Divinas

Excelente dica para ver no Netflix: Ascensão de uma 'Poderosa Chefona'

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20 de março de 2017

“Divinas” de Houda Benyamina (estreou no Brasil direto no Netflix) foi laureado na premiação francesa do César com melhor filme de estreia, melhor atriz coadjuvante para Déborah Lukumuena e melhor atriz revelação para Oulaya Amamra. Este drama franco-qatariano de 2016 consegue transpor toda a mitologia do filme de máfia para um novo olhar no qual nunca antes foi permitido ao cinema protagonizar na violência e na marginalidade descolada do gângster: o da mulher chefe de tráfico. Mais do que isso, numa mistura fluida entre o lúdico e o visceral, faz o espectador acompanhar e torcer por esta nova realidade à margem da lei pelo extremo carisma com que já se torceu pelos personagens imorais e errados de um “O Poderoso Chefão” e “Os Bons Companheiros”.

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Há uma famosa cena ao final de “O Poderoso Chefão” onde, após ser a consciência do personagem de seu marido na pele de Al Pacino o filme inteiro, Diane Keaton é deixada do lado de fora da sala de reuniões quando o patriarca da família morre e o filho tem de assumir o lugar de mandante do crime, fechando a porta na cara de sua esposa. Naquela cena a consciência do personagem dele é deixada do lado de fora a partir dali. E em geral este foi o lugar destinado a personagens femininas, com raras exceções, em filmes de gênero tidos como masculinos, o de uma personagem quase sem falas ou de disputa entre os protagonistas como o de Sharon Stone em “Cassino”. Já com “Divinas”, o “ser homem” não tem importância, não como se fosse diminuído, mas simplesmente porque ele é apenas mais um na base da pirâmide, podendo ser ultrapassado e perder o cargo para uma mulher, que pode superar os concorrentes, independente de ser mulher, mas usando vantagens a seu favor justamente por ser mulher, como a sororidade e a quebra de expectativas quando lhe subestimam. Pode bater, pode apanhar, e pode se levantar e subverter as regras do que esperam dela. E parte desta empáfia natural contra o conservadorismo patriarcal se deve justamente pelo carisma extremo das três atrizes principais: a revelação total Oulaya Amamra como protagonista, Déborah Lukumuena como a melhor amiga que rouba cenas no papel da inesquecível MayMoana, e Jisca Kalvanda como a chefona poderosa da gangue com quem a protagonista vai aprender e também disputar pelo posto de chefia.

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Fazendo um trabalho de corpo sensacional, a diretora prepara seu elenco de modo a dar força muscular e comportamental aos poucos para o perfil marrento das mulheres que se adaptam e subvertem a ordem social, enquanto que suaviza e sensualiza praticamente o único corpo masculino da história, na pele de Kevin Mishel como o dançarino que tentará se aproximar da protagonista. A inversão da polaridade de comando realmente funciona, e em nenhum momento faz o espectador se questionar de onde está a tal ‘feminilidade’ das personagens que está o tempo todo lá, entre camadas que aprendem a usar seu poder. Há, inclusive, uma cena específica onde a traficante interpretada por Kalvanda ensina a personagem de Oulaya a usar o que a sociedade espera de seu corpo a seu favor, independente da necessidade de se temer uma arma acima de tudo como baliza maior de autoridade. A arma neste momento não vira incitação à violência e sim democracia de poder estar na mão de qualquer pessoa.

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O filme de fato acaba se tornando tão interessante que o espectador sente o gostinho de mais e mais desenvolvimento, quando o interesse na verdade não é o da jornada do herói e de como a protagonista pode ou não se tornar a ‘chefona’ do crime, e sim o recorte social do abandono de comunidades carentes pelas autoridades públicas que relegam seus cidadãos a se estruturar por conta própria, com microssistemas que para se autoafirmar e sobreviver precisam de uma quebra violenta da realidade que os negam. A própria diretora relatou em entrevistas que foram as revoltas populares nas ruas francesas que a inspiraram a fazer o filme, principalmente depois que comunidades carentes escancararam a carência e não atendimento do estado nas necessidades mais básicas, como saúde e segurança. Poderíamos, com isso, continuar acompanhando a incrível escalada na ascensão ao poder da protagonista, mas o corte abrupto cai bem com a proposta e intensifica ainda mais o tema crítico abordado, mesmo que ponha os maiores carismas do filme em jogo.