‘Doutor Estranho’ é o feitiço certo para tornar a Marvel mais adulta

Pop dos mais reflexivos, a aventura audiovisual do Mago Supremo confirma o talento do diretor Scott Derrickson para representar o sobrenatural

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03 de novembro de 2016

Benedict Cumberbatch filtra sua canastrice numa atuação divertida como Stephen Strange, um ex-médico que se torna o Mago Supremo

Benedict Cumberbatch filtra sua canastrice numa atuação divertida como Stephen Strange, um ex-médico que se torna o Mago Supremo

Rodrigo Fonseca
Estima-se que em cerca de 48 horas de estreias antecipadas pelo mundo, por conta do feriado de Finados, Doutor Estranho tenha faturado cerca de US$ 87 milhões planeta adentro, sem sequer ter sacudido sua capa nos EUA, sua terra natal, onde foi gestado a partir de um orçamento de US$ 165 milhões, sob a direção de Scott Derrickson. Cifras apontam para um potencial fenômeno comercial e para a confirmação artística de uma promessa: há uns onze anos, quando surpreendeu plateias ao mesclar terror, thriller jurídico, Laura Linney e Tom Wilkinson em O Exorcismo de Emily Rose (2005), ele se fez notar no planisfério hollywoodiano como um talento a se lapidar. Mas o fracasso de seu caríssimo O Dia em Que a Terra Parou (2008) atrapalhou a consagração dele – mas não a sua evolução estética. O que torna a expedição audiovisual da Marvel pelos domínios da magia tão vigorosa – narrativamente – é a presença de um cineasta com pleno domínio da linguagem em busca de esmerilhar seu estilo, apoiado em um elenco de dar inveja a qualquer drama padrão Oscar. Não é qualquer dia que se tem Tilda Swinton, Chiwetel Ejiofor, Mads Mikkelsen e Michael Stuhlbarg num mesmo filme. Assim como não é qualquer dia em que um cineasta filtra a canastrice de Benedict Cumberbatch e apara os faniquitos maneiristas com os quais ele destruiu Sherlock Holmes na série da TV do detetive. Se pensarmos que a escolha inicial para o Mago Supremo era Joaquin Phoenix, brota a curiosidade de saber o quão melhor este longa-metragem já contagiante poderia ficar tendo um dos melhores atores do planeta em seu papel central. Mas como Phoenix pareceu arriscado demais para a Disney, que se avalia o que temos. E o que temos surpreendeu.

Em linhas gerais, Doutor Estranho se afina com os filmes sobre “mitos de formação”, as narrativas de origem, como vistas no antológico Homem-Aranha de Sam Raimi ou em Batman Begins (2005). Somos apresentados à figura do cirurgião Stephen Strange (Benedict, engraçado e viril como nunca se viu), um médico egocêntrico e esnobe que desce aos infernos após sofrer um acidente e ver os ossos de suas mãos estilhaçados. Sem poder clinicar, ele busca uma cura e descobre que um sujeito antes paraplégico, Pangborn (Benjamin Bratt), hoje recuperou os movimentos das pernas. O sujeito dá a dica: um lugar chamado Kamar-Taj, no Oriente, abriga um templo de estudo de artes místicas onde ele encontrou a cura. Strange sai pelo mundo e chega lá, onde tem sua entrada refutada pela Anciã (Tilda, sempre provocativa), espécie de monge que dá ao local seu prumo. Um feiticeiro, Mordo (Ejiofor), apieda-se de Strange e convence a Anciã a acolhe-lo, apesar da arrogância que o recém-chegado esbanja. Naquele local de estudos, o ceticismo do futuro herói chegará ao seu limite máximo, até que ele aprende a fazer viagens astrais, desconectando seu corpo de sua mente, aprendendo ainda sobre os perigos que uma entidade chamada Dormammu, Senhor da Dimensão Negra, representa, assim como é perigoso o maior lacaio desse demônio, o feiticeiro renegado Kaecilius (Mikkelsen, perfeito). A chegada de Strange e sua disposição para os estudos faz dele uma arma ideal no combate a Kaecilius.

Mads Mikkelsen faz de Kaecilius um vilão tenebroso

Mads Mikkelsen faz de Kaecilius um vilão tenebroso e obstinado

Percebe-se aí a primeira singularidade de Doutor Estranho, ainda que ela vá para os terrenos (sempre traiçoeiros) da moral: é um filme de super-herói no qual “estudar” é o verbo mais valioso. Por se tratar de uma produção Disney, ou seja, aberta a toda a família, a reverência à educação faz do filme uma peça valiosa na formação cinéfila de jovens plateias e um tônico rejuvenescedor para a inércia adulta com o aprendizado. Há, moralmente, ainda um juízo no início, com o fato de o desastre de carro de Strange ser ocasionado por ele estar no celular enquanto dirige. Moral e cívica pura.

Os efeitos especiais realçam o tom metafísico do filme

Os efeitos especiais realçam o tom metafísico desta produção de US$ 165 milhões

Em termos plásticos, embora a fotografia faça um investimento excessivo em tons bruxuleados de iluminação, carregado em demasia nos timbres de marrom e sépia, há, no longa, uma direção de arte que salta aos olhos, fugindo da obviedade dos filmes de HQ e mesmo nos filmes de fantasia (vide Harry Potter ou o memorável O Lar das Crianças Peculiares). A biblioteca de Kamar-Taj, organizada por Wong (o clownesco Benedict Wong), é um espetáculo visual à parte. E é nela que ocorrem algumas das passagens de maior humor do roteiro, que abre brechas generosas para a ação, sendo que esta é executada com um nível de realismo que parece ausente da média do filão dos cruzados de capa. Artes marciais garantem adrenalina aos combate, que ganham um reforço (e um alívio cômico) na presença do manto vermelho do Dr. Estranho, que evoca a Mãozinha da Família Addams em sua prosopopeia.

 

Mas há ainda mais uma camada em torno de Doutor Estranho que o torna um filme precioso. Estamos em tempos de maldade, onde os protagonistas que mais fascinam a indústria cultural tem um pé na vilania, tipo Walter White, de Breaking Bad. Mesmo nos filmes super-heróicos, Deadpool e Esquadrão Suicida vieram liberar todo nosso sadismo, necessário nestes dias em que filmes como Batman vs. Superman ou Guerra Civil se vende pelo confronto entre salvadores da Terra. Este foi um ano dominado pelo terror nas bilheterias, vide a obra-prima Invocação do Mal 2. Assim sendo, nada mais pertinente do que um filme que discute o Mal em planos metafísicos, com um herói torto, capaz de apelas para pactos onde outro apelariam para o muque. Mais contemporâneo do que Estranho… impossível.

 

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5