Dois Disparos

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15 de outubro de 2014

Mariano, um flautista, encontra uma arma de fogo numa caixa de ferramentas em sua casa e acaba disparando dois tiros contra si mesmo: um na cabeça e outro na barriga. Ele não morre. Na verdade, uma bala fica alojada dentro de seu corpo e com isso, passa a emitir uma nota estranha ao tocar sua flauta. Somente a partir desta breve sinopse, já é possível perceber que “Dois disparos” é um filme um tanto que excêntrico. Ambientado em bairros de classe média de Buenos Aires, o longa de Martín Rejtman parece procurar um propósito existencial a partir do surrealismo unido a uma crítica à burguesia Argentina. Não há clímax e nem marasmo. Forma-se um bloco de situações inusitadas que beiram a inverossimilhança e que se concentram em expor as mediocridades do comportamento humano.

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A história, a princípio, se concentra em Mariano, mas logo se percebe que não há um protagonista definido, e desfilam pela tela tipos estranhos e únicos, fazendo remeter, rapidamente, à sofisticada obra de Miranda July, diretora de filmes como “Eu, você e todos nós” (2005) e “O futuro” (2011) e escritora do livro “O escolhido foi você”. Lembrando também o humor negro dos Irmãos Coen e a screwball comedy, “Dois disparos” tem cenas hilárias e diálogos que dão graça à rotina dos personagens retratados, fazendo do filme um estudo psicodélico sobre o cotidiano. Assim como em “Medianeras” (2011), a Argentina, aqui, recebe uma visão panorâmica dos percalços atravessados pelo ser humano ao dialogar com a contemporaneidade e seu didatismo sobre o vazio. A teorização do nada é levada às últimas consequências e constrói-se uma fábula realista recheada de metáforas e paradoxos impulsionados pelos pequenos problemas e pela falta de grandeza da rotina do homem. Além disso, elementos artísticos como cinema e música são adicionados à reflexão que o longa proporciona sobre maternidade, desencontros, coincidências, juventude e solidão, levando a trama para um terreno de poesia e peculiaridade feroz.

 

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Sendo assim, “Dois disparos” entra para o hall de um cinema latino que sabe ousar, transgredir a modernidade em prol das relações humanas nas entrelinhas e utilizar a simplicidade como combustível para fugir do obsoleto. Bom seria se o cinema brasileiro se espelhasse nesse tipo de conceito.

 

Dois disparos (Dos disparos)

Argentina, 2014. 95 minutos

Direção: Martín Rejtman

Com Rafa Federman, Susana Pampín, Manuela Martelli, Benjamin Coelho


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