Divinas Divas

Consagração 'lacradora'

por

21 de janeiro de 2017

Glossário:

Lacracatório: arrasador
Montação: vestir toda a indumentária artística
Causar: deixar uma marca
Bafônico: chocante

Com extrema sensibilidade artística que apenas uma versátil atriz e administradora do teatro de sua família poderia ter, Leandra Leal era a pessoa certa para não apenas conceber como para dirigir a equipe que dá alma a este registro.
Uma sensível homenagem LGBTS, mas também universal, a todas as representatividades que já sofreram discriminação, com um olhar carinhoso e corajoso perante a trupe artística das divas que planeja um grande retorno na remontagem do espetáculo de décadas atrás cunhado Divinas Divas no Teatro Rival, da época de plena Ditadura, quando o mero ato de existirem homens que se fantasiavam de mulher já era de subverção e resistência. Independente daqueles que tomaram a difícil decisão da bomba hormonal com a mudança de sexo, ou que apenas transitam entre os gêneros e preferem se manter cisgêneros, Leandra segura bem o riscado em apresentá-los como são, compreendendo a todos para além da indumentária de montação. Como é mostrado de forma lacradora já nos créditos iniciais com fotos antigas de todas as divas vestidas de homens no passado, sendo aos poucos maquiadas e transformadas como numa tela de quadro,o que aproxima o espectador leigo a desafia suas noções pré-concebidas de que aquilo é só mais uma forma de arte por excelência. Afinal, até Shakespeare e o Teatro Kabuki no Japão usavam homens travestidos para interpretarem as personagens femininas, porque na época era legalmente proibido a mulher atuar.

Mas para além de suas vidas nos palcos, o mergulho na repercussão da arte nas vidas dos artistas necessitava de mais linguagem cinematográfica, e Leandra se vê com duas opções fundamentais da tradição documental a seguir: ou a mais usada, com depoimentos diretos para deixá-los contar suas histórias pessoalmente, ou juntar imagens de arquivo com performance poética para exprimir os significados de forma mais sensorial, através de seus símbolos. Eis que a atriz, agora diretora com grande potencial, decide fundir as duas técnicas, e usar da confiança que lhe depositaram para se excluir da figura presencial, o que poderia comprometer certos questionamentos, mas mantendo ainda um pouco de si necessário com narração em off, e refletida no olhar de respeito com que as documentadas abrem suas vidas.
Algumas decisões muito acertadas se seguem, como não usar de uma ordem cronológica a princípio, e sim mais capitular, para que o público sinta primeiro, antes de precisar entender. E a direção de fotografia de David Pacheco capta alguns dos depoimentos de forma metafórica, como com rostos através de cortinas ou à frente do espelho se maquiando do zero para exprimir as diferentes faces de identidade ante as camadas sobrepostas de expectativas sociais.
A partir de certo momento, mesmo que o tempo da projeção se torne um pouco comprido, a narrativa acaba tendo de adotar um ritmo um pouco menos dialético e mais extensivo, apresentando cada diva individualmente, para não ser injusto com a contribuição de todas, em momentos hilários e simultaneamente emocionantes, que tendem a levar a aplausos e lágrimas com frases bafônicas. Não só causando nos palcos com transgressões que avançaram a luta por direitos iguais na sociedade, como na vida pessoal, trazendo diferenças cruciais em temas como aceitação familiar, saúde, relacionamentos amorosos, realização pessoal ou até mesmo os desafios da terceira idade, na qual todas se encontram. Este último assunto acaba se tornando uma bela declaração de amor à velhice também, pois muitas estão mais produtivas do que nunca, não obstante o preconceito e discriminação terem crescido exponencialmente na nova crise política do país, demonstrando a força e o timing indispensáveis deste documento histórico de perseverança para as novas gerações.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5