento Oscar So White, em que a cerimônia de 2020 só teve uma pessoa negra entre todas as indicadas, e do discurso de Joaquin Phoenix no Bafta criticando essa ausência persistente em prêmios, o cineasta francês Michel Ocelot vai contra a maré desde o início de sua carreira: todas as suas animações, como a Trilogia de “Kiriku”, “As Aventuras de Azur e Asmar” e “Contos da Noite”, têm protagonistas negros, celebram a cultura africana e trazem mensagens importantes para todas as idades. “Dilili em Paris” não poderia ser diferente e, dessa vez, Ocelot trouxe uma mulher como protagonista – a menina de origem Kanak (povos indígenas da Nova Caledônia e outras ilhas do sudoeste do Pacífico) Dilili.

Com a ajuda de seu amigo Orel (Enzo Ratsito), um entregador, e da famosa cantora de ópera Emma Calvé (Natalie Dessay), Dilili (Prunelle Charles-Ambron) investiga uma série de sequestros misteriosos a jovens garotas que está devastando a Paris da Belle Époque. Enquanto procura pistas, ela é apresentada a diversos artistas e personalidades e encontra diversos personagens suspeitos, cada um deles com pistas que vão ajudar na sua busca. Entre as personalidades que Dilili conhece, estão Toulouse-Lautrec, Picasso, Camille Claudel, Renoir, Modigliani, Sarah Bernhardt, Debussy, Degas, Monet, Eiffel, Rodin, Marie Curie, Príncipe de Galles e até o brasileiro Santos Dumont, que ajuda na conclusão do caso e ainda fala três expressões em português.

Através de seus traços característicos, Ocelot mais uma vez critica o racismo, relacionando-o, inclusive, ao colorismo, e também faz duras críticas ao machismo e à misoginia, além de exaltar a sororidade e explicar sobre privilégio em “Dilili à Paris” (no original). Com muitas cores e detalhes, o cineasta revive lindamente a Belle Époque parisiense enquanto passa ensinamentos necessários a crianças a partir de 10 anos (classificação etária), adolescentes e também a muitos adultos que ainda não os aprenderam de forma ora lúdica, ora bastante clara e direta. Em tempos obscuros de retrocesso, “Dilili em Paris” é uma animação que traz um pouco de luz ao mundo e que merecia ter ampla divulgação e maior espaço nas salas de cinema, além de ser exibida em escolas. É uma pena que Michel Ocelot seja um cineasta tão pouco conhecido aqui no Brasil, pois ele tem sempre muito a dizer e nesse filme ele grita mais do que nunca.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 5