Direto do México, uma crônica sobre a Morte congela o clima ensolarado da Croisette

Numa narrativa cerebral, 'Chronic', penúltimo longa-metragem em concurso pela Palma de Ouro, mostra a evolução narrativa de Michel Franco, cineasta mexicano encarado como cria da Croisette

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22 de maio de 2015

Chronic de Michel-Franco

CANNES – Dirigido pelo mexicano Michel Franco, “Chronic”, exibido nesta sexta-feira no 68° Festival de Cannes, é único longa-metragem em concurso pela Palma de Ouro de 2015 cuja realização tem sangue latino-americano. Estrelada por Tim Roth, a produção pilotada por Franco é de uma frieza cadavérica, o que não abafa sua excelência no cumprimento de sua proposta estética: fazer uma narrativa descritiva, quase como um documentário de cinema direto, mas com atores. Tudo gira em torno da rotina de um enfermeiro, David (Roth, na medida de sua eficácia habitual), cujo dia a dia é acompanhar o tratamento de doentes em suas casas. Sua vida privada é reservada, resumida a um ritual diário de exercícios físicos na academia e idas a bares. E, a cada encontro com estranhos, ele conta histórias distintas, muitas vezes tiradas do que houve de seus pacientes. Mas, no meio do caminho, uma cliente vai forçar David a sair de sua apatia.

Conhecido aqui na Croisette pelo longa “Depois de Lucia” (2012), Franco é encarado como uma espécie de cria da casa, pois saiu daqui premiado pelo filme supracitado, na seção Un Certain Regard, por um júri presidido pelo próprio Roth. Surgiu dali a parceria deles. “Choric” é, como seu título sugere, uma crônica sobre rituais diários que disfarçam a irretrocedível aproximação da Morte. Sua montagem é seu mérito maior, garantindo sua natureza descritiva, reforçada por um silêncio sepulcral. Mas, se analisado pelo DNA latino, falta-lhe o viço e a transcendência de seu conterrâneo “Las elegidas”, David Pablos, talvez o longa mais arejado da mostra Um Certo Olhar de Cannes deste ano, centrado nos esforços de um rapaz para encontrar uma mulher disposta a substituir sua amada num trabalho nada confortável: o ofício de prostituta.

Falta agora apenas um longa para fechar o circuito competitivo de Cannes deste ano: “Macbeth”, de Justin Kurzel. Os ganhadores serão conhecidos no domingo, mas os favoritos à Palma até agora são: “Saul’s son”, de László Nemes, “Mia madre”, de Nanni Moretti, e “Youth”, de Paolo Sorrentino.