É Apenas o Fim do Mundo

Gritos e Sussurros de um aprendiz de sonhador

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01 de julho de 2017

O protagonista (Gaspar Ulliel) enfim se permite fumar um cigarro ao ar livre sob o sol escaldante, em pequenos closes e planos detalhes dos pés, mãos e olhos, enquanto derrama uma lágrima sutil. Ao mesmo tempo, a câmera subjetiva mostra o ponto de vista recalcado dos irmãos (Léa Seydoux e Vincent Cassel), observando-o da janela do porão da casa que serve de armazém das lembranças enterradas, abaixo do nível do solo, a escutarem a cunhada (Marion Cotillard) e matriarca de todos (Nathalie Baye) gritando de sua cozinha que a comida está pronta! A opressão do calor e do suor escorrendo une a todos na decadência conformista de um bairro do subúrbio, com a trilha do piano tocando em tensão constante ao fundo, no que poderia se situar em qualquer lugar do mundo, mas aqui em “É Apenas o Fim do Mundo” (“Juste La Fin Du Monde”) de Xavier Dolan vira matéria-prima para falar de nossas pequenas mortes diárias.

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Que o diretor franco-canadense Xavier Dolan é um prodígio ninguém pode negar. Mesmo que a cultura da internet tenha criado categorias pop como de ‘lovers’ e ‘haters’ a atrair principalmente os fãs ou detratores extremados dos cineastas mais polêmicos. E, de fato, Dolan possui espectadores tanto no primeiro quanto no segundo grupo, mas é inegável o que o rapaz já alcançou com seu método de produção de cinema. Começou a carreira muito cedo, tanto como ator quanto escrevendo seu primeiro roteiro com apenas dezesseis anos e assumindo a direção para realizá-lo com dezenove: o premiado filme “Eu Matei a Minha Mãe”, que levou três prêmios de revelação em Cannes 2009. Hoje em dia, já acumula outras láureas significativas no mesmo prestigioso Festival na Croisette, como o Prêmio do Júri pela obra-prima “Mommy” e agora o Grande Prêmio 2016 (espécie de segundo colocado logo após a Palma de Ouro) com o novo “É Apenas o Fim do Mundo”.

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Apesar do costume em trabalhar com artistas-assinatura sempre, como Anne Dorval, Suzanne Clément e Nathalie Baye (de “Laurence Anyways”), Dolan foi alçado ao status de all-stars e conseguiu reunir um invejável elenco francês, contando com Marion Cotillard, Léa Seydoux, Vincent Cassel e Gaspar Ulliel, onde só trouxe Nathalie dos habitués. E contou ainda com a dramaturgia do conceituado texto homônimo de Jean-Luc Lagarce, já vertido anteriormente mais de uma vez para o teatro. Então de que forma Dolan poderia adaptar alguma diferenciação para a tela grande de texto já exaustivamente explorado? Em primeiro lugar ele aplicou sua excelente fotografia usual desta vez em privilegiar closes de rostos e nucas, preenchendo os enquadramentos de forma quase íntima aos poros de seus astros, além de uma cromática sépia muito bem pintada, como um sol desbotando.

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Em segundo lugar, a discussão familiar estará mais em evidência do que nunca, numa aproximação que revela sutilezas para além de um grito ou uma lágrima típica do melodrama de Dolan. Como decisão estética, acaba se distanciando dos trabalhos anteriores, apesar de poder ser mal interpretado (e foi, por muitos detratores do diretor), pois esta invasão de privacidade extremada do primeiro plano na tela grande realça tanto os mais invisíveis suspiros, quanto os mais altos berros que Dolan aprecia tanto explorar – os quais aqui, mesmo bem menos frequentes, podem parecer mais absurdos por causa do super close. E isto agrega valores de contrastes, por exemplo, entre as personagens da mãe (Baye) e do irmão mais velho (Cassel), mais histriônicos, e os da irmã (Seydoux) e da cunhada (Cotillard), bem mais contidas, especialmente esta última que é a grande catarse do filme através unicamente de olhares e bocas que exprimem o que não é dito naquele seio familiar que externaliza o oposto do que sente.

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Esta deformação, porém, é intencional. Os personagens são visualmente exagerados e fakes. Aquele não é seu verdadeiro eu. Nem o do filme. Isto é confessado logo nas referências iniciais de quando o protagonista salta do aeroporto, com quadros suburbanos típicos de cidade interiorana de cabeças retrógradas, com pink flamingos nos telhados, idosos pegando sol em cadeiras de praia no meio do asfalto da rua… Em uma homenagem à estética transgressora independente, kitsch e gay da década de 70 como do cineasta John Waters.

Este paralelo é urgente para se entender algo. Apesar de o protagonista na pele do aqui intencionalmente contido Gaspard Ulliel (de “Saint Laurent”) desde o princípio parecer que não deve nada a ninguém, assumidamente gay e bem-sucedido, ele retorna ao seio da família aparentemente para se despedir porque está morrendo. Porém a primeira frase em tela na projeção é “Alguns anos antes”, ao contar a história que vai transcorrer na tela, o que desfaz a impressão de que todo o filme seria uma metáfora óbvia sobre a morte, pois a primeira frase já dá a entender que ele sobrevive ao suposto réquiem auto-anunciado. E mesmo a analogia com o passarinho do relógio da casa fazendo cuco o filme inteiro até cessar nada mais seria do que a morte do eu familiar, e não do eu inteiro; como simbologia de apenas uma fração muito difícil de se desapegar que enfim se permite deixar para trás. – aliás, relógio este do tempo da vida correndo que é outra referência cinematográfica literal ao título da obra-prima de Ingmar Bergman que resume bem o filme de Dolan, para além das más interpretações: “Gritos e Sussurros”. Não comparando com a obra-prima como se estivessem no mesmo nível, e sim aludindo respeitosamente como um aprendiz de sonhador que Dolan é, sempre crescendo e se arriscando em sua carreira precoce.

O filme pode ser encontrado atualmente na grade de programação da NET e do canal por streaming Filmmelier