Dois Dias, Uma Noite

Narrativa seca e interpretação pungente em crônica do mercado de trabalho moderno

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05 de fevereiro de 2015

Os irmãos Dardenne. Dois cineastas, mesmo sangue nas veias. Jean-Pierre e Luc Dardenne são de origem belga e dirigem filmes secos, diretos, muitas vezes duros sobre a realidade pessoal escondida por detrás das velhas camadas sociais estratificadas europeias. E foram duplamente ganhadores da Palma de Ouro com “Rosetta” (1999) e “A Criança” de 2005. Porém, de seus retratos que mostram o âmago desesperador da alienação das pessoas hoje em dia, adveio um sucesso estrondoso de público e crítica em sintonia, que foi “O Garoto de Bicicleta” (2011), com certo frescor de diferencial frente as desolações anteriores, pois, apesar de o tal garoto do título ser uma força incontrolável da natureza, ele não se deixa abater por nada, sempre acompanhado pela bondade da cabelereira que deseja adotá-lo (Cécile  de France). Mas por que mencionar um filme de 4 anos atrás? Porque os cineastas começaram a injetar algumas gotas a mais de esperança em seus projetos, como este: “Dois Dias, Uma Noite” (“Deux Jours, Une Nuit”, no original) , com narrativa que não trai seus projetos anteriores, com a diferença de uma perseverança que talvez encontrem na realidade européia também, para sentir a necessidade de refleti-la aqui.

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Em primeiro lugar que espectadores brasileiros talvez estranhem a premissa achando juridicamente improvável que algo assim pudesse acontecer em nosso sistema organizacional laborativo, no entanto é bem um fragmento possível dos absurdos capitalistas a que a concorrência desleal de mercado consentiu. Mario Cotillard, numa interpretação visceral e despida de todos os recursos que poderiam facilitar um ator em sua caracterização, utiliza de todos os recursos expressivos e corporais para dar vida à Sandra, uma funcionária demitida de empresa por maioria dos votos de seus colegas de trabalho, quando ameaçados pela escolha de manter a colega ou receberem um bônus para compartilharem suas funções. O complicador é que a protagonista retornava de uma licença de saúde por depressão profunda e crise de ansiedade, fatores que acometem grande parte da população do mundo atual, e decide com a ajuda do marido e amigos tentar convencer seus colegas a mudar de voto e mantê-la como mais importante para a empresa do que o bônus temporário. É uma prova para si mesma de que pode ser capaz e necessária. E, como qualquer ser humano, ela titubeia, hesita, arrepende-se e esmorece inúmeras vezes, tanto fisicamente pela convalescença da doença quanto pelo psicológico moral de botar os colegas contra a parede em não aceitar o bônus em tamanha recessão econômica européia.

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Não à toa, Cotillard está indicada ao Oscar 2015 de melhor atriz, mesmo sendo um filme franco-belga e nem tendo passado pela peneira inicial dos indicados a melhor filme em língua estrangeira. Ainda assim o lobby para indicação de seu papel é em muito merecido. Eis que da catarse de se confrontar a irracionalidade capitalista versus o intimismo de vulnerabilidade da saúde psicológica moderna versus a recessão de todo o planeta, obtêm-se um incrível diálogo dos diretores com sua filmografia, que, não obstante a aridez de seus temas e desenvolvimentos, fotografia quase toda naturalista, ausência de trilhas sonoras (a não ser esporadicamente diegética, ou seja, se um rádio ou instrumento estiver tocando em cena), e nenhuma pieguice ou melodrama, conseguem tocar fundo a alma em um convencimento interior de cada espectador em relação a o que faria numa situação dessas. Trair a si mesmo, defender sua honra ou a de todos ao seu redor que também têm família para alimentar…? E se você defendeu esta honra pessoal sem prejudicar a alheia, poderá isso sempre lhe abrir portas pela irresignação do espírito?

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5