Dora ou as neuroses sexuais de nossos pais

Filme trata do tabu da sexualidade de pessoas com deficiência mental e de relações abusivas sem atenuações

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10 de outubro de 2015

Cortar o cordão umbilical e admitir que os filhos cresceram e têm desejos próprios pode ser muito difícil para alguns pais; que o diga a mãe de Hector (Lucio Giménez Cacho), de “Club Sandwich” (2013). A situação se torna ainda mais complicada quando o seu filho possui alguma deficiência mental, como é o caso de Dora (Victoria Schulz), menina de 18 anos que acaba de despertar de uma repressão medicamentosa regada a muitos comprimidos de tarja preta. Desde que sua mãe Kristin (Jenny Schily) decidiu suspender todo o seu tratamento psiquiátrico, Dora acorda para um mundo cor de rosa existente apenas em sua cabeça, onde considera todas as novas sensações e experiências incríveis, e tem pressa para descobri-las o mais rápido possível, principalmente explorar o sexo e a sua sensualidade, até então adormecida. Seus pais não sabem como agir diante do novo momento da filha e ficam desesperados quando ela começa a se relacionar com o estranho mais velho Peter (Lars Eidinger), alheia ao modo abusivo e sem caráter como ele age.

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Baseado na peça de Lukas Bärfuss, “Dora ou as neuroses sexuais de nossos pais” é um dos filmes mais polêmicos já feitos. Acompanhar toda a insólita história de Dora sem se questionar e sentir aflição é bastante improvável. Ao mesmo tempo em que os pais da menina se chocam com seu repentino e intenso desabrochar sexual e independente, eles sabem que não a criaram para o mundo, e sim como uma criança grande, sempre dopada. Dora tem vontade de amadurecer e ser igual a todo mundo, mas não foi preparada para tal. É possível observar isso no contraste frequente que a diretora Stina Werenfels (“Going Private”, 2006) faz entre infância e idade adulta ao mostrar Dora comendo danoninho de chocolate depois de transar, devorando uma taça de sorvete enquanto fala de casamento, colocando os dedos na boca a qualquer momento ou apelidando o ato sexual de “pintinho-na-pepeka” (nesta tradução ridícula) como se fosse uma brincadeira inocente dos adultos.

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A câmera de Werenfels (também responsável pelo roteiro ao lado de Boris Treyer) ora expõe o ambiente em que Dora está, seguindo seus movimentos, ora se coloca dentro de sua visão, propositalmente borrada nas bordas não porque a menina tenha algum problema de vista, mas porque suas percepções de mundo são muito limitadas pela falta de experiência de vida, fazendo com que só perceba o que está à sua frente – por isso a dificuldade em compreender a gravidade de sua situação, que pode ser comparada a uma espécie de Síndrome de Estocolmo. Com uma beleza pouco afetada pela deficiência, Dora é tão doce e ingênua quanto intensa e desinibida, e tenta ser sensual à sua maneira para o homem que a iniciou no mundo novo da sexualidade e a engravidou. Gravidez esta que deixou Kristin com um misto de preocupação, inveja e raiva, já que tenta há anos conceber um segundo filho sem sucesso e sua filha deficiente é capaz de abrigar um bebê saudável no ventre.

Com uma trama psicologicamente pesada e complexa, “Dora ou as neuroses sexuais de nossos pais” faz o espectador experimentar sentimentos diversos durante os 92 minutos de projeção e levanta questões delicadas e importantes a serem discutidas com cautela. Um filme corajoso que põe em discussão o tabu em relação à sexualidade de pessoas com deficiência, os relacionamentos abusivos e possui boas doses de polêmica para completar o pacote.

Festival do Rio 2015 – Expectativa 2015

Dora ou as neuroses sexuais de nossos pais (Dora oder Die sexuellen Neurosen unserer Eltern)

Suíça / Alemanha – 2015. 92 minutos.

Direção: Stina Werenfels

Com: Victoria Schulz, Jenny Schily, Lars Eidinger e Urs Jucker.


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