Cássia

“A música foi uma fuga da minha incapacidade de viver socialmente com as pessoas"

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06 de outubro de 2014

“Cássia”, documentário de Paulo Henrique Fontenelle, traz depoimentos inéditos, fotos e recortes de vida da cantora Cássia Eller, e de vários membros de sua família e amigos. De maneira inicialmente saudosista e cortês, o diretor pede licença para entrar na vida da polêmica artista quase como se retratasse uma família feliz à la fotos de facebook… Porém, é justamente quando se sente à vontade para deixar a própria Cássia tomar as rédeas da narrativa que alça outros patamares, onde suas imagens e vídeos não podem negar toda sua luz inovadora e grito revolucionário.

Exibido Hour Concours na Première Brasil do Festival do Rio e vencedor na Mostra de São Paulo 2014, há muito o que se debater como cinema apesar de aparentar um formato clássico em biografias. As fotos escolhidas foram muito bem trabalhadas num efeito tridimensional de cores desde P&B a sépia para ressaltar efeitos ou momentos nos acontecimentos retratados, efeitos estes excelentes. Porém, por outro lado, os depoimentos de arquivo não são tão variados, e às vezes fotos, vídeos e mesmo músicas se repetem bastante durante a projeção, que poderia ter uma edição mais ligeira e menos sentimental, pois já há uma carga emocional muito forte ao se falar de figura tão única e transgressora que se foi tão cedo. Descrições como as do Rock in Rio 2001 em que Cássia participou e dos bastidores complicados do hoje notório Especial Acústico MTV são todas pontos altíssimos. Sem falar na própria dualidade de trabalho tanto profissional quanto afetivo de tantas pessoas como Nando Reis e o impagável comentário de Ângela Rô Rô sobre “Malandragem”, a música que lhe foi oferecida por Frejat e Cazuza, mas que deixou passar e foi parar antologicamente com Cássia.

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No entanto, talvez o maior legado que deixou realmente foi a vitória inédita na Justiça que legou à sua companheira de vida Maria Eugênia o próprio filho. E isto reflete o tipo de pessoa que ela era. Em um de seus depoimentos, Eugênia diz: No palco eu tinha a sensação que ela recebia um santo mesmo, era uma coisa doida aquilo ali! Ela se transformava no palco, não era a mesma pessoa”. Já Cássia em uma entrevista afirma: “Eu tenho vergonha das pessoas. Eu tenho medo das pessoas, medo de gente. A música foi uma fuga da minha incapacidade de viver socialmente com as pessoas”.

Só faltou mesmo explorar melhor sua extensa musicografia, apesar de tanto se elogiá-la na tela como se preparasse o público apenas para os sucessos que todos se acomodaram a ver e tentar categorizá-la para ficar mais fácil de compreendê-la, ao invés de aprofundar quando mais ela botava o dedo na ferida com sua arte.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4